Guamá: uma história de lutas contra a doença, o preconceito e a exclusão

Bairro dribla trajetória iniciada com asilos para hansenianos, para afastá-los do centro

Victor Furtado

O Guamá, em referência ao rio Guamá, é o mais populoso dos 48 bairros de Belém. Tem mais de 100 mil habitantes, compondo um dos perfis socioeconômicos mais carentes da capital.
A desigualdade social de hoje é reflexo de um bairro fundado a partir da exclusão de pessoas com hanseníase - antes chamada vulgarmente de lepra - e doenças mentais, para uma área bem afastada do centro ocupado pelas elites.
Toda a caridade de religiosos, entre os séculos XVIII e XX, não foi suficiente para aplacar o preconceito, conhecimentos médicos atrasados e políticas públicas que não saem do papel.

RAÍZES NA EXCLUSÃO
Registros históricos apontam que, em 1746 foi fundada a fazenda Tucunduba. Em 1755, padres mercedários adquiriram a propriedade, onde criaram uma olaria e um engenho. Ficava próximo ao igarapé do Tucunduba, um dos elementos geográficos mais característicos do bairro - e mais um sinônimo de pobreza e carência até os dias atuais.
Essa história é registrada em artigo do médico patologista e pesquisador José Maria de Castro Abreu Júnior, publicado numa revista do Conselho Regional de Medicina do Pará (CRM-PA).
Era uma época em que a hanseníase era considerada uma praga. Claro, atrelada a péssimas condições de higiene e saneamento básico.
Os escravos eram as principais vítimas desse mal. Os doentes eram chamados de "Lázaros", em alusão ao personagem bíblico - um mendigo que tinha a doença, segundo parábola de Jesus Cristo. Os asilos de hansenianos eram chamados de "lazaretos". Daí uma ofensa conhecida como "lazarento".

CHAGA POMBALINA

Em 1794, o marquês de Pombal expulsou os padres e a propriedade passou para a Santa Casa. A recomendação do governo foi de criar, lá, um asilo para abrigar hansenianos, na maioria escravos, que vagavam pelas ruas após serem abandonados pelos escravagistas.
Após um longo processo, em 1816, era inaugurado o "Asylo do Tucunduba", posteriormente chamado de "Hospício dos Lázaros". Foi um apelido devido às péssimas condições em que se encontravam os pacientes de hanseníase, homens e mulheres, misturados a pacientes com doenças mentais.
O médico patologista e pesquisador paraense Gaspar Vianna, responsável pela cura da leishmaniose, descreveu o local como um pesadelo de saúde pública em publicações científicas.
Como se tornou uma colônia, o pesquisador deixou claro que a hanseníase se expandiu por hereditariedade, devido a relacionamentos entre pacientes. Muitos fugiram das péssimas condições de atendimento, alimentação e maus-tratos. Assim acelerou-se a precária ocupação do bairro do Guamá. Moradias precárias existem até hoje.
Outros três hospitais foram criados com a ideia de conte a crise da hanseníase: Domingos Freire, São Sebastião e São Roque. Esse último se tornou no Hospital Universitário João de Barros Barreto, referência no tratamento de doenças infectocontagiosas como varíola, febre amarela e tuberculose.
O intendente Antônio Lemos chegou a reformar o Asylo, em 1905, mas não resolveu os problemas. Só mudou a estética. O Hospício dos Lázaros foi encerrado em 1938. Hoje dá espaço à creche Frei Daniel.

O BAIRRO "AMALDIÇOADO"
Três cemitérios acompanharam o processo de formação do bairro, reforçando o perfil de ser um lugar de exclusão: um pequeno "campo santo", construído próximo ao Asylo do Tucunduba (desativado em 1887); o cemitério de Santa Isabel, inaugurado em 1878; e o cemitério da Ordem Terceira de são Francisco, inaugurado em 1885, em frente ao Santa Isabel. Moradores das elites belemenses chamavam a área que hoje compreende o bairro de "amaldiçoada".
José Maria lembra que o governador Lauro Sodré, após inúmeras crises envolvendo os hospitais e asilo, anunciou "com toda a pompa", a pedra fundamental de um novo hospital. Nunca saiu do papel. Eventualmente, a Colônia do Prata e a colônia de Marituba, novamente em áreas afastadas, se tornaram novos depósitos excludentes de pessoas com hanseníase.
"Como é comum até hoje, em se tratando de obras públicas, o novo leprosário jamais passou da pedra fundamental. A lepra, embora ainda hoje conhecida em boa parte do mundo por este nome, no Brasil, passaria a ser chamada de Hanseníase, provando que em nosso país, a melhor forma de erradicar uma doença é mudar seu nome", critica José Maria.

