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Pará registra redução de mais de 60% no número de casos de escalpelamento em um ano; vídeo

Uma das medidas para prevenir os casos é implementada pela Lei nº 9.537/97, que obriga o uso de proteção no motor, eixo e tudo que possa promover riscos à integridade física dos passageiros e da tripulação

Camila Azevedo

O Pará registrou diminuição nos casos de escalpelamento durante o ano de 2022. Foram 3 situações entre janeiro e agosto, uma redução de 62,5% em comparação ao mesmo período de 2021, quando a Capitania dos Portos da Amazônia Oriental contabilizou 8 acidentes. Com o objetivo de continuar na luta até que os índices sejam zerados, este domingo (28) é alusivo ao Dia Nacional de Combate e Prevenção ao Escalpelamento. A data foi criada com a Lei nº 12.119/10, visando conscientizar os brasileiros e dar visibilidade à realidade de exclusão e violência sofrida pelas vítimas, frequente em sua maioria na região norte do país.

O escalpelamento é o arrancamento brusco e acidental do escalpo, mais conhecido como couro cabeludo. O acidente é mais comum de ser visto em embarcações de pequeno porte, durante a pesca artesanal ou ida à escola e ao trabalho de famílias que fazem uso exclusivo do meio de transporte para se locomover. Por descuido, os cabelos longos são enrolados no eixo e partes móveis do motor, causando a retirada total ou parcial da estrutura. Orelhas, olhos, sobrancelhas, parte do rosto e pescoço podem ser arrancados, levando ao risco de morte.

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Uma das medidas para prevenir os casos é implementada pela Lei de Segurança do Tráfego Aquaviário (LESTA) nº 9.537/97, que obriga o uso de proteção no motor, eixo e tudo que possa promover riscos à integridade física dos passageiros e da tripulação. Inspeções e instalações gratuitas de coberturas são feitas pela Marinha diariamente. Neste ano, 140 peças já foram postas pela entidade. 

Conviver com as sequelas do escalpelamento é um desafio constante na vida de quem já passou pela situação. Além dos longos anos de luta e tratamento, questões socioeconômicas estão implicadas na continuação do processo. Larisse Pires, de 24 anos, é a prova disso. Natural de Prainha, no Baixo Amazonas, foi durante uma ida à cidade que ela sofreu o acidente, em 2007. 

Conviver com as sequelas do escalpelamento é um desafio constante na vida de quem já passou pela situação (Igor Mota / O Liberal)

No início, várias cirurgias chegaram a ser realizadas até estabilizar o quadro, mas o processo foi interrompido no ano de 2009 por dificuldades de locomoção: a distância até Belém é uma viagem de três dias de barco. “Ficar indo e vindo é difícil, minha mãe tinha mais filhos pequenos, não tinha como. Para chegar aqui, eu tenho que pegar uma embarcação. Lá na minha cidade, eles não tinham muito conhecimento sobre, então demorei pra conseguir o TFD [Tratamento Fora de Domicílio]”, conta Larrise. 

Aceitar a condição é uma realidade ainda muito dura no dia a dia, mesmo depois de 15 anos do acidente. O momento de maior adversidade foi no começo da adolescência. “Foi mais complicado. É praticamente uma outra vida, tem a parte da aceitação, mas a gente vai se acostumando com o tempo. Tem aquilo de ‘ah, eu já aceitei totalmente’, não existe. Vamos vivendo. A sociedade é difícil, já senti olhares diferentes, sempre tem, já sofri muito preconceito. Hoje em dia, já não ligo, sigo com a cabeça erguida”, diz a jovem. 

A vida da Ana Alice Gomes, estudante de 24 anos e moradora do município de Bagre, no Marajó, também foi transformada. A família dela depende exclusivamente de barco e nenhum deles sabia dos riscos de andar na parte de trás, próximo ao eixo, com os cabelos soltos. No total, ela passou por 18 cirurgias e procedimentos de reconstrução.

“Estávamos indo do interior para a cidade. Nessa viagem, eu fui brincar perto do eixo e, como tinha muita maresia no rio, o barco balançou e me jogou em cima dele. A partir do momento em que eu caí, não me lembro de mais nada. Só sei do que as pessoas que estavam comigo me contam. É o nosso único meio de transporte, tem até hoje, mas a gente não sabia do perigo que era a embarcação sem cobertura”, relembra.

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Voltar a estudar depois do acidente não foi uma tarefa fácil, mas Ana não abandonou o sonho de fazer uma faculdade e encarar o que tinha pela frente. A solidariedade encontrada nos amigos passou a ser uma grande aliada. “A minha vida mudou completamente, eu tinha só 12 anos. Quando eu voltei pra minha casa depois, foi tudo diferente, eu não sentia vontade de voltar pra escola, eu não sentia vontade de sair. Eu voltei pra escola, mas foi difícil porque tem muita gente preconceituosa, mas tem a parte das pessoas que aceitam e tem solidariedade com a gente. Eu tenho sonho em me formar”, explica. 

Casa de apoio acolhe vítimas em Belém

Ter um espaço que seja uma rede de apoio às vítimas é de extrema importância durante todo o tratamento, uma vez que muitas delas são de localidades distantes e não possuem muitos recursos. Dessa forma, o Espaço Acolher, da Santa Casa de Misericórdia do Pará, oferece alimentação, estadia, atendimento psicológico e social às mulheres acidentadas durante todo o percurso e tem como objetivo diminuir o tempo de internação delas.

Desde a criação do Espaço, em 2006, cerca de 250 pessoas passaram pelo local, que também oferece acompanhamento escolar para evitar a evasão. Maria Luzia Matos, assistente social e coordenadora do Acolher, ressalta que o trabalho é feito em conjunto com uma equipe multiprofissional para amparar e dar mais qualidade de vida.

Maria Luzia Matos, assistente social e coordenadora do Acolher (Igor Mota / O Liberal)

“Tem uma psicóloga que faz o acompanhamento dessas meninas. Fazemos essa escuta juntas, porque a dor é muito grande, elas chegam normalmente muito abaladas, principalmente quando são adolescentes. Quando é criança, o sofrimento é mais físico, costumam superar com mais facilidade. Adolescente sofre muito porque é a parte da autoimagem, como elas se veem, como a sociedade as vê. Então, a gente trabalha muito isso com elas, para ver se elas conseguem dar um novo significado pra vida”.

 Para prevenção

– nunca armar rede ou sentar de cabelos soltos perto do motor;
– prender os cabelos, colocar um boné ou chapéu;
– evitar usar colares ou cordões;
– mantenha as crianças sempre longe do eixo

Serviço

O paciente deve ter os primeiros socorros feitos em uma unidade municipal ou estadual de urgência e emergência. Na rede pública de saúde estadual, estão habilitados o Hospital Regional do Tapajós, Hospital Regional do Baixo Amazonas, Hospital Regional de Breves e o Hospital Metropolitano de Urgência e Emergência. 

Em casos necessários, os pacientes são encaminhados para a Santa Casa de Misericórdia do Pará, referência estadual no atendimento de vítimas de escalpelamento.
Durante o tratamento e nos retornos à capital, Belém, para consultas, o estado disponibiliza para as vítimas e respectivas famílias o Espaço Acolher, no bairro do Umarizal, em Belém.

Doação de cabelo
O Espaço Acolher recebe doação de cabelo para a confecção de perucas, distribuídas de graças às vítimas. 

De segunda a sexta-feira, de 8h às 17h.
Local: avenida Alcindo Cacela, 555, esquina com a rua Diogo Móia.

Pará
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