Cremação: de quando se buscava soluções para o lixo

Bairro foi um dos primeiros a experimentar calçadas de padrão europeu

Victor Furtado / Redação Integrada

Enquanto Belém se expandia cada vez mais, entre o final do século XVII e início do século XVIII, um comum problema de grandes cidades incomodou o intendente Antônio Lemos: o lixo. Se antepondo a uma crise de resíduos, o então prefeito decidiu buscar uma solução técnica e de qualidade para aquele momento. A resposta foi uma usina crematória. A mais moderna da América Latina, no ano de 1901. Era o marco histórico que daria origem, futuramente, ao bairro da Cremação.

Naquele momento da história da capital, havia monturos de lixo espalhados por vários cantos. Animais mortos também eram abandonados em lixões diversos. O mau-cheiro e aspecto de sujeira incomodavam Antônio Lemos. Atrapalhavam os planos do intendente de tornar Belém em uma "Paris n'América".

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Era uma época em que faltavam políticas e planos para gerir resíduos. Esses monturos de descarte irregular estavam às margens dos primeiros e mais modernos bairros de Belém, que eram Nazaré e Batista Campos, onde moravam as famílias mais ricas. E penalizavam os mais pobres, que moravam nas áreas onde hoje ficam a Cremação e o Jurunas.

Lemos então decidiu aplicar uma série de medidas de saneamento que melhoraram a vida dos moradores dessas áreas mais pobres, incluindo esgotamento sanitário, qualidade da água e arborização. E instalou a "Uzina de Cremação de Lixo de Belém" numa área que ainda era desabitada. Era a rua 22 de Junho, uma via recém aberta, em 1901, como explica a professora mestre Luciana Marinho Batista, do curso de História da Unama. Hoje, essa via é conhecida como avenida Alcindo Cacela, uma das principais vias troncais do bairro da Cremação. Na época, era perfeita para a finalidade de queimar lixo, algo que geraria um odor pouco agradável.

Foi uma das últimas medidas de gestão de resíduos pensadas como solução de longo prazo. Um contraste histórico com a situação atual, na qual com a Política Nacional de Resíduos Sólidos, mesmo obrigados, prefeitos de Belém e de outros municípios da região metropolitana se veem reféns de soluções de empresas privadas, como a Guamá Tratamento de Resíduos, que opera o aterro de Marituba.

Foi na Cremação que Lemos experimentou outras modernidades para os moradores. Entre elas, calçadas de padrão europeu e com pavimento em pedra de lioz, algo que caracterizava o passeio público de Portugal. Mais vias foram sendo abertas que se conectavam com o bairro do Jurunas, Nazaré e Batista Campos. Algumas das vias que homenageiam etnias tradicionais brasileiras também marcam o bairro: Caripunas, Apinagés, Timbiras, Mundurucus, Tupinambás...

A habitabilidade melhorou significativamente, mas ainda era uma área subdesenvolvida e era o bairro onde queimavam lixo. Isso manteve os preços de terrenos em baixa por muito tempo, caracterizando o perfil socioeconômico de boa parte dos mais de 30 mil habitantes que atualmente vivem lá, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).  Contudo, esse perfil já é muito misto. Há uma certa elitização do bairro que vei junto com o processo de verticalização.

A professora Luciana observa que o a ocupação original da Cremação se deu num processo de expulsão dos mais pobres de áreas centrais. O bairro, hoje numa área central, já foi uma área afastada e difícil acesso. E por isso o forno foi pensado para lá.

Com outras medidas de gerenciamento de resíduos, a Usina de Cremação de Lixo de Belém foi desativada na década de 1980. Na tentativa de preservar a memória do forno que deu nome ao bairro, foi construída a praça Dalcídio Jurandir, em 2000. A praça é ampla, com brinquedos  e outros aparelhos. Só que o abandono do espaço e ocupação por pessoas em situação de rua, logo atraiu outros problemas sociais, como a violência e o tráfico de drogas. Tornou a praça num local evitado pela insegurança. Não diferente do que ocorreu com a praça Waldemar Henrique, na Campina.

Apesar de mais conhecido pela história com o forno crematório, o bairro da Cremação tem uma relevância cultural que se mistura com as atividades do Jurunas, sobretudo na tradição com o samba e o carnaval. Uma das primeiras e mais significativas agremiações é a Xodó da Nega, que nasceu na Cremação.

Em 1970, nascia a tradição de malhar o Judas, como destaca a professora Luciana, na rua da Conceição (hoje avenida Engenheiro Fernando Guilhon). O boneco original foi confeccionado na oficina de Manoel Rebelo de Carvalho, artesão conhecido como “Mimor”. O único boneco foi denominado de Pedro Bimbarra (Pedro do Cavaco). Com o passar dos anos, novos personagens foram entrando e se passaram a representar personalidades não muito bem-quistas no Brasil. A programação cresceu e agregou várias outras atividades.

A principal igreja do bairro, que dá nome a uma das vias, é a paróquia de São Miguel Arcanjo. A igreja tem tradição em atividades sociais, como assistência a pessoas mais pobres e cursos profissionalizantes.

 "Essas distâncias de antes não existem mais. E hoje o bairro tem intenso comércio, linhas de ônibus... Ainda há reclamações de vias não asfaltadas e alagamentos por transbordamentos de canais, principalmente neste período do inverno amazônico. Mas destaco a praça Dalcídio Jurandir, onde fica o antigo forno crematório: uma área totalmente degradada e onde a imprensa sempre denuncia o consumo de drogas, assaltos, insegurança para a população e falta de manutenção da praça. E hoje é também um local de abandono de animais", conclui a professora com uma crítica à falha na preservação da memória do bairro.

O Liberal
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