Armando Babaioff: ator vive um charmoso vilão em Bom Sucesso

Lorena Filgueiras

Armando Babaioff vive um vilão carismático em Bom Sucesso. Na pele de Diogo, um advogado amoral e sem escrúpulos, Babaioff tem divertido o público e se divertido mais ainda. Em seu melhor momento na TV, o ator se divide entre as câmeras e o Teatro, onde encena a peça “Tom na Fazenda”, que está rodando o país. Neste bate-papo conosco, Babaioff fala de Diogo, de Tom e seus processos criativos.

Troppo + Mulher: Você está numa fase incrível, em que notadamente você parece se divertir muito com o Diogo. É isso mesmo? Como tem sido a recepção do público ao teu personagem?
Armando Babaioff: É. Nunca me diverti tanto com um personagem! As possibilidades que ele proporciona são inúmeras e o mais divertido é escolher qual a melhor maneira de se fazer uma cena, qual a melhor forma de se contar essa história. Diogo é um personagem muito bem escrito e que me permite dar a ele mais do que o corpo e uma voz. Ele pede para ser daquele jeito. O público na rua e na internet me odeia, mas o ódio vai até trocar uma palavra comigo e ver que de Diogo eu não tenho nada (risos). Tive que aprender a ressignificar, que o ódio significa que a comunicação está acontecendo. O objetivo é esse. Diogo é amoral, ele não é um exemplo a ser seguido. Mas ao mesmo tempo seu sarcasmo o leva para um tom de humor que me interessa também. Fico feliz quando escuto que as pessoas se divertem com ele.

Armando Babaioff (Vinícius Mochizuki)

T+M: Quais foram ou são suas inspirações para compor o Diogo?
AB: Minha inspiração é o texto da Rosane Svartman e do Paulo Halm. É dali que parto para criar. As inspirações vêm da minha cabeça, de tudo o que me influenciou até hoje, mas sem alguma coisa muito definida. Vou alimentando o Diogo de informações que o próprio texto me traz e, a partir daí, ele vai reagindo às situações. Como esse cara que pensa e vê o mundo dessa forma reage? E assim eu vou compondo. Eu gosto dos detalhes, acho a parte mais divertida. O modo de falar, como andar, o chiclete, a cueca vermelha, isso me diverte muito. As referências do Diogo são as telenovelas brasileiras. Ele viu todas as novelas desde pequeno. Não fui buscar uma referência específica, mas tem toda a minha observação como ator dos trabalhos de atores e atrizes que admiro. A ironia e o humor do Diogo foram os lugares que eu encontrei para que o personagem criasse empatia com o público. Mesmo sendo mau caráter. Gosto de criar esse ruído na comunicação, criar essa confusão, brincar com esse maniqueísmo. Fazer as pessoas gostarem da construção do personagem a ponto de ter interesse e querer saber como ele vai agir em determinada situação.

T+M: Você, no palco, interpreta um personagem que é oposto do Diogo, em “Tom na fazenda”. O que te motivou a encenar esse espetáculo?
AB: A história. É o que sempre busco. Ali tem uma história que me interessa contar. Uma boa história, simples assim.

T+M: Por serem dois personagens tão antagônicos, existe algum tipo de rito pessoal seu para despir-se de um e abraçar o outro?
AB: Não tenho ritual algum.

T+M: Tom na fazenda trata de um tema delicado – ou melhor, de vários, desde a morte, o segredo, a revelação da homossexualidade. Como foi a percepção e recepção do público ao espetáculo?
AB: Estamos há quase três anos em cartaz. Esse tempo me fez perceber que basta uma boa história para o público embarcar e se deixar levar a ponto de assistir ao nosso trabalho e atribuir a ele novas perspectivas, pontos de vista, ligações e identificação. Essa identificação acontece em diversos lugares. Você não precisa se identificar com o que é retratado na peça, mas como a peça fala de humanidade é quase impossível sair do espetáculo sem se deixar ser atravessado pelos dilemas universais que são mostrados no palco. A peça fala de todos nós. A isto se deve o sucesso e a longevidade do espetáculo. Quando uma peça que originalmente foi criada para o Canadá e serve exatamente para a nossa realidade no Brasil é quando o teatro se torna universal.

