De erveiras a cozinheiras: mães e filhas fortalecem tradições em negócios no Ver-o-Peso

Laços familiares transformam ensinamentos do dia a dia em parceria de trabalho e fonte de renda em Belém

Thaline Silva*
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O Dia das Mães costuma ser marcado por demonstrações de afeto, cuidado e gratidão. Para além das homenagens, a data também evidencia relações construídas no cotidiano, inclusive no trabalho. Em muitos empreendimentos familiares, mães transmitem conhecimentos, técnicas e experiências que atravessam gerações e ajudam a manter tradições e fontes de renda.

No Ver-o-Peso, considerado um dos maiores mercados a céu aberto da América Latina, histórias de mães e filhas dividindo o mesmo espaço de trabalho fazem parte da rotina da feira. Entre ervas, perfumes, refeições e produtos regionais, os boxes e barracas revelam laços familiares que vão além dos negócios.

A erveira Maria dos Anjos Pacheco trabalha no Ver-o-Peso há 55 anos e divide a banca com a filha, Márcia Cardoso, há duas décadas. Já Cristina Costa atua há 12 anos vendendo refeições no mercado e, desde dezembro do ano passado, conta com a ajuda da filha, Valéria de Souza, no atendimento aos clientes.

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Negócio de família

Maria dos Anjos conta que começou a trabalhar na feira ao lado do marido e assumiu a barraca após a morte dele. Hoje, ela trabalha diariamente com a filha na venda de banhos de cheiro, essências, perfumes e garrafadas tradicionais. Para a erveira, a parceria familiar vai além da renda. “A gente trabalha junto. No final do expediente, a gente presta contas. É uma parceria muito boa”, afirma.

imageAlém da renda, mães e filhas destacam os aprendizados construídos na convivência diária do trabalho (O Liberal/ Thiago Gomes)

Márcia Cardoso começou a trabalhar na barraca após enfrentar dificuldades para conseguir emprego. “Meu pai perguntou se eu queria vir ajudar minha mãe aqui. Foi assim que comecei”, lembra.Segundo ela, o principal benefício é a convivência diária com a mãe. “Trabalhamos juntas, dividimos as despesas e investimos juntas nas mercadorias”, diz.

No setor de alimentação, Cristina Costa afirma que encontrou no Ver-o-Peso uma oportunidade após um período procurando emprego. “Eu comecei há 12 anos atrás. Estava à procura de emprego e fui tentar uma chance no Ver-o-Peso. Com muito esforço consegui um box pra mim”, conta.

A filha, Valéria de Souza, começou a ajudá-la no fim do ano passado, após sair do antigo emprego. Para ela, a convivência diária fortaleceu ainda mais a relação entre as duas. “Entre os afazeres, a gente bate muitos papos. Tem aquela troca legal”, afirma.

Lucros

As vendas variam de acordo com o movimento do mercado e as épocas do ano. Na barraca de ervas, Maria dos Anjos afirma que os banhos de cheiro e perfumes estão entre os produtos mais procurados pelos clientes. “Tem produtos de R$ 20 e outros mais caros, como o cheiro do Pará, que custa R$ 30”, explica. Segundo ela, o lucro diário gira em torno de R$ 100.

Márcia afirma que o movimento já foi mais intenso, mas ainda é impulsionado pela presença de turistas. “O movimento melhora mais quando chegam pessoas de fora, principalmente porque gostam de levar perfumes e essências”, relata. Ela estima que o faturamento diário da barraca seja de cerca de R$ 200. Apesar da proximidade do Dia das Mães, a data não costuma representar aumento nas vendas. “Todos os anos o movimento é mais fraco para ervas e banhos”, afirma.

No box de refeições, Cristina destaca que o prato mais procurado é o tradicional peixe com açaí. Segundo ela, os lucros aumentam em períodos festivos e grandes eventos da cidade. “Quando tem Círio, Natal e arraial, as vendas melhoram bastante”, conta. Em média, segundo ela, o faturamento diário chega a R$ 800.

Aprendizados

Além da renda, mães e filhas destacam os aprendizados construídos na convivência diária do trabalho. Maria dos Anjos afirma que procura repassar aos filhos os conhecimentos acumulados em mais de cinco décadas no Ver-o-Peso. Márcia diz que aprendeu observando a mãe no atendimento aos clientes e na rotina da barraca. “Tudo o que sei aprendi com ela”, afirma.

Cristina também tenta compartilhar com a filha a experiência adquirida ao longo dos anos trabalhando com alimentação. “Tudo que eu conheço e aprendi eu tento passar pra ela”, diz.

Mesmo já tendo experiência anterior com atendimento ao público, Valéria afirma que ainda aprende observando a mãe trabalhar. “Olhando ela atender, até parece um pouco comigo”, comenta. Ela também destaca que o trabalho exige persistência diária. “É entender que nem todos os dias vão ser bons, mas ainda assim se esforçar ao máximo para fazer funcionar”, afirma.

Perspectivas para o futuro

Apesar dos desafios do comércio popular, as famílias pretendem manter os negócios funcionando nos próximos anos. Márcia diz que pretende ampliar o empreendimento no futuro. “Minha perspectiva é continuar crescendo, encontrar pessoas para trabalhar comigo e expandir o negócio para outros lugares”, afirma. Ela também acredita que o conhecimento transmitido pela mãe ajudará a preservar o empreendimento familiar. “Quando ela não puder mais vir, eu vou conseguir continuar o trabalho”, afirma.

Cristina vê o box de refeições como um legado construído ao longo dos anos no Ver-o-Peso. Para Valéria, mesmo que o trabalho seja temporário neste momento, existe o desejo de manter a tradição da família. “Eu sei que isso é uma herança minha. Vamos tentar manter até quando Deus permitir”, afirma.

*Thaline Silva, estagiária de jornalismo, sob supervisão de Keila Ferreira, coordenadora do núcleo de Política e Economia

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