Cabanagem: levante popular segue inspirando obras de arte e busca por justiça social
Isso pode ser observado no livro de poemas ‘Romanceiro da Cabanagem’, de José Ildone; Movimento completa 191 anos de história nesta terça (6)
A busca pela justiça social e a defesa da liberdade, diante de leis e ações que não respeitem a história e a cultura de um povo, devem sempre nortear a vida de cidadãos de qualquer cidade, estado ou país, em especial na Amazônia. Essa postura não se alicerça à toa, pois funciona como ponto de partida para se assegurar a cidadania de pessoas de todas as idades, e isso é demonstrado na trajetória dos paraenses de forma inquestionável por meio do Movimento da Cabanagem, que nesta terça-feira (6) completará 191 anos. Esse Movimento tem sido motivo de estudos diversos e, em particular, tema em expressões artísticas, como se vê no livro “Romanceiro da Cabanagem”, de autoria do escritor José Ildone, 83 anos, natural de Vigia, ex-prefeito desse município do nordeste do Pará.
Essa rebelião ou revolução tem na sua trajetória relacionada às cidades de Belém e Vigia, ambas completando 410 anos de fundação neste mês de janeiro. Vigia foi fundada em 6 de janeiro de 1616 e Belém, em 12 de janeiro de 1616. E foi em Vigia, conhecida como Vigia de Nazaré, que José Ildone conversou com a Reportagem do Grupo Liberal, sobre o “Romanceiro da Cabanagem”.
Entre outras relações com a Cabanagem, a Cidade Vigia viu nascer Domingos Antônio Raiol, o Barão de Guajará (1830-1912). Ele se notabilizou na seara política, também como pesquisador e um dos sócio-fundadores da Academia Paraense de Letras (APL) e na fundação do Instituto Histórico e Geográfico do Pará. Raiol abordou a Cabanagem no seu livro “Motins Políticos”.
Coragem popular
Em Vigia, José Ildone conta que seu livro “Romanceiro da Cabanagem” tem esse título “por influência do poeta espanhol Garcia Lorca, que intitulou seu livro sobre os gitanos(ciganos)europeus de ‘Romanceiro Gitanos’ “. A obra foi lançada em 1985 pela Secretaria Municipal de Educação de Belém (Semec). Uma segunda edição do livro concretizou-se em 2016.
“Eu decidi lançar o livro porque a temática desse movimento popular permitia perfeitamente isso. Foi uma ocorrência de grande magnitude política e que teve como um dos cenários Vigia de Nazaré, minha terra natal. Logo, era digna de registro em forma de poemas”, diz Ildone. “Romanceiro da Cabanagem” reúne 35 poemas. E Ildone destaca tratar da Cabanagem sob dois aspectos, o histórico e o literário, igualmente.
“A Cabanagem marcou o Pará não só com o sangue derramado, mas como um exemplo de coragem popular em defesa de seus valores e tradições, e também de posicionamento definido ante a autoridade nem sempre justa e correta. Era a Amazônia marcando sua presença digna de respeito”.
No Canto 26, intitulado “Coragem” (Segunda Conquista de Belém), o leitor confere no livro: “No campo da madrugada, / combate a noite com o dia. / Estrelas somem. / Outra vem / sob o silêncio indormido / de Santa Maria de Belém”. “(a) / De repente, se depara, / do alto alpendre do espaço, / com três garras invasoras / fendendo a Sucuriurbe: / a primeira vai buscando o coração da cidade, / onde ao marechal, em palácio, / assusta o estrondo rebelde, / sob as ordens de Angelim."
Cruzando o tempo
A Cabanagem se deu entre os anos de 1835 e 1840, na regência de Diogo Antônio Feijó no Império do Brasil, e teve como líderes Félix Clemente Malcher, Antonio Vinagre, Francisco Pedro Vinagre, Eduardo Angelim e Vicente Ferreira de Paula. O movimento teve como motivo a extrema pobreza, fome e doenças enfrentadas pela população. Além do isolamento político, a influência portuguesa no Norte do Brasil com a Independência em 1822 - O Pará somente aderiu à Independência em 1823.
Em 6 de janeiro de 1835, a Cidade de Belém foi tomada pelos cabanos. No dia seguinte, foi instituído o Governo Cabano. Como explica o historiador e professor Michel Pinho, a Cabanagem é um movimento que começa no interior do Pará e se desenrola a partir das perseguições agudas do então governador Lobo de Sousa faz em relação a uma quantidade muito grande de agentes sociais, como fazendeiros, homens e mulheres pobres, indígenas, escravizados, libertos, no final do ano de 1834 em diante, o que vai desencadear a sua morte em Belém do Pará.
“A Cabanagem deixa, desde o Século 19 até hoje, um caminho bastante significativo em relação à percepção da luta dos direitos sociais das camadas mais empobrecidas da população. Ela foi vista, revista, escrita várias vezes por muitos historiadores e se consolida hoje como principal Movimento Social da história do Brasil”, ressalta Michel Pinho.
A partir da Cabanagem, como destaca o historiador, é possível se pensar em vários caminhos de manifestações culturais, de manifestações políticas, de tentativas de inserção na administração pública. ‘Vamos pensar na abolição da escravidão, pensar no direito das mulheres, no desejo da participação e na identidade social. Essas são as principais marcas do Movimento Cabano”, destaca o historiador. Ele complementa, dizendo que nos últimos 20 anos a Cabanagem gerou uma quantidade significativa de expressões culturais, como peças de teatro, cinema, literatura, “e isso é extremamente louvável no sentido de fazer com que a nossa história seja conhecida para além dos muros das universidades”.
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