Custo Amazônia: entenda os desafios para produzir de forma responsável na região

A indústria no Pará tem o desafio de transformar o custo em diferencial

O Liberal
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O desafio de produzir na Amazônia vai além de fabricar produtos ou processar matérias-primas, trata-se de equilibrar as exigências de sustentabilidade que muitas vezes colidem com questões estruturais históricas. O "Custo Amazônia" não é um termo novo, mas sua compreensão é importante para entender por que a industrialização da região Norte ainda caminha a passos lentos comparada ao Centro-Sul do país.

Segundo Alex Carvalho, presidente da Federação das Indústrias do Estado do Pará (FIEPA), o Custo Amazônia é o "conjunto de entraves estruturais que encarecem a produção, independentemente do setor".

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Ele explica que o custo não é apenas geográfico. "Ele está relacionado à falta de regularização fundiária, à morosidade e insegurança no licenciamento ambiental, à ineficiência logística e aos custos operacionais elevados. Na prática, isso significa mais tempo, mais risco e mais custo", afirma Carvalho.

Diante desse cenário, a Feira da Indústria do Pará (Fipa) se consolida como um espaço estratégico para o aprofundamento dessa discussão. Mais do que uma vitrine de negócios, o evento promoverá debates importantes sobre os caminhos para a industrialização, reunindo especialistas, lideranças e o setor produtivo.

Clóvis Carneiro, economista e vice-presidente da FIEPA, reforça que a infraestrutura é um dos principais problemas. "Nossas distâncias são grandes e nossas estradas deixam a desejar. Associada ao frete, temos a questão da distribuição de energia, onde temos uma malha enorme para atender poucos usuários, tornando a tarifa caríssima", analisa. Essa combinação de fatores empurra a região para uma armadilha econômica, a indústria de transformação permanece como iniciante, restringindo o Pará e estados vizinhos à produção primária ou exportação de commodities de baixo valor.

"Hoje, a sustentabilidade é, antes de tudo, uma exigência de mercado", pontua Alex Carvalho. Ele destaca que, embora abra portas para o mercado externo, não há um ganho direto de margem no curto prazo. "O principal benefício ainda está no acesso e permanência no mercado. A sustentabilidade hoje é um fator de viabilidade, e não necessariamente de maior rentabilidade", pontua.

No setor pecuário, um dos pilares da economia paraense, o peso desse modelo é sentido no dia a dia do caixa. Daniel Freire, empresário e presidente do Sindicato das Indústrias de Carne do Pará (Sindicarne), detalha o investimento necessário. "Na prática, produzir de forma sustentável implica em custos adicionais relevantes. As empresas precisam estruturar setores específicos de governança socioambiental e investir em serviços especializados de monitoramento, principalmente via satélite", revela Freire.

Ele detalha que o rigor na compra do gado é grande. Cada animal deve ser analisado em plataformas de rastreabilidade para garantir que não venha de áreas desmatadas após 2008, áreas embargadas pelo IBAMA, terras indígenas ou protegidas.

Todo esse aparato tecnológico eleva o custo operacional. O paradoxo, segundo Freire, é que o mercado consumidor nem sempre está disposto a pagar por isso. "O setor de carne bovina, por ser uma commodity, continua orientado por preço. Raramente há um prêmio consistente associado ao compliance. Isso cria um desalinhamento entre o custo adicional e a remuneração recebida", lamenta.

Um dos pontos mais sensíveis debatidos pelos entrevistados é a competitividade. Enquanto a indústria formal investe em rastreabilidade e impostos, agentes ilegais operam à margem, com custos reduzidos, degradando o meio ambiente e o mercado.

"Empresas que operam dentro da lei arcam com todos os custos ambientais, trabalhistas e tributários. Agentes ilegais não cumprem essas exigências e operam com custos muito menores. Isso penaliza quem faz certo", critica Carvalho. Essa distorção é, hoje, um dos maiores desincentivos para que novos empresários busquem a certificação sustentável.

Clóvis Carneiro vai além e levanta uma crítica à natureza das exigências internacionais. "O discurso ambientalista, na maioria das vezes, tem mais caráter protecionista comercial e geopolítico do que propriamente ambiental. Muitas legislações têm caráter fiscal arrecadatório", afirma o economista. No entanto, ele pondera que o uso adequado de recursos sempre trará benefícios indiretos, como a redução de desperdícios e o fortalecimento da imagem institucional.

Os entrevistados apontam para soluções que passam pela gestão pública e pelo reconhecimento global. Alex Carvalho defende que, "precisamos de regularização fundiária para trazer segurança jurídica, licenciamento ambiental mais ágil e técnico, e combate efetivo à ilegalidade para garantir concorrência justa".

Daniel Freire, do Sindicarne, acredita que a comunicação é a chave. "A agropecuária ocupa cerca de 16% do território paraense, enquanto mais de 80% permanecem preservados. Esse é um ativo estratégico que precisa ser melhor comunicado e valorizado globalmente. Precisamos ser remunerados pelo esforço adicional realizado no Pará", defende.

Clóvis Carneiro destaca que ser ambientalmente correto, socialmente justo e economicamente sustentável, é o único caminho para a longevidade. “Para que uma unidade industrial seja bem-sucedida deve-se lembrar da máxima de Estocolmo de 1972. O que Estocolmo nos diz? Se um projeto agride o seu meio ambiente ou não representa agregação social à sua comunidade e não se suporta economicamente, esse projeto não é viável no longo prazo”, conclui.

A XVII FIPA é uma realização do Sistema Federação das Indústrias do Estado do Pará (Sistema FIEPA), em parceria com o Sebrae, e patrocínio das empresas Hydro, Vale, Alcoa, Prefeitura de Barcarena, Sicredi, Elis Circular, Ligga e Mineração Rio do Norte (MRN); com apoio da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Companhia de Desenvolvimento Econômico do Pará (Codec), do Governo do Pará, por meio da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Mineração e Energia (Sedeme), Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), do Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (IBP), Associação Brasileira de Produtores de Óleo de Palma (Abrapalma), Agropalma, Cargill, Coca-Cola, Hidrovias do Brasil, Saint-Gobain, Suzano e apoio cultura da Equatorial Energia.

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