Paysandu deve cinco vezes mais do que o declarado na recuperação judicial No pedido aprovado pela justiça, clube declarou dívidas de pouco mais de R$ 16 mi, no entanto, totalidade de débitos chega a quase R$ 75 milhões Igor Wilson 24.02.26 8h00 Torcedores protestaram contra a diretoria durante muitos jogos na Curuzu (Thiago Gomes/O Liberal) O pedido de recuperação judicial do Paysandu é tratado oficialmente pelo clube como resposta a uma dívida estimada em cerca de R$ 16 milhões, valor apresentado à Justiça como passivo a ser reorganizado. Para pessoas que acompanharam o clube por dentro, no entanto, esse número não reflete a real dimensão da crise financeira vivida pelo Papão. Segundo o ex-diretor de futebol Frederico Carvalho, a dívida total do Paysandu é muito superior à informada no pedido judicial e gira em torno de R$ 75 milhões, resultado de mais de uma década de gestões marcadas por antecipações recorrentes de receitas, ausência de transparência e falta de governança, apesar da troca formal de presidentes. WhatsApp: saiba tudo sobre o Paysandu “O clube entrou na Justiça dizendo que deve um valor, mas a dívida real é muito maior. Se você considera passivo trabalhista, fiscal e compromissos empurrados de um ano para o outro, esse número passa fácil dos 70 milhões”, afirma Frederico. O agravamento da crise começou a ficar evidente ainda em 2023, quando o Paysandu passou a antecipar receitas futuras para fechar as contas do presente. A prática, comum no futebol, passou a ser usada de forma recorrente, o que, para especialistas, já indicava que o clube operava acima da sua capacidade financeira real. VEJA MAIS Recuperação judicial escancara crise financeira do Paysandu Decisão da Justiça suspende execuções por 180 dias enquanto clube apresenta plano para renegociar dívidas milionárias Enquete aponta ex-dirigentes como principais responsáveis pela crise financeira do Paysandu Papão passa por crise fora das quatro linhas e pediu Recuperação Judicial na Justiça Roger Aguilera, Matheus Nogueira e outros: confira a lista de credores do Paysandu Em recuperação judicial, Papão tem mais de R$ 70 milhões de dívidas Para o advogado Petterson Sousa, ouvido pela reportagem, a antecipação constante é um sinal clássico de alerta. “Quando a empresa pede antecipação de receita de forma contínua, é porque não tem caixa. Isso indica desequilíbrio financeiro e falhas graves de planejamento”, explica. A estratégia foi mantida mesmo com o clube exposto ao risco esportivo. O rebaixamento, posteriormente, transformou o que já era frágil em colapso financeiro. “O clube antecipou receitas apostando em permanência em divisões superiores. Quando isso não aconteceu, a conta simplesmente explodiu”, completa Petterson. Para Frederico Carvalho, a crise pode ser atribuída a um grupo. Segundo ele, as gestões dos últimos 13 anos estiveram ligadas a um mesmo grupo político, independentemente de quem ocupava formalmente a presidência. “Todos os presidentes desse período têm responsabilidade. Mudavam os nomes, mas o comando era o mesmo”, afirma. Frederico Carvalho esteve nos protestos contra a falta de transparência da gestão de Roger Aguilera no ano passado (Tarso Sarraf/O Liberal) Nesse contexto, Frederico cita diretamente Maurício Ettinger e Roger Aguilera, figuras centrais da política interna do clube ao longo da última década. Aguilera, que assumiu a presidência em 2024 após atuar como vice e ocupar cargos estratégicos em gestões anteriores, já estaria — segundo Frederico — plenamente ciente da situação financeira quando foi eleito. “Ele estava lá antes, participou das decisões e sabia do buraco financeiro”, diz. Falta de transparência A crítica mais contundente diz respeito à ausência de prestação de contas confiável. Frederico afirma que, ao longo dos últimos anos, o clube não conseguiu fechar balanços consistentes, mesmo em períodos de arrecadação recorde. “As contas nunca fechavam. Quando uma auditoria apontava inconsistência, trocava-se de auditor. Não havia transparência nem governança”, afirma. Ele também cita possíveis movimentações financeiras irregulares, como depósitos de recursos do clube em contas e empresas ligadas a dirigentes de gestões passadas, episódios que, segundo ele, constam em auditorias internas e documentos públicos. “O Paysandu arrecadou mais de R$ 75 milhões em 2024 e mais de R$ 85 milhões em 2025. Mesmo assim, terminou atolado em dívidas. Isso não é má fase esportiva, é má gestão”, diz. VEJA MAIS Presidente do Paysandu explica por que recuperação judicial tramitou em segredo: ‘estratégico’ Segundo Márcio Tuma, medida foi adotada para evitar uma possível reação em cadeia de credores. Crise no Paysandu: Entenda as diferenças entre Recuperação Judicial e RCE RCE foi usado pelo Remo para quitar as dívidas trabalhistas em 2023. Stay period: o que significa a suspensão das dívidas do Paysandu por 180 dias? Credores não podem promover bloqueios de contas, penhoras ou atos de constrição patrimonial contra o clube. A conta que não fecha Atualmente, o Paysandu disputa a Série C e tem como principal receita um patrocínio master estimado em cerca de R$ 6 milhões, valor considerado irrisório diante do tamanho do passivo real. A situação se torna ainda mais sensível com a declaração pública de Roger Aguilera de que o clube lhe deve cerca de R$ 12 milhões. O dirigente afirmou que abrirá mão do valor por “amor ao Paysandu”. Roger Aguilera renunciou no final de 2025 (Jorge Luís Toti/Paysandu) Para críticos, a declaração reforça o grau de confusão financeira que tomou conta do clube. “Se o próprio presidente diz que o clube deve milhões a ele, isso mostra o nível de desorganização. E abrir mão dessa dívida não resolve um passivo de 75 milhões”, avalia Frederico. Recuperação judicial sem dinheiro? Para especialistas, o pedido de recuperação judicial só faz sentido se houver uma fonte concreta de recursos para sustentar o plano de pagamento — algo que hoje não está claro. “Recuperação judicial não é milagre. Sem dinheiro novo, ela não se sustenta”, diz Petterson Sousa. “Ou o clube tem uma proposta para virar SAF, ou essa recuperação não se sustenta. Não existe plano possível para pagar 75 milhões sem receita estrutural, sendo que o maior patrocínio do clube é de R$ 6 milhões. Essa conta não fecha, é coisa de maluco”., avalia Frederico. Possível SAF Nos bastidores, a possibilidade de transformação do Paysandu em Sociedade Anônima do Futebol (SAF) ganha força como saída viável para um clube que, segundo críticos, já ultrapassou o limite da autossustentação financeira. “O presidente pode ser que já tenha uma proposta de compra, é possível como saída, pois o clube não tem dinheiro pra pagar o que está se comprometendo no pedido de recuperação judicial, então a SAF viria como a solução deles, vamos aguardar”. Nos próximos 60 dias, o Paysandu terá de apresentar à Justiça um plano detalhando como pretende pagar suas dívidas. Até lá, o pedido de recuperação judicial expõe não apenas a fragilidade financeira atual, mas também um modelo de gestão que empurrou problemas por mais de uma década — até que não houvesse mais para onde empurrar Assine O Liberal e confira mais conteúdos e colunistas. 🗞 Entre no nosso grupo de notícias no WhatsApp e Telegram 📱 Palavras-chave paysandu COMPARTILHE ESSA NOTÍCIA Paysandu . 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