Recuperação judicial escancara crise financeira do Paysandu

Decisão da Justiça suspende execuções por 180 dias enquanto clube apresenta plano para renegociar dívidas milionárias

Eduardo Rocha
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Prestes a encerrar o segundo mês de 2026, o Paysandu tornou pública a dimensão da crise financeira que atravessa. Rebaixado para a Série C do Campeonato Brasileiro após terminar 2025 na lanterna da Série B, o clube agora enfrenta um passivo de R$ 16,7 milhões e recorreu à recuperação judicial para tentar reorganizar as finanças e manter as atividades esportivas.

O pedido foi deferido pela Justiça do Pará na sexta-feira (20). A decisão é do juiz Ivan Delaquis Perez, da 12ª Vara Cível e Empresarial de Belém, que reconheceu que, embora constituído como associação civil, o clube exerce atividade econômica e pode utilizar o instrumento legal para superar a crise financeira e evitar a falência.

Justiça suspende dívidas por 180 dias

Com o deferimento da recuperação judicial, o Paysandu passa a contar com a suspensão de todas as execuções e bloqueios pelo prazo de 180 dias, período conhecido como stay period. Durante esse prazo, o clube deve protocolar, em até 60 dias, um plano estruturado de pagamento.

O plano será submetido à Assembleia Geral de Credores. Se aprovado, passa a nortear a reestruturação financeira. Se rejeitado ou descumprido, a legislação prevê a possibilidade de decretação de falência.

Segundo o administrador judicial e contador Cláudio Humberto Barbosa, ouvido pelo Núcleo de Esportes de O Liberal, a medida não significa um colapso financeiro automático.

"Vejo como uma medida jurídica legítima e cada vez mais utilizada por clubes brasileiros. A decisão do Judiciário não significa aprovação automática da pretensão do clube, mas o reconhecimento de que existe uma crise financeira que merece ser reorganizada de forma coletiva, supervisionada e transparente, evitando execuções isoladas que poderiam inviabilizar a atividade esportiva".

Função do administrador judicial e base legal

Cláudio Humberto Barbosa atua há mais de duas décadas na área da perícia contábil. Foi nomeado administrador judicial pela primeira vez em 2007 e já assumiu processos complexos de recuperação judicial e falência. O administrador judicial é auxiliar do juiz no processo de recuperação.

"Ele fiscaliza as atividades do devedor, acompanha a situação financeira da instituição, verifica os créditos apresentados pelos credores, elabora relatórios periódicos e garante transparência e equilíbrio, durante todo o processo, entre o interesse de quem requer a recuperação judicial, no caso presente, um clube, e seus credores. Isso está previsto no art. 22 da Lei 11.101/2005", explica Cláudio.

O que é recuperação judicial

O especialista detalha que a recuperação judicial corresponde a "um mecanismo legal que permite a uma instituição renegociar suas dívidas com proteção temporária contra cobranças judiciais, mantendo suas atividades enquanto apresenta seu plano para pagar os credores de forma organizada e sustentável".

Embora a situação seja delicada, ele ressalta que não se trata, necessariamente, de insolvência definitiva.

"Grave seria não buscarem mecanismos legais. Ao meu ver, significa que a situação exige reorganização estruturada, mas não necessariamente colapso financeiro. A recuperação judicial normalmente é utilizada antes da insolvência definitiva, justamente para evitar que a crise se torne irreversível".

Risco de falência depende do plano

Cláudio destaca que o deferimento judicial indica viabilidade operacional reconhecida pela Justiça.

"O deferimento da recuperação judicial, além de reconhecer o direito, indica que ainda há viabilidade operacional reconhecida pelo Judiciário. Eventual convolação em falência ocorreria se o clube, tendo apresentado plano de recuperação, não conseguir cumpri-lo ou, ainda, tiver seu plano reprovado em assembleia geral de credores. Também existe risco de medidas mais gravosas se houver descumprimento das obrigações legais ou má gestão durante o processo, hipótese em que o juiz pode afastar a administração do clube e nomear um gestor judicial para conduzir a recuperação", explica.

