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Entenda como as violências sexuais e domésticas causam danos psicológicos; saiba o que fazer

A naturalização de práticas violentas está por trás de muitos relacionamentos abusivos, explica a psicóloga Bárbara Sordi

Camila Guimarães
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Nos últimos dias, a morte da influenciadora Luma Bony, de 23 anos, ocorrida no mês passado, veio à tona após a prisão de Maurício César Mendes Rocha Filho, 25, acusado de expor vídeos íntimos de mulheres e sem consentimento. O caso também levantou questionamentos a respeito de violência sexual e suas consequências para a saúde mental, o que pode ter sido o motivo pelo qual a vítima decidiu tirar a vida. Na avaliação da psicóloga e facilitadora de círculos restaurativos em violência doméstica, Bárbara Sordi, essa e outros tipos de violência têm potencial para causar danos psicológicos.

Bárbara explica que o Brasil como um todo vive uma cultura em que diversas práticas violentas ainda são naturalizadas, o que explica porque muitas mulheres são vítimas de relacionamentos abusivos e, da mesma forma, muitos homens reproduzem violência com tanta facilidade. Essa cultura, que normaliza alguns gestos violentos, faz com que eles não sejam percebidos como tal, até que se agravam e se tornam algum tipo de violência mais visível - como a violência física explícita.

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"O ciúme, por exemplo, é tido como prova de amor. Isso confunde o que é cuidado, o que é respeito, o que é controle. A gente também vem de uma cultura de práticas abusivas dentro de casa que são naturalizadas, como apanhar para 'educar', apanhar 'porque se importa', ou porque a criança cresceu vendo o pai agindo de determinadas maneiras contra a mãe e passa a achar que é normal. Isso tudo faz com que muitas pessoas não percebam certas práticas", comenta a especialista.

Além disso, muitas vezes a concepção de violência também é limitada, conforme observa Bárbara, ao comentar sobre a recente tipificação da violência psicológica contra a mulher como crime, reconhecido apenas desde julho do ano passado:

"Acho importante destacar essa inabilidade, tanto que a lei da violência psicológica é recente. Até pouco tempo, quando a mulher ia à delegacia, se ela não tinha marca no corpo, ela não tinha o que fazer lá, ela não tinha como provar que sofria violência. Então esse entendimento mais amplo foi fundamental".

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Perceber a violência para evitar piores consequências

Bárbara conta que é muito comum que a violência sexual, doméstica ou psicológica só seja encarada como tal quando começa a atingir níveis mais graves. Antes disso, é muito comum não apenas a demora da própria vítima em encarar o fato, mas também de amigos e familiares levarem a sério alguns sinais:

"Justamente por causa dessa cultura que naturaliza violência, não é incomum que, quando alguém relata algo de agressão, essa pessoa não é levada à sério pelo entorno. A violência psicológica principalmente. Às vezes as pessoas tiram por menos, acham que é algo que faz parte do relacionamento, que tem altos e baixos, que é uma fase e vai passar. Por sua vez, a vítima também demora a buscar ajuda, em muitos casos, e há várias explicações por trás disso. Infelizmente, muitas só buscam ajuda quando o companheiro faz algo como agressão física ou ameaça de agressão física, ou quando a vítima já está em depressão profunda".

Vergonha, medo, falta de rede apoio, dependência emocional, financeira, patrimonial, entre outras, também estão entre as razões pelas quais muitas mulheres demoram a buscar ajuda para sair do ciclo de violência de uma relação. Com isso, muitas acabam progredindo no adoecimento mental, que pode ir desde um retraimento, com perda de vínculos sociais, até o suicídio, que Bárbara descreve como um último grito de socorro.

"A gente precisa deixar claro que a violência também se dá por manipulação, coerção, falas de desvalorização que faz com que a mulher acredite que ela é incapaz, feia, que não consegue. Coisas que promovem a retirada da pessoa do meio social ou que acabam tolhendo coisas que ela faz por ela mesma", acrescenta a psicóloga.

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Conhecer o passado do parceiro pode ser uma forma de prevenção

Apesar de ainda ser um conselho que causa algum tipo de estranheza, Bárbara afirma que a busca por conhecer o histórico dos parceiros é uma atitude necessária. É importante conhecer a história de relacionamentos anteriores, o motivo dos rompimentos, o tempo da última relação, e mesmo se existe ou não algum processo ou medida protetiva deferida contra o possível parceiro.

"Sempre é interessante que você observe se existem práticas de violência em relações anteriores. É importante que, quando você comece a se relacionar, você conheça o histórico dessa pessoa, até mesmo se tem uma ocorrência policial contra ela, algum registo na Maria da Penha e coisas do tipo".

A cura dos danos é possível

Uma vez que a vítima de violência procura ajuda, ela rompe com o ciclo. Bárbara pontua que qualquer tipo de pedido de ajuda já é válido, desde contar a situação a um amigo ou familiar até a procura pela Justiça. Entretanto, ela enfatiza que buscar órgãos de segurança e formalizar denúncia é fundamental para que a mulher tenha acesso a medidas de proteção. Além disso, Bárbara também garante que existem formas de tratar as consequências psicológicas da violência:

"A principal forma é o acolhimento de familiares e amigos. O apoio psicoterapêutico também faz muita diferença, assim como de grupos terapêuticos de mulheres, grupos feministas que têm leitura crítica das relações de gênero etc. Esses serviços são fundamentais. Às vezes eles precisam estar associados à psiquiatria, mas não sempre. Mas é possível, sim, restaurar tudo que a violência destruiu. Mas não é simples. É um processo, mas a gente precisa entender que, dependendo da violência, existem marcas que ficam. Só que é possível a ressignificação psíquica dessas marcas".

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