"Dia do Rio”: rios de Belém recebem alta carga de poluição, diz Instituto Trata Brasil

Na capital, apenas 17% do esgoto é coletado e tratado, um percentual que a instituição considera “muito pouco”

Dilson Pimentel

Em Belém, apenas 17% do esgoto é coletado e tratado e, por isso, há o lançamento de uma carga poluidora muito grande nos rios da capital. Esse percentual de 17% é "muito pouco", disse, nesta quarta-feira (23), a presidente do Instituto Trata Brasil (ITB), Luana Pretto, em entrevista à Redação Integrada.

Ela também falou sobre o Dia do Rio, que é celebrado nesta quinta-feira (24). “Nós temos um lançamento de uma carga poluidora muito grande, tendo grande parte das bacias hidrográficas comprometidas, como o rio Tucunduba, e diversos outros rios que cercam a região. Belém é muito cercada por rios. E, como esse esgoto não tem tratamento, ele é lançado de uma maneira direta nesses rios, causando, muitas vezes, internações das crianças e doenças de veiculação hídrica”, afirmou.

Um prejuízo ao meio ambiente e, também, à saúde da população, portanto. “Quando a gente olha o Pará como um todo, a situação é ainda pior, porque nós temos apenas 7.7% de esgoto no Pará que é coletado e tratado”, afirmou.

“A região norte que é onde a parte da Amazônia está inserida é uma região bastante crítica, porque nós temos apenas 13% de coleta e tratamento de esgoto. Quanto maior o volume do rio onde esse esgoto é lançado, mais esse rio consegue depurar essa carga orgânica lançada - ou seja, essa poluição lançada”, disse.

Muitas vezes, não se tem só aquele rio grande. Há, por exemplo, nascentes onde esse rio está nascendo e ali já se lança esse esgoto sem tratamento.  “Então esse rio já nasce com uma carga poluidora grande, e muitas vezes é um filetizinho de água desse rio que já está poluído para então, depois, desembocar nos rios grandes da região amazônica”, disse Luana Pretto.

Para se ter rios vivos e limpos na região Norte, tão rica em termos de biodiversidade, é preciso sim investir em saneamento para perpetuar ainda mais toda a biodiversidade ali existente, afirmou.

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image O lançamento de esgoto sem tratamento compromete parte das bacias hidrográficas, como ocorre com o rio Tucunduba, em Belém (Igor Mota /O Liberal)

5.700 piscinas olímpicas de esgoto sem tratamento são lançadas, diariamente, nos rios brasileiros

“Nós vemos a questão dos rios com bastante preocupação, principalmente porque hoje, no Brasil, metade da água consumida apenas é tratada. Significa que nós lançamos praticamente 5.700 piscinas olímpicas de esgoto sem tratamento nos nossos rios”, afirmou Luana Pretto.

O rio é utilizado para a pesca e para as atividades recreativas e culturais. “Mas, a partir do momento que é lançado o esgoto sem tratamento, esse rio acaba recebendo uma carga poluidora muito grande e não conseguindo degradar toda essa carga poluidora que é lançada, o que acaba comprometendo toda a biodiversidade dessa bacia hidrográfica e comprometendo também o meio ambiente e a saúde das pessoas”, afirmou.

A partir do momento que se faz a coleta e o tratamento de esgoto é possível reverter essa situação. A natureza é muito sábia, explicou, pois consegue se regenerar. “Com o correto tratamento, a gente vai começar a ver rios mais vivos e limpos nas nossas cidades. E, muitas vezes em alguns rios que estavam poluídos, a gente volta a ver peixes. A gente volta a ver toda aquela fauna e flora que existia anteriormente. Mas, para isso, é preciso investir em saneamento básico”, disse.

Como o saneamento tem um ciclo longo de investimento, de muitas obras que precisam ser feitas para conseguir ver os rios regenerados, é preciso o quanto antes fazer as obras de saneamento. E parar de lançar toda essa carga poluidora que hoje é despejada nos rios brasileiros.

Um rio inviabilizado é um rio morto

Os rios brasileiros normalmente possuem alguns parâmetros para que possam ser considerados em boas condições de uso: a quantidade de oxigênio dissolvido dentro desses rios, a quantidade de fauna e flora existente. E, quando se fala que um rio está inviabilizado, seria mais ou menos como falar que o rio está morto.

Porque qualquer microrganismo que for tentar se desenvolver nesse rio não vai ter a quantidade de oxigênio suficiente para poder se manter vivo dentro desse rio. Então, para isso, a gente precisa parar de lançar o esgoto bruto, sem tratamento, lançar apenas, digamos, o efluente tratado, porque aí a gente não vai tá lançando toda essa carga poluidora dentro do rio”, afirmou Luana Pretto.

“E, automaticamente, a gente vai começar a ter uma maior oxigenação nessas águas e um melhor ambiente para que os peixes possam se desenvolver e toda a população possa novamente ter contato com esses rios”, acrescentou.

Ela também falou sobre o Marco Legal do Saneamento Básico, cuja legislação foi sancionada pela Presidência da República no dia 15 de julho de 2020. “Sem dúvida, o Marco traz metas claras e objetivas para todas as regiões do Brasil. Até o ano de 2033, nós precisamos ter 99% da população com acesso à água e 90% da população com acesso à coleta e tratamento de esgoto”, explicou Luana Pretto.

Nós vivemos rodeados de bacias hidrográficas nas áreas urbanas, e o atingimento dessa meta até o ano 2033, e nós termos 90% do esgoto coletado e tratado, vai fazer com que essas piscinas olímpicas de esgoto sem tratamento não sejam lançadas nos rios”, completou. E isso vai trazer uma melhoria para qualidade de vida de todas as pessoas que vivem ao redor desses rios, muitas vezes em contato com esse esgoto bruto e a céu aberto, tendo uma série de prejuízos para a sua saúde”, afirmou.

Muitas vezes, não se associa a poluição do rio à falta de coleta e tratamento de esgoto

Sobre o Dia do Rio, a reflexão a ser feita é sobre o porquê de o rio está poluído. “Muitas vezes, a gente não associa a poluição, a carga poluidora do rio com a coleta e o tratamento de esgoto. E, quando a gente pensa nessa vida desse rio, muitas vezes a maior parte da carga poluidora vem da não coleta e do não tratamento de esgoto”, afirmou.

Luana Pretto destacou a importância de preservar os rios brasileiros e conservar as áreas de preservação permanente que, muitas vezes, são degradadas ao redor desses rios. “Para que esse rio possa também ter seu potencial de extravasamento quando necessário, investindo então tanto na conservação das nossas florestas quanto na coleta e tratamento de esgoto para que não haja essa carga poluidora dessas 5.700 piscinas olímpicas que hoje lançamos sem tratamento nos rios brasileiros”, afirmou.

Sobre o Instituto Trata Brasil

O Instituto Trata Brasil é uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público, formado por empresas com interesse nos avanços do saneamento básico e na proteção dos recursos hídricos do país. Atua desde 2007 trabalhando para que o cidadão seja informado e reivindique a universalização do serviço mais básico, essencial para qualquer nação: o saneamento básico. 

Belém
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