ALMA DE BORRACHA
No século XX, a ocupação do bairro seguiu a mesma lógica que outros bairros periféricos de Belém, como Terra Firme, Cremação, Pedreira, Jurunas, Canudos, Condor, Telégrafo, Umarizal e Reduto.
Alguns deles tiveram uma mistura de perfis socioeconômicos. Mas outros, quando se tornaram elitizados, como Reduto e Umarizal, empurravam as classes sociais mais pobres para áreas afastadas, alagadiças e mais baixas.
Durante a economia da borracha, nordestinos chegavam a Belém por São Brás. Tinham acesso mais fácil ao Guamá para localizar moradias mais acessíveis. Esse é um dos registros históricos, descritos na dissertação de mestrado de José do Espírito Santo Dias Júnior, publicada em 2009.
Lentamente, o bairro do Guamá foi se formando, ao passo que ganhou mais condições de vida, ainda que precárias. Mas até hoje é um reflexo de pobreza, políticas públicas não executadas ou mal executadas.
Ribeirinhos chegavam pelos portos, ao longo da orla que hoje compõe a paisagem da Universidade Federal do Pará, e margens pela avenida Bernardo Sayão, em busca de oportunidades na cidade que se expandia, principalmente vindos do rio Guamá, rio Acará e Baixo Tocantins, destaca Dias Júnior.

O NÓ DA VIOLÊNCIA
Atualmente o Guamá é um dos bairros com maior índice de violência da capital, também como consequência de um processo de preconceito e exclusão. Uma população iniciada por pessoas doentes, descendentes de ribeirinhos, escravos e indígenas, se virando numa área de baixo desenvolvimento.
O geógrafo e especialista em Planejamento Urbano Aiala Colares, do grupo Observatório de Estudos em Defesa da Amazônia, da Universidade Federal do Pará (UFPA), reforça que a presença precária do Estado e de políticas públicas efetivas, abre brechas para a expansão do crime e potencialização de facções criminosas. O processo de exclusão e abandono nunca terminou.
"O poder criminoso existe e está enraizado, institucionalizado e organizado, misturado e infiltrado na política, no governo, nos órgãos de segurança pública e na sociedade em geral. Esse poder não se constitui pela ausência do poder público e sim pela presença precária que permite que criminosos se apropriem. Em casos como o das pichações sobre ser proibido roubar na comunidade, é quase conivência ou conveniência pelos serviços mal prestados. A comunidade fica num fogo cruzado", critica o geógrafo.
Aiala completa: "Primeiro, o grupo criminoso faz apologia ao crime, mas oferecendo uma falsa proteção. E então a comunidade acaba aceitando o controle e os crimes praticados por quem os protege. Por outro lado, é um clima de opressão constante, inclusive da polícia. E tudo isso pelas falhas graves da própria Segup e de todos os órgãos de segurança pública do país".

RESISTÊNCIA, FÉ, AMOR E CULTURA
Curiosamente, uma das maiores ironias do bairro do Guamá é que lá, justamente, está um dos principais centros de produção de conhecimento e ciência, que e a UFPA. Uma das principais vias do bairro, que também passa pela Terra Firme, a Perimetral, reúne outras instituições científicas: Ufra e CNPQ. O nome original da via é "Perimetral da Ciência".
O bairro segue uma lógica de resistir aos preconceitos e processo de formação excludente e de abandono. Além do conhecimento gerado na UFPA, há uma característica de produção cultural marcante. O bairro é lar de uma das escolas de samba mais tradicionais de Belém, a Bole-Bole.
Basílio Pereira Barros, de 69 anos, é um feirante do bairro do Guamá. Mora lá há mais de 55 anos. Ele diz que ama o bairro porque foi onde comprou a casa dele. Foi onde criou os seis filhos e oito netos, na rua do Tucunduba. Todos moram o bairro. "Não tem por que não gostar do bairro. Feira perto, supermercado perto, ônibus... Antes eu morava na Estrada Nova. Minha vida é vender camarão e meu coração agora está aqui no bairro", diz. Mas reclama que a criminalidade é o principal problema, que precisa de mais policiamento e políticas públicas para ser enfrentado.
Há também a forte devoção dos moradores do Guamá a Santo Antônio, que tem uma capela e um abrigo de idosos. O santo era um franciscano, que fez voto de pobreza e humildade. Por isso, a população mais carente do bairro se identifica com ele.
O santo também é considerado padroeiro dos amputados, dos doentes, dos animais, dos estéreis, dos barqueiros, dos idosos, das grávidas, dos pescadores, agricultores, viajantes, marinheiros, cavalos e burros, dos pobres e dos oprimidos.

Belém
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