Teatro visceral e debate sobre homofobia marcam o retorno de Tom na Fazenda a Belém
Protagonizado por Armando Babaioff, sucesso internacional explora a desconstrução do corpo e a intensidade dramática em uma narrativa que confronta a homofobia estrutural e as relações de poder no ambiente rural
O espetáculo Tom na Fazenda desembarca pela terceira vez em Belém para duas apresentações no Theatro da Paz, nos dias 28, às 20h, e 29 de março, às 19h. Com quase nove anos em cartaz, mais de 200 mil espectadores e cerca de 600 sessões realizadas, a montagem se destaca pela circulação contínua e pela permanência em debate de temas sensíveis e contemporâneos.
Na trama, o protagonista vivido por Armando Babaioff mostra Tom em sua jornada de vivência psicológica diante da homofobia estrutural e dos pactos de silêncio que atravessam o ambiente familiar.
“Eu acho que o mais bonito de testemunhar é que a peça atravessa culturas sem precisar se adaptar; ela chega como é, crua, e encontra ressonância. Isso, para mim, fala não só da força do texto, mas também da potência do teatro brasileiro, da nossa capacidade de produzir um teatro que é, ao mesmo tempo, muito particular e profundamente universal. Eu percebo que o choque do público europeu passa muito pela visceralidade e pela fisicalidade do espetáculo. Existe uma energia em cena, uma intensidade no corpo dos atores, que não é apenas estética; ela vem de um lugar muito nosso. Os nossos corpos, o fato de sermos brasileiros, latino-americanos, tudo isso está impresso no trabalho. É uma maneira de estar em cena que carrega uma pulsação, uma urgência, uma exposição que, muitas vezes, surpreende o público de fora”, pontua Armando.
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Desde sua estreia, em 2017, Tom na Fazenda percorreu importantes festivais e circuitos de teatro no Brasil e no exterior, passando por países como França, Canadá, Reino Unido, Bélgica e Suíça. A montagem integrou programações como o Festival de Avignon e o Festival de Edimburgo, e realizou temporada em Paris, no Théâtre Paris-Villette, onde alcançou recorde de público. Ao longo dessa trajetória, acumulou prêmios relevantes, como APCA, Shell, APTR e reconhecimento da crítica internacional.
“O que mudou (desde a estreia) foi o meu entendimento de que o Tom não é só uma vítima; ele também é alguém que, de alguma forma, pactua com aquele sistema para sobreviver. No início, eu olhava para ele com uma certa compaixão mais direta. Hoje, o vejo com mais complexidade, mais contradição, mais camadas. São mais de 600 apresentações; eu tenho o privilégio de visitar muitas vezes esses lugares e cada vez enxergo mais coisas. E isso tem a ver também com o tanto que o Brasil e o mundo mudaram nesses últimos anos; a peça absorveu essas discussões, isso é algo que eu pude perceber também. A urgência de falar sobre homofobia estrutural e, principalmente, sobre os silenciamentos dentro das famílias só aumentou. A peça, infelizmente, não envelheceu; ela continua absolutamente atual”, explica.
Em Tom na Fazenda, Tom vai à fazenda da família para o funeral de seu companheiro; porém, ao chegar, ele descobre que a sogra nunca tinha ouvido falar dele e tampouco sabia que o filho era gay. Nesse ambiente rural austero, Tom é envolvido numa trama de mentiras e a fazenda vira cenário de um jogo perigoso de aproximações e contradições.
“Aquela família também está o tempo inteiro tentando se equilibrar sobre uma verdade que não se sustenta. Existe uma tensão permanente entre o que se diz e o que se esconde. E tem uma coisa que me interessa muito: a ausência de cenário no sentido tradicional. A gente não tem uma casa construída, não tem paredes, não tem móveis que definam aquele espaço. O cenário é essa matéria viva. A gente se suja de cenário, a gente se mistura a ele. Com o tempo, todos os personagens vão ficando meio da mesma cor. As diferenças vão sendo apagadas por essa camada de lama. E isso, para mim, fala muito sobre como aquela estrutura familiar funciona: todo mundo está implicado, de alguma forma, naquela ‘sujeira’, naquele pacto de silêncio, naquela violência que circula”, diz Armando.
Sob a direção de Rodrigo Portella e idealização de Armando Babaioff, a encenação utiliza uma estrutura cenográfica enxuta para priorizar o desempenho dos atores. O palco é revestido por uma lona rústica coberta por lama e água, em uma alusão ao solo rural que impõe um desafio físico constante ao elenco. Essa instabilidade no palco funciona como um espelho para o desequilíbrio emocional e as tensões entre as personagens. Durante a peça, os atores precisam buscar o equilíbrio o tempo todo, criando uma conexão profunda entre os próprios corpos e os dos colegas. Essa escolha transforma o corpo em um verdadeiro campo de batalha e traz o público para bem perto de toda a intensidade da história.
Armando Babaioff é reconhecido por sua versatilidade no teatro, cinema e TV, com destaque para papéis em novelas como Ti Ti Ti, Bom Sucesso, Segundo Sol, Duas Caras, Páginas da Vida, Dona de Mim, dentre outros. No seu último trabalho na TV, em Dona de Mim, o ator vivia Vanderson, um mau-caráter imerso em ilusão e esquemas ilícitos. Em Tom na Fazenda, Armando levanta outros debates e temas reflexivos.
“Para mim, não se trata de levantar uma bandeira de forma panfletária, mas de não se omitir. De entender que o trabalho artístico é também um lugar de elaboração do nosso tempo, de confronto com aquilo que a sociedade, muitas vezes, prefere não olhar. Estar em cena já é, de alguma forma, se posicionar. Eu acho que toda arte é política, mesmo quando ela não se assume como tal. A escolha do que contar, do que colocar em cena, já é um posicionamento”, explica.
Em sua terceira temporada em Belém, o ator destaca a conexão com a arte e o local: “Belém tem uma cena cultural muito viva, muito potente, e isso faz toda a diferença na forma como o espetáculo é recebido. Existe uma tradição teatral forte, uma produção local pulsante, artistas e estudantes de arte muito implicados com o seu território e o público acompanha isso. É um público formado, curioso, que tem repertório e, ao mesmo tempo, com uma disponibilidade muito grande para o encontro. O que me parece mais singular na reação do público paraense é que as discussões nunca chegam como algo distante e nem terminam no teatro; elas encontram um eco muito direto, que muitas vezes vai parar em discussões pós-espetáculo no bar, na faculdade, na rua e até mesmo em casa. E eu sei disso porque as pessoas me escrevem relatando o que a experiência teatral pode causar. É sempre muito bom voltar a Belém. É um reencontro”.
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