Quais os principais símbolos do Círio de Nazaré? Conheça a origem e significado de cada um
Além da imagem de Nossa Senhora de Nazaré, a celebração é rica em símbolos que carregam muitas histórias e significados


Quando se fala em Círio de Nazaré, a primeira imagem que vem à mente é a de Nossa Senhora de Nazaré. No entanto, essa celebração religiosa, a maior manifestação católica do Brasil, vai além da devoção à santa. A festa é composta por diversos símbolos que enriquecem a fé e a tradição do povo paraense.
A festa é reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e como Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO.
As celebrações, realizadas em Belém, contam com missas, procissões e romarias que atraem milhões de fiéis todos os anos. Esses momentos são carregados de simbolismo, com elementos que vão desde a Imagem Peregrina, passando pelo manto e a berlinda, até a famosa corda. Além desses, outros elementos completam o cenário da festividade, como as fitinhas coloridas, as crianças vestidas de anjo e o tradicional almoço de domingo.
Confira os principais símbolos do Círio e seus significados.
Imagem original
A história do Círio de Nazaré se inicia com o encontro da imagem original de Nossa Senhora de Nazaré por Plácido em 1700. Essa pequena escultura de madeira, com apenas 28 cm de altura, é considerada a alma da devoção e o ponto central de todas as celebrações.
A imagem original, com seus traços barrocos e história rica, é mantida em um local seguro na Basílica Santuário de Nazaré e sai em procissão apenas em ocasiões muito especiais, como a visita do Papa João Paulo II em 1980 e as comemorações do bicentenário do Círio em 1993.
Imagem peregrina
Para atender ao desejo dos fiéis de acompanhar a imagem de Nossa Senhora de Nazaré de perto, foi criada a imagem peregrina em 1968, pelo escultor italiano Giacomo Mussner. Essa réplica fiel da imagem original foi criada para ser utilizada nas procissões e cerimônias oficiais. A imagem peregrina passou a ser utilizada na procissão do Círio em 1969.
Atendendo a um pedido dos fiéis, o rosto de Nossa Senhora foi adaptado para refletir traços das mulheres amazônicas, enquanto o Menino Jesus carrega a feição de uma criança indígena. Devido ao antigo costume antigo da imagem retornar para a capela do Colégio Gentil após a festa, alguns pensam que é lá que ela permanece ao longo do ano, mas na realidade, a imagem peregrina fica exposta na sacristia da Basílica.
Manto
O manto que envolve a imagem de Nossa Senhora de Nazaré é um dos mais importantes símbolos do Círio. Sua confecção é cercada de mistério e devoção, envolvendo um processo artesanal feito com os mais nobres materiais. Todos os anos, bordadeiras habilidosas se dedicam a criar um novo manto para "Nazinha", como é carinhosamente chamada pelos devotos.
A peça, que é renovada anualmente, reflete partes do evangelho e é visto como um objeto sagrado que protege a imagem da santa durante as romarias. A tradição de confeccionar o manto começou com as filhas de Maria, e, posteriormente, foi assumida pela irmã Alexandra, da Congregação das Filhas de Sant’Ana.
Após sua morte, Esther Paes França, ex-aluna do Colégio Gentil Bittencourt, continuou a missão por 19 anos, criando mantos de extrema beleza e delicadeza. As bordadeiras recebem doações, muitas vezes anônimas, para criar a peça, que é revelada apenas na véspera do Círio.
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Berlinda
Outro símbolo fundamental do Círio é a berlinda, a estrutura de madeira e vidro que transporta a imagem de Nossa Senhora de Nazaré durante as procissões. No início, a imagem era carregada em um palanquim, uma liteira fechada levada no ombro por homens. Foi apenas em 1882, por sugestão do Bispo Dom Macêdo Costa, que a berlinda começou a ser usada para o transporte da santa.
A berlinda atual, que é a quinta da história, foi confeccionada em 1964 pelo escultor João Pinto. Feita de cedro vermelho e no estilo barroco, ela é ornamentada com flores naturais durante as procissões. Em 2012, a berlinda passou por uma reforma que incluiu a aplicação de folhas de ouro e um sistema de iluminação em fibra ótica. A luz branca, usada no interior da berlinda, simboliza a pureza de Nossa Senhora, enquanto a luz amarela externa realça os detalhes da estrutura.
Corda
Com cerca de 800 metros de comprimento, a corda é um dos símbolos mais icônicos do Círio de Nazaré. Desde 1855, quando foi introduzida na procissão, a corda tornou-se um elo físico e espiritual entre os fiéis e Nossa Senhora. Seu uso oficial na procissão começou em 1885, quando passou a substituir os animais que antes puxavam a berlinda, carregando a imagem peregrina.
Feita de sisal torcido, a corda exige grande esforço físico. Milhares de promesseiros se esforçam para segurá-la durante o trajeto da procissão, como forma de agradecer pelas bênçãos recebidas e expressar sua fé. Para muitos, “ir na corda” é um dos maiores atos de devoção à Virgem de Nazaré.
Velas
A palavra “círio” tem origem no latim “cereus”, que significa “vela grande”. Inicialmente, a procissão acontecia à noite, o que explicava o uso das velas para iluminar o caminho dos devotos. Hoje, as velas são um símbolo da fé e gratidão dos promesseiros, que as carregam como forma de agradecer a Nossa Senhora por uma graça alcançada.
As velas podem ter diferentes formas e significados. Algumas são feitas para representar partes do corpo humano, geralmente relacionadas à graça recebida, como um agradecimento por uma cura ou milagre.
