Erveiras do Ver-o-Peso mantêm viva a tradição do banho de São João em Belém
Para o momento, além das plantas frescas, as erveiras do Ver-o-Peso também comercializam o banho pronto e engarrafado
O tradicional Banho de São João, feito com ervas aromáticas e colônias, continua vivo na cultura paraense. Renovação de energias, proteção espiritual e prosperidade são alguns dos pedidos feitos durante o ritual, realizado anualmente no dia 24 de junho. Para o momento, além das plantas frescas, as erveiras do Ver-o-Peso também comercializam o banho pronto e engarrafado – em tamanhos variados, de acordo com a necessidade de cada cliente.
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Entre as ervas utilizadas, estão cumaru, patchouli, chega-te-a-mim, manjericão, priprioca, jalapão, estoraque e pataqueira. O preparo com folhas, raízes, cipós, cascas de madeira e essências é feito em diversas etapas, como lavagem, corte, mistura, maceração e imersão em água de cheiro ou colônia. Os clientes que preferem comprar as plantas fazem todo o processo em casa, mas há quem opte pelo banho em garrafa pela praticidade.
Dedicação de décadas
A erveira Maria dos Anjos Pacheco, de 66 anos, está há mais de 50 anos no ofício. Ela explica que as pessoas que escolhem levar as plantas precisam deixá-las secando ao sol e, em seguida, devem macerá-las bem. Segundo a erveira, o banho precisa ser tomado à tarde, antes de sair, no dia de São João.
“Eu me sinto feliz, é o meu dia a dia”, fala Maria sobre o trabalho. A erveira afirma que no box as vendas de banhos prontos e de plantas para o preparo em casa são iguais, variando conforme o desejo de cada cliente. Normalmente, quem busca as ervas separadamente o faz para manter costumes familiares.
Iracilda Siqueira de Oliveira, erveira há 45 anos, fala que as garrafas atendem de uma a seis pessoas e podem até servir para mais de um banho. Ela destaca que, além do ritual no dia 24 de junho, o cliente pode usar a mistura posteriormente e fazer pedidos a outros santos, como Santo Antônio. “Deixa no corpo aquele cheiro. Pensamento positivo, aí você vai fazer o seu pedido”, diz.
Costumes familiares
A aposentada Sandra Machado, de 62 anos, foi ao Ver-O-Peso na véspera de São João para garantir as plantas para o preparo do banho. A tradição, viva na família dela há anos, é repassada, principalmente, pela mãe — nascida no dia 8 de junho e fiel ao santo. “É uma alegria para a gente. Então, a gente não quer acabar isso. É muito nosso”, destaca.
Rosa de Souza, de 71 anos, é compradora fiel das ervas usadas no banho de São João. Ela opta por adquirir as plantas um dia antes, para que estejam frescas no preparo. “Vem de geração em geração. Veio da minha mãe, passou pra minha filha e aí veio para mim, e assim continua”, conta. Entre os pedidos de Rosa durante o banho, estão dinheiro, abertura de caminhos e amor.
Preces com fé
Sobre o modo de tomar banho, há apenas um: da ponta da cabeça para os pés. “É um banho atrativo, para trazer coisas boas. O banho para tirar mau olhado, as coisas negativas, é do pescoço para baixo”, ensina Iracilda. No box da erveira, nessa terça-feira (23), as vendas das plantas são mais intensas do que das garrafas.
Durante o Banho de São João, os pedidos devem ser feitos ao santo com fé, mentalizando tudo o que se deseja. Junto às ervas comumente usadas, outros banhos de cheiro podem ser adicionados no processo. O ritual singular da cultura paraense exalta a tradição ancestral, valorização nda biodiversidade e preservação da história amazônica.
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