Endividamento e necessidade de reorganização

Questionado se a medida é acertada, o administrador judicial afirma. "Não tomar qualquer medida seria erro. Do ponto de vista técnico, é uma decisão coerente quanto ao grau de endividamento, possíveis execuções simultâneas etc. A recuperação judicial cria um ambiente de negociação coletiva e previsibilidade financeira, o que tende a ser mais eficiente do que lidar com cobranças isoladas".

Sobre o prazo legal, ele detalha. "A lei de recuperação judicial dispõe que será encerrada por sentença quando forem cumpridas todas as obrigações previstas no plano que se vencerem até dois anos após a concessão da recuperação judicial. O prazo de 180 dias é para estabilizar o cenário e negociar soluções. É possível estruturar um caminho de equilíbrio financeiro, desde que o plano seja realista, com controle de despesas, adequação do orçamento à realidade esportiva e geração consistente de receitas futuras".

Cláudio afirma ainda não conhecer a realidade financeira detalhada do clube, mas pondera. "Qualquer endividamento precisa ser analisado proporcionalmente à capacidade de geração de receitas de quem deve".

Escritório de fora do Pará

O Paysandu recorreu a um escritório de advocacia de Recife (PE) para conduzir o processo, apesar de Belém contar com profissionais especializados na área. Sobre essa escolha, Cláudio comenta.

"Nunca tivemos aqui no estado uma RJ de clubes, o que pode ter influenciado a decisão da diretoria do clube, que deve ser respeitada. Porém, temos aqui em Belém profissionais já reconhecidos por atuação em grandes recuperações judiciais, que mandam muito bem nesse assunto, com suas bancas jurídicas bem organizadas para assessorar uma reestruturação nessas condições".

"O Paysandu vive no mundo de Alice. Acordem, estão enganando vocês"

O jornalista Paulo Fernando, da Rádio Liberal +, afirma que a atual crise financeira do Paysandu não é uma surpresa, mas o resultado de um processo de má administração e falta de transparência que ele já denunciava há mais de dez anos. Ele aponta que, por volta de 2012, o clube foi assumido por grupos que ele descreve como inexperientes, os quais teriam vendido uma falsa imagem de "era de ouro" e superávit enquanto a realidade interna era de degradação.

Paulo Fernando levanta uma suspeita grave: a de que o endividamento do clube possa ter sido facilitado para permitir uma futura venda facilitada (SAF). Segundo ele, existem "canalhas" interessados em deixar o clube afundar em dívidas para comprá-lo posteriormente por valores menores. O relato enfatiza que o torcedor foi "iludido" por discursos oficiais, enquanto o dinheiro do clube era mal gerido, levando o Paysandu a uma situação de "vergonha" e alvo de piadas de rivais.

"Malfeitoria construída a várias mãos"

O jornalista Abner Luiz descreve a atual situação do Paysandu como um "soco no estômago" e um "tapa na cara" do torcedor bicolor, afirmando que o pedido de recuperação judicial não é um evento isolado, mas sim uma "malfeitoria construída a muitas mãos há alguns anos". Segundo ele, o clube tentou manter o processo sob segredo de justiça para evitar que a gravidade da situação financeira, que envolve uma dívida confessada de mais de R$ 16 milhões, chegasse ao conhecimento do público, mas o pedido foi negado pelo juiz. Para Abner, esse cenário escancara uma gestão que, na última década, rompeu com a tradição de antigos dirigentes que investiam recursos próprios por amor ao clube, dando lugar a uma administração que "jogou o Paysandu às barras da justiça".

Além da má gestão, o jornalista levanta uma hipótese grave: a de que o endividamento possa ter sido facilitado intencionalmente para forçar uma transição para o modelo de Sociedade Anônima do Futebol (SAF). Abner sugere que a intenção por trás desse colapso financeiro seria permitir que os próprios "malfeitores" responsáveis pela crise assumissem a propriedade do clube no futuro, após ele ter sido desvalorizado pelas dívidas. O relato conclui com uma preocupação imediata sobre o impacto técnico, questionando como a instituição conseguirá atrair novos jogadores, treinadores e investidores para a disputa da Série C estando em um estado de recuperação judicial que agora é de conhecimento de todo o Brasil.

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