Carros de promessas
Os carros de promessas estão presentes no cortejo que acompanha a berlinda e são locais onde os promesseiros depositam objetos como forma de agradecimento e devoção a Nossa Senhora. Cada um dos 13 carros que participam da procissão tem um significado. Entre os mais conhecidos estão o Carro de Plácido, a Barca da Guarda, a Barca com Velas, o Cesto de Promessas, e o Carro Dom Fuas.
Além de objetos simbólicos, os carros de promessas também transportam crianças vestidas de anjos, um dos elementos mais emocionantes da procissão. Essa tradição de séculos reflete a gratidão dos devotos que, em muitos casos, vestem seus filhos como anjos em retribuição por graças alcançadas. A passagem dos carros ao longo do trajeto do Círio é um momento de grande emoção, reforçando o elo entre os promesseiros e Nossa Senhora de Nazaré.
Anjos
A tradição de vestir crianças como anjos no Círio de Nazaré é uma herança portuguesa que remonta a mais de 160 anos. Esses pequenos, com suas asas brancas, são símbolos de pureza e fé, representando os milagres e as promessas atendidas por Nossa Senhora. No Pará, essa tradição ganhou uma dimensão ainda maior durante a festa, com milhares de famílias vestindo suas crianças de anjos como forma de agradecimento e homenagem à Rainha da Amazônia.
Os anjos são um dos destaques da procissão. Para os romeiros, esses pequenos anjos são uma lembrança constante da fé e da devoção que movem o Círio. Sua presença em meio à multidão é vista como uma prova viva dos milagres atribuídos a Nossa Senhora de Nazaré, com os pais muitas vezes vestindo os filhos em resposta a uma graça recebida.
Cartaz do Círio
Um dos símbolos mais presentes durante o Círio é o cartaz oficial da festa. Essa tradição, que remonta ao ano de 1826, quando o primeiro cartaz foi produzido em Portugal, permanece viva até os dias de hoje. Todos os anos, a Diretoria de Marketing da Festa de Nazaré é responsável pela criação do poster, que apresenta o manto e o tema da festividade daquele ano.
O poster não é apenas um material de divulgação, mas também uma forma de homenagem à Virgem de Nazaré. Famílias, empresas e órgãos públicos espalham o cartaz nas portas de suas casas e escritórios, criando uma atmosfera de devoção e fé que toma conta de Belém.
Objetos de promessa
Entre os milhões de devotos que participam da procissão do Círio de Nazaré, muitos levam consigo objetos de promessa como forma de agradecer por uma graça recebida ou fazer um pedido à Nossa Senhora. Esses objetos, que variam de tamanho e significado, são levados pelos promesseiros.
Os objetos mais comuns são as velas e figuras em cera que simbolizam partes do corpo humano, utilizadas por aqueles que receberam curas físicas. Além disso, tijolos, miniaturas de barcos, casas, réplicas da berlinda e até animais de estimação são levados pelos fiéis. É comum também ver promesseiros carregando cruzes, livros e carros de brinquedo, todos simbolizando agradecimentos ou pedidos especiais.
Brinquedos de miriti
Feitos da fibra leve da palmeira buriti, também conhecida como o "isopor da Amazônia", os brinquedos de miriti são um dos mais graciosos símbolos do Círio de Nazaré. Esses brinquedos, entalhados à mão por artesãos com ferramentas simples, ganham vida em forma de barcos, bonecos, cobras, jacarés, pássaros, e até réplicas de rádios e televisões, sempre pintados com cores vibrantes.
Durante os dias do Círio, é comum encontrar esses brinquedos em girândolas - estruturas de miriti em forma de cruz - e nas mãos de promesseiros.
Almoço do Círio
Outro símbolo importantíssimo do Círio é o tradicional almoço, considerado o “Natal do Paraense”. Esse momento de confraternização é uma oportunidade de reunir a família e amigos para celebrar a festa de Nazaré. Em outubro, muitos paraenses que vivem fora do estado retornam a Belém para participar desse encontro.
O cardápio do almoço é recheado de iguarias que dão um toque especial à festividade, como o famoso pato no tucupi e a maniçoba. A preparação desses pratos começa dias antes do Círio, e o cheiro da maniçoba cozinhando lentamente é uma marca registrada nas ruas de Belém. Feiras livres o mercado do Ver-o-Peso se enchem de gente à procura dos ingredientes essenciais para garantir que o almoço seja farto.
Fitinhas
Outro símbolo muito comum durante o Círio são as fitinhas. Elas fazem parte da tradição de amarrar tiras de tecido em punhos, portas e estruturas de igrejas, especialmente ao redor da Basílica Santuário de Nazaré e da Praça Santuário. As fitinhas, que têm cerca de 40 centímetros, são usadas pelos devotos como uma forma de demonstrar sua fé e gratidão por bênçãos alcançadas ou para realizar pedidos especiais à Nossa Senhora.
A tradição de usar as fitinhas no Círio remonta ao final do século XIX, quando começaram a ser usadas como pulseiras, com a crença popular de que cada amarração, com três nós, deve ser acompanhada de um desejo. Até hoje, fitinhas são vistas nos pulsos de milhares de fiéis durante as festividades.
Além disso, as cores das fitinhas também carregam significados. O verde, por exemplo, simboliza esperança; o amarelo, prosperidade; o azul, força; o branco, paz; e o rosa, amor. A cada seis meses, as fitinhas amarradas nos gradis da Basílica são retiradas e incineradas, em um ritual simbólico que dá continuidade à tradição.
*(Hannah Franco, estagiária de jornalismo, sob supervisão de Heloá Canali, coordenadora de OLiberal.com)
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