Comida paraense e empadas: rodízios expandem cardápios e criam novas experiências em Belém
Empreendedores investem em formatos criativos de consumo livre para ampliar clientela e fortalecer marcas
O modelo de rodízio sempre esteve associado a churrascos, pizzas e sushis. Em Belém, porém, empreendedores têm apostado em formatos criativos para diversificar a experiência gastronômica dos clientes e transformar pratos tradicionais em atrações gastronômicas. A proposta tem impulsionado novos negócios e ampliado o público de estabelecimentos que enxergaram no consumo livre uma oportunidade de fidelização e aumento de faturamento.
Um dos exemplos é o empreendedor Rangel Reis, que em 2021 criou um rodízio de empadas que hoje reúne 12 sabores, entre opções tradicionais, doces e regionais. Outra aposta inovadora é a da empresária Jaqueline Leão, pioneira no modelo de rodízio de comida paraense na capital paraense. Em comum, os dois negócios apostam na valorização da experiência gastronômica e na diversificação dos cardápios para atrair consumidores em busca de novidades.
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Negócios que nasceram da reinvenção
O rodízio de empadas surgiu da necessidade de reinvenção profissional de Rangel Reis. Desempregado durante a pandemia, ele começou a produzir empadas artesanalmente para garantir renda extra. As primeiras receitas foram desenvolvidas pela esposa e pela sogra, e as vendas aconteciam em ônibus e estacionamentos de supermercados da capital. Com o aumento da procura, o negócio passou a atender revendedores e, em dezembro de 2024, ganhou a primeira cafeteria física da marca.
Segundo Rangel, a ideia do rodízio surgiu da percepção de que o formato já era consolidado em outros segmentos gastronômicos, mas ainda pouco explorado no mercado de salgados. “A gente via rodízio de tudo: churrasco, pizza, sushi. Então pensamos: por que não criar um rodízio de empadas?”, afirma.
Diversidade da culinária paraense atrai clientes (Divulgação/ Jaqueline Leão)Na culinária regional, a proposta idealizada por Jaqueline Leão nasceu da percepção de que a gastronomia paraense poderia ser apresentada de forma mais ampla ao público. Segundo a empresária, a variedade de pratos típicos permitia transformar a experiência em um rodízio completo, valorizando ingredientes e sabores regionais. “Nós percebemos que a culinária paraense possui uma riqueza muito grande e poderia funcionar perfeitamente nesse formato. Existia uma oportunidade ainda pouco explorada no mercado de Belém”, afirma.
Como funcionam os rodízios
O rodízio de empadas funciona de segunda a quinta-feira, das 16h às 20h30, com consumo livre e sabores servidos sob demanda. As empadas são aquecidas na hora e incluem versões tradicionais, doces e regionais, como a de tacacá. O sabor mais vendido segue sendo o clássico frango com catupiry. Atualmente, o rodízio custa R$ 39,90 por pessoa.
Segundo Rangel, o modelo exige controle constante da produção e do estoque, já que as empadas são fabricadas diariamente. “Às vezes um sabor acaba muito rápido e precisamos reorganizar tudo para continuar atendendo bem quem chega depois”, explica.
Rangel explica que a fabricação diária das empadas exige organização permanente da produção e atenção ao controle de estoque (Carmem Helena/ O Liberal)
Já no restaurante especializado em culinária regional, o rodízio se tornou a principal porta de entrada do negócio e passou a fazer parte da identidade da empresa. O estabelecimento trabalha atualmente com diferentes modalidades de rodízio. A opção tradicional custa R$ 69,90 e inclui pratos como maniçoba, vatapá e caruru.
O restaurante também oferece um rodízio premium, no valor de R$ 109, com itens como maniçoba, tacacá, arroz paraense, vatapá, caruru, farofa de charque, filé de pescada gó, charque acebolado, calabresa acebolada e uma dose de açaí. Outra modalidade disponível é o rodízio de pescada gó, vendido a R$ 84,90, acompanhado de arroz, farofa, vinagrete e uma dose de açaí.
Segundo Jaqueline, a culinária paraense trabalha com ingredientes específicos e, muitas vezes, de alto valor agregado, o que demanda organização logística e atenção permanente aos custos operacionais.
Impacto no faturamento e no movimento
De acordo com Rangel Reis, o rodízio elevou o ticket médio dos clientes em cerca de 20% e ampliou significativamente o fluxo de consumidores na cafeteria. Atualmente, a produção ultrapassa duas mil empadas por mês. O crescimento também exigiu investimentos em maquinário e padronização da produção.
“Muitas pessoas chegam especificamente por causa do rodízio. Tem cliente que conhece a marca pelo consumo livre e depois volta para comprar combos ou outros produtos”, afirma. Além da cafeteria, a empresa começou a testar novos formatos de venda, como uma foodbike personalizada para comercialização itinerante.
A cliente Yasmin Fernandes acompanha a marca desde o período em que as vendas eram feitas nos ônibus da cidade. Para ela, o diferencial sempre esteve no atendimento e na qualidade do produto. “Eles sempre foram muito atenciosos com o cliente, independentemente do lugar onde estavam vendendo”, conta. Yasmin afirma que o rodízio chamou atenção pela originalidade e pelo custo-benefício. “O preço acaba equivalendo a cerca de quatro empadas. Então vale muito a pena para quem quer provar diferentes opções”, diz.
Frequentadora da cafeteria atualmente, Yasmin Fernandes conheceu a marca ainda durante as vendas realizadas nos ônibus da capital (O Liberal/ Carmem Helena)No restaurante de culinária paraense, o impacto também foi significativo. Segundo Jaqueline Leão, o empreendimento tinha pouco mais de um ano de funcionamento quando implantou o sistema de rodízio e registrou aumento expressivo no movimento e no número de clientes. A empresária afirma que o formato atraiu consumidores interessados em viver experiências gastronômicas regionais e conhecer uma maior variedade de pratos típicos em uma única refeição.
Perspectivas para o setor em Belém
Apesar dos desafios relacionados ao aumento do preço dos insumos, os empreendedores avaliam que Belém vive um momento de expansão dos formatos gastronômicos baseados em rodízio. Além dos modelos tradicionais, a cidade já reúne estabelecimentos especializados em açaí, comidas típicas e outros produtos regionais.
Para Rangel Reis, o modelo se tornou uma estratégia importante de atração de público e fortalecimento da marca. “Mesmo quando o lucro fica mais equilibrado por causa do consumo de alguns clientes, o rodízio ajuda a aumentar a circulação e cria oportunidades para vender outros produtos”, afirma. O empreendedor também pretende expandir a cafeteria para outros bairros de Belém e ampliar os formatos de comercialização da marca.
Jaqueline Leão acredita que a tendência deve continuar nos próximos anos, impulsionada pela busca do consumidor por experiências gastronômicas diferenciadas. Segundo ela, o crescimento do setor dependerá da capacidade dos empreendedores de equilibrar criatividade, inovação e sustentabilidade financeira diante da alta dos custos operacionais.
*Thaline Silva, estagiária de jornalismo, sob supervisão de Keila Ferreira, coordenadora do núcleo de Política e Economia
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