Simpósio na UFPA: Lei de Cotas ajudou muito a diversificar o público que frequenta as universidades

“Hoje em dia a gente tem muito mais estudantes de escola pública, estudantes negros, indígenas e de baixa renda nas universidades”, diz professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro; ela participou de estudo nacional sobre o tema

Dilson Pimentel

As cotas ajudaram muito a diversificar o público que frequenta as universidades. “Hoje em dia a gente tem muito mais estudantes de escola pública, estudantes negros, indígenas e de baixa renda nas universidades. Isso foi um avanço importante”, afirmou a professora doutora Rosana Heringer, da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Ela participou da realização de um estudo nacional sobre o tema, incluindo o estudo de caso em seis universidades federais, entre as quais a Universidade Federal do Pará (UFPA).

Reportagem publicada recentemente pela Redação Integrada mostrou que, só na UFPA, a maior universidade pública do Pará, e desde 2010, quase 50 mil ingressaram por meio do sistema de cotas

A Lei de Cotas, que completou dez anos em agosto deste ano, garante a reserva de 50% das matrículas por curso e turno nas universidades federais e institutos federais de educação, ciência e tecnologia a alunos oriundos integralmente do ensino médio público, em cursos regulares ou da educação de jovens e adultos. Os demais 50% das vagas permanecem para ampla concorrência.

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Estudo nacional nas universidades aponta importância da Lei de Cotas

Na manhã desta segunda-feira (28), a professora Rosana Heringer participou da abertura do VI Colóquio da Linha Educação, Cultura e Sociedade, organizado pelo Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGED) da UFPA, que será realizado entre os dias 28, 29 e 30 de novembro. O objetivo é compreender o avanço de práticas democráticas que favoreçam o exercício da cidadania.

As atividades desta edição vão ser direcionadas pela temática “Educação, Diversidade e Democracia: diálogos sociais em perspectiva histórica”, e vão contar com a presença de vários pesquisadores e professores convidados, incluindo a professora Zélia Amador de Deus.

A professora Rosana Heringer disse que houve “um avanço importante” com a Lei de Cotas, estabelecida em 2012. “A gente realizou um estudo para ver quais foram os impactos dessa lei. Nós fizemos um estudo em nível nacional e também analisamos algumas universidades específicas”, explicou, falando sobre a importância do sistema de cotas.

“Então hoje em dia a gente tem muito mais estudantes de escola pública, estudantes negros, indígenas e de baixa renda nas universidades. Isso foi um avanço importante”, afirmou.

É preciso avançar na permanência do aluno cotista nas universidades

Mas, por outro lado, também mostrou a pesquisa, é preciso avançar na permanência desses estudantes para que eles consigam realmente não apenas entrar na universidade, mas frequentar as aulas e concluir o curso.

Para tanto, são várias as dificuldades. A principal é financeira. “Muitos alunos são o que a gente chama de ‘primeira geração’ da sua família a entrar na universidade. Então eles não têm pais, irmãos mais velhos que tiveram essa oportunidade. E eles têm essa dificuldade do ponto de vista financeiro, com transporte, com alimentação, quando precisa se mudar de uma cidade para outra também é complicado”, afirmou.

Outra dificuldade é a de “pertencimento”. “Quer dizer, você realmente entrar na universidade e se sentir à vontade, se sentir participante, sendo uma pessoa que consegue transitar em todos os espaços e também do ponto de vista acadêmico”, contou.

A professora Rosana disse que, às vezes, o ensino médio público “não é tão bom em termos de qualidade'. Então o aluno chega com algumas dificuldades que precisam ser resolvidas dentro da universidade”.

A pesquisa foi realizada em um ano e meio, entre março de 2021 e agosto de 2022. E reuniu dados do Centro da Educação Superior para todas as 63 universidades federais num período de dez anos - de 2010 a 2019, que era o dado mais recente disponível. “Além disso, a gente fez seis estudos de caso, uma universidade em cada região do Brasil. Aqui no Norte foi a Federal do Pará”, explicou.

O estudo também foi feito na Universidade Federal de Minas Gerais, no sudeste, Federal do Recôncavo (Bahia), no nordeste, Federal do Paraná, no sul, e Federal da Grande Dourados, no centro-oeste. E, ainda, na UFRJ.

image “Hoje em dia a gente tem muito mais estudantes de escola pública, estudantes negros, indígenas e de baixa renda nas universidades. Isso foi um avanço importante”, afirmou a professora doutora Rosana Heringer, da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) (Ivan Duarte/O Liberal)

UFPA avançou muito, diz professora da UFRJ

Ela também falou sobre o estudo de caso feito na UFPA. “A UFPA avançou muito. Ela criou uma assessoria de diversidade, que é uma política importante justamente para acolher esses estudantes, como eu falei, que são os primeiros da família, estudantes indígenas, quilombolas. Então criou essa estrutura, vamos dizer assim, de atendimento. Porém, enfrenta as dificuldades que eu falei do ponto de vista financeiro, do ponto de vista acadêmico também”, afirmou.

Em relação à questão financeira, a professora disse que houve um corte no orçamento da assistência estudantil no Brasil nos últimos anos. “Isso vem lá desde o governo Temer e se agravou nesse último governo federal. Então, a gente precisa pensar que houve uma demanda maior, um crescimento da necessidade dessas políticas e, por outro lado, a gente teve uma redução de recursos", disse.

E acrescentou: "Então isso gerou uma crise muito grande em relação a como atender a essa demanda, que é a crescente. Sem contar, obviamente, a crise econômica que a gente vive e a situação da pandemia que trouxe outras necessidades”.

Objetivo do evento é basicamente discutir educação, diversidade e democracia

A professora Sônia Araújo é professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFPA e está na coordenação do evento. “O objetivo do evento é basicamente discutir educação, diversidade e democracia”, disse.

“A gente realiza esse evento de dois em dois anos, é um evento do programa de pós-graduação, especificamente da linha educação, cultura e sociedade”, explicou.

E, durante a programação, são divulgadas as pesquisas dos estudantes e dos professores envolvidos com a temática da educação e da diversidade cultural.  Segundo a professora Sônia, um dos objetivos é compreender o avanço de práticas democráticas que favoreçam o exercício da cidadania.

“Porque a linha vem discutindo já há algum tempo não só a questão da diversidade cultural, que é o tema central da linha: diversidade cultural e educação. Dadas as circunstâncias às quais a gente esteve envolvido do ponto de vista político, com ameaças à democracia, então a gente passou a pensar em realizar neste ano de 2022 o evento discutindo a questão da diversidade cultural- educação no contexto de uma sociedade democrática".

Isso é importante, explicou, para justamente reforçar a importância e a necessidade da gente estar na universidade debatendo as condições históricas às quais a democracia esteve ameaçada nos últimos tempos.

E essa ameaça à democracia continua? “A gente acredita que, com a organização da sociedade civil, com a organização das entidades políticas, dos partidos políticos, da Justiça, vai avançar e superar esse momento de crise e de ameaça da democracia no país”

 

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