Economia circular: brechó de camisas de futebol cresce e atrai público fiel em Belém
Peças retrô e mais acessíveis impulsionam consumo entre torcedores na capital paraense
É inegável que o futebol é uma paixão nacional — e também um motor econômico relevante. O mercado esportivo movimenta milhões todos os anos, seja por meio de transferências de jogadores, venda de ingressos, direitos de transmissão, patrocínios ou estratégias de marketing. Nesse cenário, um item concentra tanto valor financeiro quanto simbólico: a camisa do time do coração.
Conhecida como “manto” entre torcedores, a peça ocupa papel central nessa dinâmica. No entanto, nem sempre os fãs conseguem adquirir um modelo original logo após o lançamento. Um exemplo recente é o da nova camisa da seleção brasileira: a versão de torcedor custa R$ 449,99, enquanto a versão idêntica à usada pelos jogadores chega a R$ 749,99.
Caio Rodrigues Freitas, empreendedor e um dos organizadores do evento "No Garimpo" (O Liberal/ Ivan Duarte)Diante dos preços elevados, muitos consumidores recorrem a réplicas ou buscam alternativas mais acessíveis. É nesse contexto que os brechós ganham espaço. Ao identificar essa demanda, o jovem empreendedor Caio Rodrigues Freitas, de 26 anos, decidiu investir no segmento em Belém. Ele criou um brechó com vendas online e também integra a organização do evento “No Garimpo”, que reúne vendedores de camisas de futebol e peças de streetwear na capital paraense.
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De consumidor a empreendedor
Caio atua há cerca de três anos no segmento e conta que a ideia surgiu ainda quando trabalhava com carteira assinada. O interesse começou de forma despretensiosa, como consumidor, ao frequentar brechós e adquirir peças para uso próprio, especialmente em locais tradicionais como o Ver-o-Peso e outros bairros da cidade.
A afinidade com a estética esportiva, principalmente camisas de time e marcas do segmento, foi determinante para a criação do negócio. Inicialmente, o brechó funcionava apenas no formato online, mas, com o aumento da demanda, a atuação se expandiu para eventos presenciais.
Curadoria focada em peças raras
Sem um público-alvo definido no início, Caio percebeu, com o crescimento do negócio, a predominância de colecionadores e entusiastas do estilo esportivo vintage. A partir disso, passou a direcionar sua curadoria para esse nicho específico. “Inicialmente eu pensei apenas em vender algo que eu gostasse de consumir também, mas percebi que atraía muito mais gente com o mesmo gosto que eu. Daí fui focando em peças específicas para colecionadores e entusiastas desse mundo”, afirma.
As camisas de clubes e seleções, principalmente modelos antigos, são o principal atrativo. Segundo Caio, o valor dessas peças vai além do material e está diretamente ligado à memória afetiva dos torcedores. “As camisas de time são o produto mais procurado, principalmente se forem antigas. Acredito que isso seja por conta da história que essas peças representam, trazem memórias e nostalgia para os consumidores”, destaca.
Preços e identidade atraem consumidores
A recepção do público também reforça o crescimento desse tipo de mercado. Frequentador assíduo de eventos do segmento, o jovem Felipe Gonçalves, de 19 anos, afirma que o principal atrativo está na combinação entre preço acessível, estilo e identificação cultural. “O ambiente é legal porque eu tô com meus amigos, me divirto e consigo comprar roupa boa pagando pouco. A gente consegue se vestir bem e isso também é uma forma de representatividade pra quem vem de baixo, da periferia”, afirma.
Mais do que comprar, consumidores buscam uma combinação entre preço acessível, estilo e identificação cultural (O Liberal/ Ivan Duarte)Segundo ele, a busca por peças específicas é comum entre os consumidores, principalmente camisas retrô de clubes e seleções, que carregam valor histórico e estético. “Geralmente, o pessoal procura mais camisas antigas, de anos anteriores, como de 2010 ou 2006. É isso que a galera busca”, diz.
O preço é outro fator determinante. De acordo com Felipe, os valores praticados em brechós e eventos são significativamente mais baixos do que nas lojas tradicionais. “Em loja, uma camisa nova sai por mais de 300 reais. Aqui, com uns 100 reais, tu consegue levar várias peças boas pra casa”, compara. Apesar de frequentar todas as edições, ele destaca que as compras dependem da disponibilidade de itens desejados. “É garimpo, né? Tem que ter sorte pra achar coisa boa”, completa.
Raridade influencia no valor
O desempenho financeiro do brechó varia de acordo com fatores como oferta, preços e a disponibilidade de itens considerados raros. Em média, são comercializadas entre 20 e 30 peças por mês ou por evento, mas esse número pode oscilar. “Acredito que na média de 20 a 30 peças, mas varia bastante do produto e preço que o brechó está vendendo”, explica Freitas.
Apesar das incertezas comuns ao trabalho autônomo, o empreendedor afirma que o negócio já se tornou sustentável e hoje é sua principal fonte de renda. “Tem sido o suficiente pra eu me manter. Antes trabalhava de CLT, mas hoje consigo viver apenas da moda circular. Sobre o faturamento, depende muito do esforço e um pouco de ‘sorte’ nos achados”, relata o empreendedor.
Demanda impulsiona crescimento do setor em Belém
A experiência de Caio reflete uma tendência crescente em Belém. O clima quente, aliado à forte cultura esportiva, contribui para a alta demanda por camisas de futebol e roupas leves. “Acredito que pela cultura do ‘sportlife’ ser bem forte aqui, o clima também é propício para o uso de roupas esportivas, por serem mais confortáveis”, aponta.
Nos últimos anos, o número de brechós especializados nesse nicho aumentou significativamente na cidade, indicando a consolidação do mercado de moda circular voltado ao esporte. “Quando comecei, não lembro de existir outros brechós focados em peças vintage esportivas aqui. Hoje vejo vários nascendo e se consolidando. Vejo um futuro muito promissor”, afirma. A combinação entre paixão pelo futebol, consumo consciente e empreendedorismo indica que o mercado de camisas retrô deve seguir em expansão, consolidando-se como uma alternativa econômica e cultural em Belém.
*Thaline Silva, estagiária de jornalismo, sob supervisão de Keila Ferreira, coordenadora do núcleo de Política e Economia
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