Conheça a história do bairro de Val-de-Cans (ou Cães): sobre idosos, cachorros e militares

Historiadores garantem que as duas grafias do bairro estão corretas, apesar de uma ser oficial. No entanto, as duas possíveis origens ocorrem quase ao mesmo tempo

Victor Furtado / Redação Integrada de O Liberal

Há pelo menos duas origens aceitas por historiadores para o bairro Val-de-Cans (ou Cães). Ambas são consideradas corretas, pois as duas ocorrem quase no mesmo período. É um bairro de muitas histórias e marcado pela presença de militares ao longo do desenvolvimento. Graças às áreas preservadas pelas forças armadas, o bairro possui uma considerável cobertura vegetal. E por muito pouco, não foi um distrito de Belém, assim como Mosqueiro, Outeiro e Icoaraci.
 

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As duas possíveis versões da origem do bairro começam no século XVII e se remetem à geografia daquele território, que ganhou o nome de vale (val). Uma delas, que é a que dá o nome oficial, trata de uma comunidade de negros idosos. Em latim, o envelhecimento é associado à palavra "canus". E aí virou "cans". Daí o vale dos idosos, o Val-de-Cans. "Poderiam ser alforriados ou remanescentes de quilombos", pontua o historiador Diego Pereira, coordenador do curso de História da Unama.

As duas origens do bairro estão ligadas a idosos e cães. Ambas são consideradas corretas por historiadores. A placa da travessa Guajará contraria a grafia oficial e usa a alternativa: Val-de-Cães (Ivan Duarte / Redação Integrada de O Liberal)

Outra versão lembra de uma enorme propriedade rural que existia na área onde hoje está o bairro. Era uma fazenda da Ordem das Mercês. Lá, os religiosos mantinham canis. E assim, a fazenda ganhou o nome que talvez tenha sido o nome original do bairro, Val-de-Cães. Devido ao que representava, acabou sendo mudado para "cans". Para as elites que moldaram a história de Belém, era menos esquisito morar no vale dos decanos do que no vale dos cachorros.

Essa fazenda foi deixada aos padres mercedários, em testamento, por uma mulher chamada Maria Mendonça, em 1675, ressalta Diego. O estado português, então monarquia dominante, tomou as terras dos religiosos no século XVIII. Em 1934, o general Gaspar Dutra então determina a escolha de uma área para a instalação de um aeroporto.

Inicialmente, esse aeroporto era para hidroaviões. Após a Segunda Guerra Mundial, a modernização foi necessária, com a instalação de uma base aérea, construída por norte-americanos. Foi o momento de início do desenho do que viria a ser o Aeroporto Internacional de Belém e de como o bairro viria a se desenvolver.

O Aeroporto Internacional de Belém, antes, servia apenas para hidroaviões. A partir da Segunda Guerra Mundial, a modernização chegou, juntamente com a intensa militarização do bairro de Val-de-Cans (Cães). (Ivan Duarte / Redação Integrada de O Liberal)

Historicamente, Val-de-Cans se organizou em conjuntos habitacionais que revelam o quão diverso é o perfil socioeconômico da área. Há áreas mais humildes e outras mais elitizadas, ilustradas pelos conjuntos Paraíso dos Pássaros — com as curiosas vias com nomes de aves —, Marex e Cristal Ville, além de vilas militares. Pelo último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, em 2010), é um território com o total de 7.032 habitantes. Há uma destacável faixa etária jovem.

Pela extensão do conjunto Marex e diversidade de linhas de ônibus, muitas pessoas costumavam achar que Marex era um bairro. E a praça do Marex é um centro sociável, apesar de histórico de violência. É o melhor complexo de skate público de Belém (entre os poucos espaços disponíveis). Há também um comércio de alimentos significativo. Outro centro, mas com perfil um pouco mais diferenciado, é o shopping que fica na avenida Centenário. É considerado um bairro de boa qualidade de vida, apesar dos contrastes sociais.

O conjunto Marex é tão significativo que muitos pensam ser um bairro próprio, mas é parte de Val-de-Cans (Cães). A praça do conjunto é um dos poucos espaços públicos existentes para a prática de skate. (Ivan Duarte / Redação Integrada de O Liberal)

Entre Val-de-Cans e a Marambaia, há uma área preservada pela Marinha, que seria o Parque Ecológico do Município de Belém Gunnar Vingren. Uma área que deveria ser destinada à visitação e educação ambiental. Tipo um Parque do Utinga municipal. Contudo, hoje é alvo de construções irregulares diversas. E a ideia não evoluiu. A entrada hoje está em ruínas.  

Na opinião do historiador, é importante que o bairro recebe modernizações necessárias a um bairro tão estratégico. Tem três vias importantes — avenida Júlio César, avenida Centenário e avenida Arthur Bernardes —, um aeroclube, um aeroporto, portos, indústrias... "Vale lembrar que o Aeroporto Internacional de Belém já foi um ponto turístico. Mas isso ficou apenas na memória. Porém, deveria ser um centro de condensação cultural da região para quem chega e para quem vai. A estrutura em si precisa ser modernizada também", disse.

Entre cachorros e idosos, o sociólogo José Queiroz Carneiro, em texto publicado no blog dele (Memórias do Pará), garante que quem quiser pode chamar e escrever o nome do bairro como quiser. Val-de-Cans ou Val-de-Cães. Não cairá numa armadilha, apesar da recomendação do professor Saint Clair Trindade Júnior recomendar a grafia usada oficialmente ("Cans"). O assunto  já foi tema de diversas pesquisas de jornalistas e historiadores, como Ernesto Cruz, Carlos Rocque, Augusto Meira Filho e Clóvis Meira.

 

VAL-DE-CANS

- Poema escrito por Cristóvam Araújo, publicado no blog Memórias do Pará, de José Queiroz Carneiro  

"Vale dos cães, ou das cãs,
Dos idosos abrigados
Nos idos tempos pré-guerra,
Ou dos cães que, abandonados,
Espalhavam-se no vale,
Buscando matar a fome
Com algum bicho descuidado?

Difícil saber agora,
E talvez não seja nada
Do que se diz nesta hora
Cans, traduzindo do inglês,
Torna-se lata, latinha,
Caixote, latas, latões
Vira lata, e, portanto,
A origem talvez seja,
A dos cães abandonados
Que invadiam o hangar
Das latas velhas voadoras
Que chegavam da América.
Mistério, pois, explicado
”.

Belém
.

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