‘Urutau-Cinza Verde-Mata’ estreia na Capela do MEP e percorre espaços culturais de Belém e Colares
Espetáculo articula corpo, memória e ancestralidade amazônica em apresentações gratuitas
Espaços históricos de Belém e a ilha de Colares recebem, entre os dias 8 e 16 de janeiro, a circulação gratuita da performance “Urutau-Cinza Verde-Mata”, solo interpretado pela artista paraense Michele Miranda, com direção de arte e visualidade de Patrícia Gondim. A estreia está marcada para esta quinta-feira (8), às 19h30, na Capela do Museu do Estado do Pará (MEP), com acesso gratuito e aberto ao público. O espetáculo retorna ao mesmo espaço na sexta-feira (9), integrando a programação do projeto Uma Noite de Museu.
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Nos dias 10 e 11, a obra segue para o Teatro do Curro Velho, com sessões que contarão com intérpretes de Libras, garantindo acessibilidade ao público surdo. No dia 12, a apresentação volta à Capela do MEP, como parte da programação oficial do aniversário de Belém. O encerramento ocorre no dia 16, com uma apresentação especial dedicada à Comunidade do Chão de Tupinambá, em Colares. Os ingressos para todas as sessões serão distribuídos uma hora antes do início.
O projeto, contemplado pelo Edital PNAB/Pará – Criação em Dança 2025, propõe uma experiência cênica que dialoga com mitos indígenas, memórias ancestrais e a relação entre corpo, natureza, ritual e cura. Inspirada na figura do urutau, ave noturna amazônica conhecida pela camuflagem e pelo canto melancólico, a apresentação constrói uma narrativa corporal em espiral a partir de uma cosmovisão amazônica.
Em cena, Michele desenvolve uma cartografia pessoal por meio do corpo em movimento, da palavra, dos sons e de objetos conhecidos como bichos-de-luz, criando uma atmosfera sensorial que convida o público a refletir sobre identidade, pertencimento, território e resistência cultural. A equipe reúne ainda músicas de Mateus Moura e Irís da Selva, além do figurino assinado por Maurício Franco.
Segundo a artista, o trabalho é atravessado por um percurso de deslocamentos e pesquisas realizados fora do Pará. Michele contou que se afastou de Belém por alguns anos para aprofundar os estudos em teatro e dança, passando pelo Rio de Janeiro e desenvolvendo pesquisas no México, na França e em Portugal. Esse movimento, de acordo com ela, foi decisivo para uma reestruturação do próprio fazer artístico.
“Foi um divisor de águas no meu trabalho, exigindo total autonomia para criar, compor, coreografar e escrever tudo aquilo que me atravessava na distância e na solidão dessas travessias territoriais”, afirmou.
A artista explica que, a partir desse processo, passou a ocupar múltiplas funções em seus trabalhos solo, como performer, dramaturga, diretora, pesquisadora e produtora. Esse percurso a levou à parceria com a artista visual Patrícia Gondim, com quem mantém colaboração há mais de uma década. “Nunca mais larguei a mão dessa alquimista. Ela materializa todo o meu delírio poético em objetos-de-luz”, disse Michele, ao destacar a importância da visualidade na construção da cena.
A inspiração central do trabalho surgiu a partir da imagem de um pássaro que pudesse atravessar os territórios habitados pela artista. Michele relata que buscava uma figura que funcionasse como espelho simbólico de sua própria trajetória até se deparar com o urutau.
“Urutau no tupi significa ‘ave fantasma’. É um ser-pássaro solitário da Amazônia, quase invisível na mata, de vocalizações melancólicas. Como não me identificar com ele?”, afirmou. A artista também relaciona a figura do urutau a narrativas mitológicas que o associam à proteção das mulheres e à ancestralidade.
Além do urutau, a construção dramatúrgica dialoga com outras imagens simbólicas, como o pássaro Sankofa, da tradição africana, e Goofus, de Jorge Luis Borges, compondo o que Michele define como uma mitologia pessoal povoada por seres encantados.
A escolha dos espaços de apresentação também integra a concepção do projeto. A Capela do MEP, o Teatro do Curro Velho e o território do Chão de Tupinambá, em Colares, dialogam diretamente com temas como espiritualidade, memória coletiva e relação com a floresta. Sobre o encerramento na ilha, Michele destacou o vínculo afetivo e ancestral com o local. “É a terra do meu avô Zizi Miranda. Voltar a esse território cura nossa árvore e, acredito, cura a natureza”, afirmou.
Patrícia Gondim explica que a visualidade do espetáculo dialoga diretamente com a resposta do público porque nasce de uma parceria artística atravessada por uma mesma compreensão cosmológica.
“Escolhi representar esse trabalho trazendo elementos visuais como longos tecidos e ferramentas para desfiar os fios. Foi um ano inteiro cortando, desfiando, tingindo e tramando, muito inspirado no mito dos Kaiapós Xikrins, que a Michele narra durante a performance”, disse.
Patrícia também relaciona a obra aos saberes tradicionais. “Esse mito fala dos primeiros povos que habitavam o plano das nuvens e desceram por meio de cordas, fios, pelos e cabelos para povoar a terra. Urutau-Cinza Verde-Mata nos permite evocar esses modos ancestrais, que reconhecemos nas danças, nos preparos alimentares e nos cuidados que mestres e mestras nos deixaram”, completa.
OFICINA
Como parte das contrapartidas culturais, o projeto realiza ainda o laboratório prático “Memória Ancestral e a Dança-Brux(t)a como ferramentas de Criação Poética”, nos dias 14 e 15 de janeiro, no Teatro do Curro Velho.
A atividade propõe uma troca de saberes sobre processos criativos em dança, memória e corpo, com inscrições abertas no próprio espaço, ampliando o diálogo com artistas, estudantes e interessados em práticas contemporâneas ligadas à ancestralidade.
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