Vozes da Amazônia ganham cena na reedição e no monólogo de ‘Marajó’, de Dalcídio Jurandir, em Belém
Lançamento de reedição do romance ‘Marajó’, clássico do autor paraense Dalcídio Jurandir, será no Teatro Experimental Waldemar Henrique, com direito à apresentação da peça ‘Solo de Marajó’, com o ator Claudio Barros
A imensidão amazônica é também formada, de modo especial, por vozes. Muitas vozes. Eles se espraiam pela mata, águas e pelo tempo. Seguem no vento e precisam ser escutadas. Um escritor paraense, Dalcídio Jurandir (1909-1979), escutou esses sons e, em 1947, lançou o romance “Marajó”. A obra conta a vida de personagens que se revelam cidadãos embrenhados no dia a dia da Amazônia. Dalcídio deu voz a essas pessoas vivendo num lugar repleto de belezas naturais em meio a desigualdades e injustiças sociais.
Agora, 79 anos depois da primeira edição, a Editora da Imprensa Oficial do Estado do Pará (IOEPA)/ Editora Pública Dalcídio Jurandir, lança uma reedição de “Marajó’. Será às 18h desta quarta-feira (28), no Teatro Maestro Waldemar Henrique. No local, o ator Claudio Barros apresentará “Solo de Marajó”, espetáculo baseado no romance. Reedição e peça mantêm a proposta de serem escutadas as vozes amazônicas.
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E isso vai ocorrer em janeiro, mês em que Dalcídio nasceu. Foi em 10 de janeiro de 1909, em Ponta de Pedras, no Arquipélago do Marajó, local que pode ser considerado uma síntese da Amazônia, com uma fauna e flora exuberantes, recursos naturais abundantes e, em contraponto, miséria, fome e violências que acometem gerações de marajoaras.
Um marajoara da gema, Dalcídio conheceu de perto os conflitos de terra, ameaças de morte, e também o jeito de ser desses povos do Brasil profundo. Após legar uma obra ímpar no cenário literário brasileiro, Dalcídio morreu aos 70 anos de idade, na Cidade do Rio de Janeiro, em 16 de junho de 1979.
A reedição de “Marajó” vai possibilitar ao público conhecer de perto o universo criativo desse autor amazônida, ou seja, o livro com nova apresentação gráfica chega aos leitores com um espetáculo à altura. A encenação de “Solo de Marajó” se mostra como um momento muito expressivo para o ator Claudio Barros. Claudio completará 50 anos de teatro em 2026.
Esse ator belenense protagoniza o espetáculo que teve a sua estreia em 2009, ou seja, vai fazer 17 anos em 2026. "'Solo de Marajó' é um espetáculo solo, criado a partir do romance 'Marajó', que narra oito histórias retiradas do livro. Expõe um panorama social contraditório, pesado, revelando a paradoxal realidade vivida pela população da ilha do Marajó", destaca Cláudio.
Barros detalha sobre como o público confere a peça. "O espetáculo se desenvolve com apenas um ator em cena, sem cenários e sem efeitos especiais, que narra oito histórias, utilizando apenas o corpo e a voz para criar personagens e ambientes".
Auto reconhecimento
Claudio diz que a quantidade de personagens e de tramas paralelas é o que mais chama a atenção dele na estética Dalcidiana. "Já era tempo de ganharmos novas edições da obra de Dalcídio, o maior romancista da Amazônia. Ele sempre ocupou o lugar de autor pouco conhecido. Chega. Chegou o momento de mudarmos esse estigma e o projeto da IOEPA veio pra realizar essa tarefa. Em breve teremos todo o 'Extremo Norte reeditado", ressalta o ator.
"Ler Dalcídio é fundamental para o auto reconhecimento do homem da Amazônia. O autor joga luz sobre o humano que existe e sobrevive, quase invisível, dentro da floresta", enfatiza.
O público que vai ler ou reler “Marajó’” e pretende conferir ou assistir de novo a “Solo de Marajó" encontra pela frente uma profunda radiografia do povo caboclo na Amazônia. A construção da peça e a interpretação do ator palco, além da direção (a cargo de Alberto Silva Neto) fizeram que o espetáculo, do grupo Usina, arrebatasse plateias e a crítica especializada de São Paulo, em uma temporada de cinco semanas a convite do SESC, em 2021.
Um ator sozinho sobre um palco vazio mostra ao público as narrativas de Dalcídio acerca de uma região “onde a riqueza e a exuberância da vida ligada ao ambiente natural contrastam com um drama social histórico, consequência da exploração predatória e da violação de direitos humanos fundamentais”, como destacado no informativo do espetáculo “Solo de Marajó”.
Antes do sucesso em São Paulo, a peça havia sido aplaudida em dez estados brasileiros desde a sua estreia, em 2009. “Solo de Marajó” teve uma turnê nacional nos solos de outros brasis, que em 2015 alcançou dez cidades de cinco estados, e a caravana fluvial Mambembarca, teatro de barco nos rios, que circulou por 11 municípios ribeirinhos paraenses em 2019.
“Solo de Marajó” tem atuação, dramaturgia, figurino e produção de Claudio Barros; encenação, direção, dramaturgia, iluminação e produção de Alberto Silva Neto.
Regionalismo crítico
Moisés Alves, editor e coordenador da Editora Pública Dalcídio Jurandir, da IOEPA, destaca que o lançamento de “Marajó” faz parte do projeto cultural da Editora da IOEPA de recuperação histórica dos escritores paraenses, com foco especial nos “autores fora de catalogo”. “ ‘Marajó’ faz parte do projeto literário de Dalcídio, conhecido como ‘Extremo Norte’, com dez romances relacionados à formação social amazônica e se apresenta como “uma das obras mais representativas desse Ciclo.
“Diferente do regionalismo folclórico, Dalcídio Jurandir apresenta um regionalismo crítico, que não idealiza a paisagem nem o povo, mas expõe as contradições sociais e econômicas da região, e nem por isso deixa de ser universal, como deve ser a boa Literatura”. A reedição dessa obra contou com a revisão do pesquisador e estudioso da literatura da Amazônia Paulo Maués Corrêa e sai com uma tiragem de mil exemplares.
Serviço:
Lançamento da reedição de ‘Marajó’, de Dalcídio Jurandir, pela IOEPA, com apresentação do espetáculo teatral ‘Solo de Marajó’
Em 28 de janeiro de 2026, às 18h
No Teatro Waldemar Henrique – na Av. Pres. Vargas, 645. Campina – Belém Pará – Praça da República
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