Jurunas, o retrato da diversidade belenense

Um dos mais populosos da capital, bairro mostra pujança, apesar dos problemas

Victor Furtado

Jurunas é um dos bairros mais populosos de Belém. E um dos que mais retrata a diversidade da capital paraense desde a fundação da cidade. É um lugar ocupado por uma população que descende de etnias tradicionais (algumas dão nome ao bairro e vias), ribeirinhos, famílias da classe média dos séculos XVII e XVIII e trabalhadores mais pobres da época. Uma terra de esperança, que marca o afeto dos moradores até hoje. Apesar de próxima de bairros como Nazaré e Batista Campos, foi uma região que contou com menos intervenções urbanísticas do intendente Antônio Lemos.

Assim como Guamá e Condor, o Jurunas começou a fundação pelas margens do rio Guamá. Registros históricos apontam a presença de muitas etnias tradicionais paraenses morando na região por onde passava o igarapé do Piry, um braço do rio. A invasão portuguesa resultou em conflitos que ceifaram a vida de alguns povos. Os que restaram, foram envolvidos no processo de miscigenação. Lentamente, a área ia sendo ocupada, ainda que com péssima estrutura.

Mesmo não sendo urbanisticamente atrativo, o então futuro bairro do Jurunas tinha terrenos de tamanho razoável e preços baixos. Quem não tinha como investir em terrenos nos bairros de Nazaré e Batista Campos, por exemplo, encontrava lá uma oportunidade de construir uma das muitas características rocinhas da época. É o que explica a antropóloga Carmen Izabel Rodrigues, professora do curso de Pós-Graduação em Ciências Sociais - Antropologia da Universidade Federal do Pará (UFPA). A história do bairro é descrita num artigo publicado na revista Mosaico.

No século XIX, o aterramento do igarapé do Piry deu origem ao primeiro esquema de vias do bairro, interligando os demais bairros da época. Uma das principais vias do bairro fazia menção a uma etnia tradicional que deu nome à região: a travessa dos Jurunas. Por um período era conhecida como a "avenida Paulista do Jurunas" pelo intenso movimento e forte atividade comercial. Após alguns anos, essa via se transformou na avenida Roberto Camelier. Outras vias que passam pelo bairro e são comuns de Batista Campos, também levam nomes de etnias tradicionais: rua dos Mundurucus, rua dos Timbiras, rua dos Tembés, rua dos Tupinambás, rua dos Tamoios, rua dos Apinagés...

Apesar da importância da antiga travessa dos Jurunas, a avenida Bernardo Sayão foi fundamental para a formação da população do bairro, que hoje chega a cerca de 65 mil, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Nos vários portos às margens do rio Guamá, chegavam vários migrantes de regiões ribeirinhas próximas, buscando oportunidades onde o desenvolvimento do estado ocorria. Isso desde o início da fundação do bairro. Era por ali que se formavam habitações e comércios pobres.

A professora ressalta que, na passagem do século XIX para o XX, o interesse de políticos e gestores locais em melhorar as condições econômicas, higiênicas e habitacionais da cidade (com ataques diretos à proliferação de barracos e puxadas construídas nos subúrbios), foi transformado em projeto prioritário da administração do intendente Antônio Lemos.

"O bairro recebeu alguma atenção, com vistas ao melhoramento geral da cidade através do 'saneamento da capital, offerecendo à população largas zonas até há pouco tempo inhabitáveis por causa de sua insalubridade', com desobstrução de valas, derrubada da mata e construção de pontilhões, assim como alargamento, aterramento e calçamento de vias, para evitar os 'lamaçaes que as chuvas costumavam fazer n’aquelle sítio baixo e muito transitado'", detalha a antropóloga, citando trechos de declarações documentadas do intendente. Até hoje, o bairro é alvo de constantes obras para melhoria, sobretudo, do saneamento básico, como o da bacia da Estrada Nova. 

Desde o início do desenvolvimento, o Jurunas tem representação cultural muito forte. Isso começou com o fluxo de pessoas que se deslocava às áreas centrais para participar de eventos diversos. Com o tempo, a identidade de cultura própria se solidificou. O bairro possui duas escolas de samba, sendo uma delas a maior campeã dos carnavais de Belém, o Rancho Não Posso Me Amofiná. Também foi onde nasceu e cresceu a cantora Gaby Amarantos, que sempre faz questão de lembrar da origem da família dela.

Devido à formação histórica do bairro, com pessoas mais pobres e marginalização, houve um desenvolvimento em meio à desigualdade social. Isso levou à violência que hoje é um dos problemas crônicos do Jurunas. Mas culturalmente, segundo os estudos da professora Izabel, os moradores costumam defender o bairro  e se representar com muito orgulho. Contra todas as adversidades.
 

Belém