Telégrafo: bairro de contrastes e das ruas que "falam"

Confira as histórias do bairro que nasceu de um matadouro e luta pela sua vizinhança

Victor Furtado

Bairro São João do Bruno. Por esse nome, certamente poucas pessoas reconhecerão o bairro do Telégrafo Sem Fio. Ou simplesmente Telégrafo, como é mais chamado hoje. O nome popularizado pela vizinhança, após a instalação da estação telegráfica que lá marcou a história do avanço da área urbana da capital, faz juz à efeverscência das suas ruas - cheias de pessoas, automóveis, feiras, fios cruzando o ar já cravejado pelos soar dos "sonoros". É o Telégrafo, afinal, um bairro de intensa comunicação, educação e serviços. Com o tempo, a área que abrigava o matadouro de Belém se tornou um vívido centro comercial.

RUAS QUE FALAM

Várias rádios comunitárias existem no Telégrafo. Várias empresas de comunicação e publicidade também. Mas outras formas de comunicação, comercial ou não, resistem, como jornais de bairro, bicicletas e carros de som e bocas-de-ferro... Sempre há uma voz anunciando algo em alguma mídia, como na tradicional esquina da Djalma Dutra com Senador Lemos. Só o serviço de Telégrafo, por desuso da tecnologia, é que não existe mais. Só na memória do bairro.

O Telégrafo nasceu de um pedaço do Umarizal. Antes de se tornar um bairro elitizado, o Umarizal era uma área periférica. Mas, ao passo que a verticalização avançou sobre Belém, as classes mais ricas empurraram as classes mais pobres para outras áreas mais afastadas - e com terrenos de condições pouco agradáveis. Assim, se formou não só o antigo São João do Bruno, mas também a Pedreira.

POPULAR

Assim como a Pedreira, o Telégrafo concentrou uma população muito mista. E um perfil socioeconômico que varia de uma classe mais pobre a uma classe média alta, nos quase 43 mil habitantes existentes hoje na região, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). São reflexos de um bairro residencial que também cresce como zona de serviços e comércio.

A quantidade e diversidade de negócios é ampla: bancos - onde hoje é a chamada Vila dos Bancários, era uma estação meteorológica -, farmácias (o que já é comum em Belém, de qualquer jeito), cartórios, supermercados, mercados, feiras, correios, boutiques, restaurantes, lanchonetes e lojas de vários setores diferentes. Várias igrejas e equipamentos militares também se instalaram na área.

O que falta em histórias complexas como a de outros bairros, se completa pela economia em constante movimento e pequenos eventos que fizeram parte da história de desenvolvimento do Telégrafo. Havia muitas festas, arrastões culturais, movimento de intelectuais em bares, circo e passeios nas praças existentes. 

SONHOS E LUTAS

A inquitude do "bairro falante" do Telégrafo é nada mais que o reflexo da voz e das ações de gente como dona Sandra Silva, 63, professora alfabetizadora aposentada que mora há 25 anos no bairro. Quando foi lá morar, motivou-se pelo sonho de conseguir a casa própria. E lá o realizou.

Mas a integrante da Pastoral da Pessoa Idosa da Paróquia de Perpétuo Socorro nunca parou depois disso. Segue indo à luta - com sua cachorrinha Loraine a tira-colo, quando não está percorrendo de bicicleta as ciclovias do bairro: já conseguiu sinalizar sua rua, a Gonçalves Ferreira, indo dias a fio às portas da administração municipal.

Mais recentemente, segue cobrabdo a Sesan e a Cosanpa para tapar uma constelação de buracos que se abriram na sua vizinhança - após a coincidência das recentes mudanças de trânsito no bairro do Telégrafo com a chegada das chuvas.

"Adoro o Telégrafo. É um bairro de muita ação social e religiosa, por casua da paróquia de Perétuo Socorro. Morar aqui já foi uma beleza. Um lugar onde se botava as cadeiras na calçada para conversar. Mas hoje se vive mais preso em casa, por causa da violência", sorri. 

HISTÓRIA

Nas principais vias do bairro, estão alguns dos marcos significativos do Telégrafo. O velho telégrafo ficava onde hoje é a travessa Coronel Luís Bentes. Um predio histórico abriga a reitoria da Universidade do Estado do Pará (Uepa), instalada no quarteirão abraçado pelas rua do Una e travessa Djalma Dutra - cujas instalações inicialmente foram projetadas como presídio.


O velho prédio da Fundação Curro Velho - que ganhou esse nome pela linha de bonde que se chamava Curro - virou marco, em plena área portuária, na rua Professor Nelson Ribeiro. Aliás, esse território urbano recortado pela avenida Pedro Álvares Cabral é zona de contrastes: abriga, frente a frente, tanto a Vila da Barca quanto os espigões de luxo com vistas para a baía: a paisagem ribeirinha e o sol de Belém, afinal, brilham para todos.

Belém
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