Conheça a história do bairro Curió-Utinga: engenhos, natureza e a Cabanagem

É o maior bairro de Belém e onde se encontra a maior área de lazer e preservação ambiental.

Victor Furtado / Redação Integrada de O Liberal

O bairro Curió-Utinga é o maior de Belém. Tão grande que tem limites com Ananindeua. Mas antes de ser um dos maiores territórios entre os distritos administrativos, fez parte dos bairros Souza e Marco. Só em 1996, o bairro ganhou esse nome, que uniu duas origens: uma histórica — o engenho Utinga — e uma homenagem a um personagem que morava ali — Francisco Curió.

Na década de 1990, Belém começou a passar por um processo de expansão, como relembra o historiador Diego Pereira, coordenador do curso de História da Unama. Foi um período de transformações e reordenamento do espaço urbano.

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No dia 7 de agosto de 1996, no Diário Oficial do Município, o então prefeito Hélio Gueiros anunciava o novo bairro. Um bairro com nome e planejamento gestados em muita conversa. O Curió-Utinga sempre teve uma comunidade bem organizada. Até hoje, a cada aniversário do bairro, as associações de moradores se reúnem na praça das Castanheiras. Apesar do tamanho do território, não é proporcionalmente tão populoso.

A cada 7 de agosto, membros do centro comunitário das Castanheiras se reúnem para celebrar a fundação do bairro Curió-Utinga. A comunidade é muito organizada e ativa. (Acervo Pessoal do Centro Comunitário das Castanheiras Curió-Utinga)

Curió veio de uma homenagem a um antigo morador do bairro, pontua o historiador. Francisco era um amante da natureza. Amava morar perto de tanta área verde preservada. Amava aves. Justamente pelas matas preservadas, havia uma incidência de curiós no bairro. E Francisco imitava os assobios. Ele trabalhava no lago Bolonha — que abastece a região metropolitana de Belém, junto com o lago Água Preta — e teve uma morte acidental e trágica, em meados de 1950. O nome ficou na memória.

Utinga, explica o professor, em tupi-guarani, significa "água clara". Provavelmente, uma menção à água limpa que está no terreno do parque do Utinga. Mas, curiosamente, um dos lagos se chama Água Preta. Contrastes culturais que ficam melhor sem muita explicação.  

 

A história dos engenhos

Muito antes de Francisco Curió, dois prósperos engenhos existiam na área que hoje compreende o bairro do Curió-Utinga. Um deles era a Fazenda Utinga, que ficava onde hoje está o parque estadual do Utinga. O outro era o engenho Murucutu, cujas ruínas são tombadas como patrimônio histórico e precioso tesouro arqueológico, na estrada da Ceasa.

Ruínas do Engenho Mucurutu são uma relíquia arqueológica sobre a história de Belém, na estrada da Ceasa. Tem vestígios do arquiteto Antônio Landi, das Forças Armadas e da Cabanagem. Outra propriedade famosa da história do bairro é a Fazenda Utinga, onde também havia um engenho. (Cristino Martins / Arquivo O Liberal)

A Ceasa é também marca do bairro. Na estrada de acesso, que é onde fica o Murucutu, ocorreu uma sinistra história recente, entre 2006 e 2008, que foi o caso "Monstro da Ceasa". André Barboza foi condenado a 104 anos de prisão por matar e estuprar três garotos, além de estuprar um quarto, que conseguiu escapar vivo.

As ruínas do Murucutu são muito mais que os restos de um engenho. São uma relíquia por tantas histórias. O local foi construído em 1610 e ganhou o mesmo nome de um igarapé próximo.

Diego Pereira destaca que, em 1766, o famoso arquiteto Antônio Landi — responsável por muitas edificações históricas do centro de Belém — morou lá. Como é de se lamentar nesse período histórico, muitos escravos indígenas trabalharam na propriedade. Lá, o arquiteto ergueu a primeira igreja dedicada a Nossa Senhora da Conceição, com os  Frades Carmelitas. Landi morreu lá, após algum tempo, se tornou uma área de treinamento de tiro das Forças Armadas.

Depois foi a vez dos revolucionários da Cabanagem ocuparem o local. Em 1835, o engenho do Murucutu se tornou se tornou uma base de operações do movimento. E de lá saíram os cabanos para a tomada do poder pelas mãos do povo.

Por muito tempo, a propriedade do Murucutu ficou abandonada. Em 1940, se tornou parte do território da Embrapa. Foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e é estudado por pesquisadores da Universidade Federal do Pará (UFPA) e Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG).

 

Natureza preservada e natureza perdida

O que hoje é o popular Parque Estadual do Utinga, inicialmente se chamou Parque Ambiental de Belém, como foi criado por decreto, em 1993. Uma considerável área preservada no meio da área urbana, com um total de 1.393,088 hectares. Chega até o bairro Águas Lindas.

Muito dessa área se perdeu para a ocupação irregular. E as obras de ampliação da avenida João Paulo II devastaram mais um pedaço. Quem passa pela área expandida da avenida, pode notar vestígios dos muros originais do parque, em contraste com moradias improvisadas e o trecho de asfalto. Nos antigos limites, muitos criadores de pássaros iam até lá. Essa presença de criadores de aves acabou motivando a criação de uma associação voltada a legalizar esse hobby, que por vezes é cortina para caça.

"É um bairro em que, apesar da natureza preservada, tem desmatamento, esgotos a céu aberto, lixo, alagamentos e poluição das águas. É uma percepção dos próprios moradores, segundo pesquisa recente", pontua Diego. Curiosamente, um dos "pontos turísticos" ou "marcos" é a adutora, que há anos fica exposta ao longo da avenida João Paulo II, carinhosamente chamado de "O Tubo".

O "tubo" que fica na avenida João Paulo II — antiga avenida Primeiro de Dezembro — é um ícone do bairro. É até tratado com certo carinho pelos moradores, que o pintaram e criaram jardins no entorno, para evitar o descarte irregular de lixo. (Cláudio Pinheiro / Redação Integrada de O Liberal)

Por fim, o historiador diz ser necessário que o poder público mantenha o ritmo de preservação das áreas verdes e que o bairro preserve a sua história. Mais áreas de lazer devem ser criadas e a população precisa se apropriar. "Não existe futuro sem preservação da história", conclui.

Belém
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