Vítima de agressão de estudantes universitários sofre de esquizofrenia e sobrevive com ajuda
Vereadora de Belém, que acolhe a vítima conhecido pelos apelidos 'Real' ou 'Carlinhos', não acredita na responsabilização dos agressores
'Real' ou 'Carlinhos', assim é conhecido o homem em situação de rua vítima das agressões de estudantes universitários, em Belém. O homem negro em vulnerabilidade extrema sofreria de esquizofrenia e tem dificuldades de fala. Ele está há aproximadamente 15 anos pelas ruas do bairro do Reduto e sobrevive com a ajuda de moradores para comer, tomar banho e se vestir.
Uma das moradoras que auxilia Carlinhos é a vereadora de Belém Raquel Ferreira Viana, que conhece bem o rapaz, que algumas vezes dorme na frente de sua residência. Segundo ela, o homem quase não fala e pronuncia poucas palavras como “quer feijão”, “quer água” e “quero jantar”.
Na maior parte do tempo, Carlinhos apresenta comportamento tranquilo, mas em alguns momentos sofre surtos psicóticos, já que não possui acompanhamento médico ou psicológico. Raquel relata que essa não foi a primeira vez que ele sofreu violência nas ruas.
“Na verdade, ele é muito sofrido. Ele já chegou lá na frente da porta de casa todo quebrado. Na maioria das vezes, 90% do tempo ele é tranquilo, mas tem momentos em que ele entra em surto. Ele tem um problema psiquiátrico muito sério e em surto fica agressivo”, detalha.
Há algum tempo, Raquel convencia Carlinhos a tomar banho pelo menos duas vezes por semana, mas ele passou a recusar. Atualmente, o banho ocorre a cada 15 dias ou até uma vez por mês.
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A vereadora soube das agressões no mesmo dia. Ele foi vítima de dois estudantes de Direito de uma instituição privada localizada na travessa Alcindo Cacela, que utilizaram um aparelho 'taser' para aplicar choques elétricos, na última segunda-feira (13).
Raquel também auxiliou o delegado responsável pelo inquérito a localizar Carlinhos e mediar contato com equipes do Corpo de Bombeiros e da Polícia Militar (PM). As equipes tentaram convencer a vítima a realizar o exame de corpo de delito, mas ele se recusou por medo e não quis sair da frente da casa da vereadora. Também não aceitou ser encaminhado a um abrigo.
“Eu fui atrás dele, eu o localizei e ele veio atrás de mim, porque ele janta na porta da minha casa toda a noite. Quando eu consegui localizá-lo, comuniquei ao delegado, que enviou uma viatura da Polícia Militar e uma ambulância do Corpo de Bombeiros, pois ele deveria fazer exames, mas ele não quis. E não há nenhuma lei que o obrigue a ser conduzido coercitivamente, já que ele não cometeu crime. É uma pessoa em situação de rua, embora precise de tratamento”, afirmou.
Raquel revelou ainda que, em outra ocasião, um entregador reconheceu Carlinhos como morador do bairro da Cremação. Segundo ele, o homem vivia com a mãe e o irmão, que também teriam esquizofrenia. Ambos já faleceram, e Carlinhos ficou sozinho, sem família.
A vereadora criticou a ausência de atuação da Fundação Papa João XXIII (Funpapa), órgão da Prefeitura de Belém responsável pela assistência social. Segundo ela, tentou contato com a presidente Susi Cristina Cruz, mas não obteve resposta.
Mesmo com a repercussão do caso, a vereadora disse duvidar da responsabilização dos agressores, já que não houve exame de corpo de delito e os suspeitos seriam de famílias ricas.
“Eu vou ser muito franca. Para mim, o caso vai ser arquivado. Primeiro porque ele se recusou a fazer o exame. Eles vão usar isso para arquivar. Mas mesmo que tivesse feito, acredito que não daria em nada, pois são jovens de famílias ricas”, declarou nas redes sociais.
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