Área do Mangueirão sofreu toque de recolher no dia do aniversário de Belém
Moradores e comerciantes denunciaram criminosos: medo imperou na região
Toque de recolher representa uma forma de o crime impor sua lógica de poder. É que afirmou, à redação integrada de O Liberal, na tarde desta segunda-feira (14), o pesquisador Aiala Colares. O estudioso da violência urbana da Grande Belém avaliou as recentes denúncias feitas por moradores do conjunto Panorama 21, no bairro Mangueirão, de que que as vizinhanças tiveram que fechar as portas de comércios e casas antes das 21h - por ordem de bandos criminosos que atuam na região. O fato, inédito, ocorreu no dia do aniversário de Belém, no último sábado (12).
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ANTECEDENTES
Colares ressalta: a capital paraense já experimentou, antes, esse toque de recolher determinado pelos criminosos. "Em 2014, passamos por isso. A milícia determinou um toque de recolher durante dois dias em Belém", afirmou.
Ele se refere ao assassinato do cabo Antonio Marcos da Silva Figueiredo, o "Cabo Pet", em novembro daquele ano. Logo após esse crime, dez pessoas foram assassinadas em Belém - uma chacina, portanto. Aiala disse que, em alguns bairros da capital, os bandidos "estão estabelecendo um código de postura e normas que representam uma das estratégias de controle do território.
Exemplo: no Barreiro, é proibido ter assalto nas áreas que o tráfico comanda. É uma forma também do crime se aproximar da comunidade, e a comunidade passar a ver o criminoso como uma espécie de protetor".
Em relação à Cabanagem, o pesquisador disse que, historicamente, o bairro "tem uma presença muito forte do tráfico de drogas. Se tornou um bairro, alguns anos atrás, que passou a ser disputado por facções rivais. E, hoje, a economia do narcotráfico chega a influenciar no cotidiano dos moradores, sobretudo dos comerciantes, com toque de recolher. E as milícias atuam em parte desse bairro".
NARCOMILÍCIAS
Aiala Colares falou do momento pelo qual passa Belém. "Então, o que estamos vivenciando hoje são territórios em disputas, territórios controlados por grupos ligados ao crime, à economia do crime. E, de certa forma, essa estratégia do toque de recolher representa uma forma de impor sua lógica de poder. Como acontece no Rio de Janeiro, como acontece em São Paulo, com o PCC. E Belém, hoje, está vivenciando isso", afirmou.
Segundo ele, esse problema que Belém vem enfrentando representa, na verdade, o "resultado de uma série de questões associadas à negligência que a política de segurança pública teve em relação a essa dinâmica recente de Belém no tráfico de drogas. Isso culmina, hoje, com a intensificação da violência urbana e que coloca, cada vez mais, os próprios agentes de segurança na situação de risco, bem como os moradores de bairros controlados pelo crime, sobretudo tráfico de drogas e milícias".
CPI da Alepa desvendou funcionamento das milícias no Pará Em janeiro de 2015, a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das Milícias apresentou, na Assembleia Legislativa, o resultado de 44 dias de investigação. O relatório, de 226 páginas, reafirmou a existência de milícias no Estado e as responsabilizaram pela chacina, ocorrida nos dias 4 e 5 de novembro de 2014, em Belém, quando dez pessoas foram assassinadas, como também traça um perfil do modo como estes grupos agiam e faz uma série de recomendações aos órgãos públicos.
Dentre estas, o pedido de indiciamento de oito pessoas, policiais militares e civis, que foram identificados na investigação como participantes destas milícias.
"A morte do cabo Figueiredo (cabo Antonio Marcos da Silva Figueiredo, conhecido como Pet, aquela ocorrida em novembro de 2014 e que desencadeou outros dez assassinatos) está elucidada. Ela é fruto de suas ações milicianas, e não de suas ações legítimas como membro que era da Polícia Militar, como se quis fazer parecer. Da mesma forma elucidada está a chacina que se seguiu, mas embora se saibam as suas motivações, talvez nunca saibamos os nomes dos algozes, daqueles que apertaram o gatilho. Mas sabemos o nome dos criminosos que mantinham a milícia em conjunto com o cabo Figueiredo", afirmou, naquela ocasião, o relator da CPI, o deputado Carlos Bordalo, ao ler a conclusão do relatório.
Ele ressaltou na sessão que esses nomes revelados pela CPI são amplamente conhecidos dos moradores dos bairros do Jurunas, Cremação, Condor, Guamá, Terra Firme e Marco, bem como da Polícia Civil, do Ministério Público, do Poder Judiciário e da Polícia Militar. Ainda segundo o relatório, no Pará coexistem pelo menos três milícias que, por vezes, agem em colaboração umas com as outras, e que vendem serviços para "clientes" de toda a região metropolitana.
Ainda segundo a CPI, o esquema funcionava a partir do agenciamento de "bicos" de segurança privada clandestina armada para agentes de segurança pública de folga ou para soldados da milícia mediante comissão.
NEGÓCIOS DO CRIME
Também foi identificada a venda de "segurança" a traficantes, ante os próprios milicianos e a polícia; a apropriação de drogas apreendidas de traficantes e usuários de entorpecentes e a reinserção delas no mercado através de traficantes da influência do grupo; o extermínio de pessoas contratadas por empresários e agiotas; o roubo de sucatas e cargas; e fraudes em licitações públicas.
"A transcrição de uma das ligações telefônicas dá conta dos preços praticados. Uma vida custava entre R$ 200 e R$ 15 mil", afirmou Bordalo. A CPI ouviu mais de 70 pessoas e concluiu que o esquema das milícias está articulado em diversas esferas, inclusive com infiltração política em órgãos públicos, na "espetacularização da ação policial" e consequente reforço nas comunidades de teses como a que "bandido bom é bandido morto".
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