Tapanã: a rota da borracha em Belém e a 'Hospedaria do Inferno'

Conheça um pouco sobre a história do bairro do Tapanã

Victor Furtado / Redação Integrada de O Liberal

Antes conhecido como "Pouso do Tapanã", o bairro que hoje tem o mesmo nome começou a ser ocupado no ciclo da borracha. Era uma área inicialmente composta por grandes fazendas. E uma propriedade em particular era muito conhecida: a hospedaria Tapanã, que ficou conhecida como "Hospedaria do Diabo" ou "Hospedaria do Inferno". Isso porque os "soldados da borracha", a maioria nordestinos, sofreram todo tipo de maus-tratos naquele lugar.

Para quem precisa de uma rápida aula de história sobre esses termos: durante a Segunda Guerra Mundial, o Brasil fez acordos com os Estados Unidos para suprir as Forças Aliadas com borracha. Daí, houve um grande recrutamento de pessoas que seriam os "soldados da borracha", pessoas encarregadas da missão de fazer a extração e produção nos seringais. Muitos eram pessoas pobres, iludidas com promessas de reconhecimento, riqueza e vida nova.

Entre 1942 e 1953, vários nordestinos toparam a missão. Na passagem por Belém, os soldados da borracha ficavam hospedados num galpão com péssimas condições. Era o "Pouso do Tapanã", a "Hospedaria do Inferno" ou a "Hospedaria do Diabo", como retrata a doutora em História Lara de Castro, da Universidade Federal da Bahia. Era onde as promessas de três boas refeições diárias não se cumpriam sem uma considerável contrapartida produtiva dos trabalhadores. Muita gente passava fome e vivia praticamente num regime de trabalho escravo.

O pouso do Tapanã era conhecido como "Hospedaria do Inferno" ou "Hospedaria do Diabo". Muitas denúncias de maus-tratos e escravidão tomaram conta do local na época. (Divulgação / Facebook Belém Antiga)

O ciclo da borracha se encerrou, a guerra também e muitas pessoas, de alguma forma, continuavam buscando oportunidade no negócio. E continuavam seguindo para a hospedaria do Tapanã. Não havia internet e as comunicações eram difíceis. Não tinha como avisar aos outros para não irem para aquela situação. A estimativa histórica é de que pelo menos 63 mil pessoas passaram pela hospedaria e depois não conseguiam voltar para casa. O sofrimento era uma tônica no cotidiano de quem ficou largado á própria sorte.

 

O fim do sonho da borracha e a desigualdade que seguiu

 

Obviamente, não havia como um galpão dar conta de abrigar todo mundo. Logo, os esquecidos soldados da borracha e suas famílias começaram um processo de ocupação do bairro. Algumas fazendas foram invadidas, núcleos de habitação iam se formando. Ainda distante do que viria a ser a "galera do pote", como retrata um melody que reforça o orgulho e amor pelo bairro que os moradores têm, apesar de problemas cotidianos. Por sinal, essa é uma história sobre a identidade do bairro que é praticamente perdida pela falta de registros. Até nisso o bairro é carente.

"A ocupação do bairro Tapanã deve-se, em grande medida, à transformação da terra rural, antes fazendas em terra urbana, a partir do interesse do capital imobiliário. Sabe-se da existência da fazenda Val-de-Cans, que chegava a parte do que é hoje o bairro do Tapanã. Merece destaque o padrão de grandes quadras existentes entre a avenida Augusto Montenegro e a rodovia Arthur Bernardes. É marcante a influência da antiga Estrada de Ferro que ligava Belém a Bragança (onde hoje é a rodovia BR 316) e de seu ramal para Pinheiro (atual Distrito de Icoaraci)", analisa o arquiteto e urbanista José Júlio Ferreira Lima, professor da Universidade Federal do Pará (UFPA).

O bairro se desenvolveu na pobreza e desigualdade social. Eventualmente, a especulação imobiliária trouxe algum progresso, mas pouco diante de tudo o que a área e os moradores precisam para viver melhor. Algumas empresas se instalaram na área, com promessa de emprego e transformação social do bairro, como Brasilit, Frimapa e Socipe. Mas foi uma promessa que não se cumpriu de acordo com o esperado e sobram desempregados no Tapanã. Assim como em todo o Brasil.

Na estrada do Tapanã, há um pequeno complexo de alimentação e entretenimento. A rampa de skate é uma das últimas de Belém para a prática do esporte. Também é chamada de rampa do rap, pois reunia jovens para encontros de hip hop. (Ivan Duarte / Redação Integrada de O Liberal)

Com isso, o bairro praticamente não tem mais fragmentos preservados de história e nem pontos turísticos. O que há é a igreja Jesus Bom Samaritano; um complexo de alimentação, comércio e entretenimento, onde também fica uma das últimas rampas públicas de skate, também conhecida como "rampa do rap"; e um cemitério público. 

 

Especulação imobiliária trouxe moradias melhores e alguma infraestrutura, mas não solucionou nada

 

"Há uma grande atuação do mercado imobiliário ao longo da Augusto Montenegro, inclusive com condomínios verticais, que foram implantados após os condomínios horizontais. Com isso vieram lojas, supermercados e até shopping center, mas não significa que seja um progresso, uma vez que há partes do bairro sem infraestrutura, sem as mesmas condições de acessibilidade, comparadas com outras áreas da Augusto Montenegro", pontua José Júlio.

A igreja Jesus Bom Samaritano é praticamente um dos únicos pontos turísticos do bairro (Ivan Duarte / Redação Integrada de O Liberal)

O Tapanã está num centro de desenvolvimento da área expandida de Belém. É cercado de algumas das principais vias da capital, como a avenida Augusto Montenegro, a rodovia Arthur Bernardes, a estrada do Tapanã e a estrada da Yamada. Mas muitas pessoas apenas passam pelo bairro, que tem problemas de segurança, saneamento e saúde invisíveis. 

Por fim, o arquiteto e urbanista diz acreditar que o mais importante, para que o Tapanã tenha o valor devido e vença os problemas históricos, é melhorar as condições de acesso no interior do bairro. "Integração com os bairros do entorno, implantação de programas habitacionais para população de baixa renda e regulação do uso e ocupação do solo para evitar degradação ambiental nos remanescentes de áreas verdes e os cursos d’água, inclusive com a implantação de esgotamento sanitário, hoje inexistente", concluiu.

Braço do igarapé Mata Fome, hoje totalmente poluído. Antes, dizem moradores, era possível até pescar e tomar a água. (Ivan Duarte / Redação Integrada de O Liberal)

São esses os problemas com os quais o carpinteiro Joelson Souza convive, na rua São João, onde há um braço do igarapé do Mata Fome. "Moro aqui há 20 anos. O que tenho aqui? Nada. Saneamento, saúde, segurança... zero. É uma realidade complicada. Eu mesmo que tenho de fazer a limpeza e desentupir as tubulações dos canais, porque senão as casas alagam com qualquer maré ou chuva. E ainda por cima, os condomínios jogam seus esgotos direto no canal. Antes eu podia pescar no canal. Agora só tem, no máximo, filhote de sapo", lamenta.

Belém
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