T+M: Você negociou diretamente com o autor da obra – que, ficou tão encantado, que cedeu outro texto para você adaptar. Como foi esse encontro, Armando? Tom deve voltar ao Canadá, certo? O processo para transformar “A Estrada dos passos perigosos” em peça já iniciou?
AB: Nosso primeiro encontro foi quase uma coincidência. Eu fui convidado para representar um filme que havia feito (“Prova de Coragem”) no Festival des Films du Monde de Montréal (FFM). Eu já havia adquirido os direitos de "Tom na Fazenda" há cerca de dois anos. Não lembrava que o autor era de Montreal. Ele (Michel Marc) que viu uma foto minha e o meu nome em um dos cartazes espalhados pela cidade e resolveu me escrever. Dois dias depois estava almoçando com ele em Montreal. Falamos da peça, ele me ajudou em alguns detalhes da tradução e disse que teria desejo em conhecer o Brasil. Conseguimos trazer ele para a estreia da peça. Ele ficou tão bem impressionado com o que viu que resolveu nos convidar para um dos maiores festivais de teatro das Américas, o FTA, que ocorre anualmente em Montreal. Ele convenceu a curadoria do festival a nos convidar, isso foi ano passado. O espetáculo foi aclamado pelo público e crítica, ganhamos o prêmio de Melhor Espetáculo Estrangeiro no ano de 2018 em Quebec. Na ocasião da viagem, ele me chamou num canto, em um evento e me presenteou com uma peça sua e me disse que estava cedendo os direitos autorais para que eu montasse. Ela já está traduzida, mas sem previsão ainda de estreia.

Armando Babaioff (Vinícius Mochizuki)

T+M: O que o Teatro significa para ti? O que é ser artista para ti? Como a Arte mudou sua vida?
AB: A minha religião, minha fé na humanidade, a minha vida. A forma que encontrei para dizer ao mundo o que penso dele e também uma forma de ajudar as pessoas, através do teatro, a compreender, um pouco que seja, esse lugar onde coexistimos. Eu tive o privilégio de ter contato com isso que chamo de ofício desde muito cedo. A arte, ela me faz olhar para o mundo de outra maneira. Eu sempre gostei de teatro, mas era uma realidade muito distante da que eu vivia. Na minha família não tem nenhum artista, eu não tive referências dentro de minha casa, eu sempre tive que buscar referências fora do meu universo, para assim criar o meu. O que fiz foi isso, criar o meu espaço e faço isso até hoje. Somos os cronistas do nosso tempo. Precisamos usar esse lugar para a reflexão, e não apenas o entretenimento pelo entretenimento. Que fique claro que o entretenimento também é arte, mas que não seja apenas isso. De que forma eu posso usar o meu trabalho como um agente transformador? De que forma posso utilizar um texto para gerar reflexão? O meu interesse como artista é esse.

T+M: Li algumas matérias e vi que você realizou o espetáculo sem patrocínio. Por que, Armando? Temeste, em algum momento, essa “vilanização” que os artistas brasileiros têm enfrentado, quando o assunto são as leis de patrocínio à cultura?
AB: Essa é uma discussão muito longa. O espetáculo não tem patrocínio porque nenhuma empresa se interessou em patrocinar. Simples assim. Mesmo com o histórico que temos. Vale lembrar que o espetáculo só aconteceu porque tivemos o patrocínio do Oi Futuro, no Rio de Janeiro. Esse patrocínio contemplou a estreia da peça e uma temporada de dois meses. Todo os outros meses, o espetáculo tem se mantido graças a editais públicos e vendas da peça para algumas instituições como SESI e SESC. Sem essas instituições, o espetáculo já teria parado. Mesmo lotando, o espetáculo não se paga com bilheteria, a conta não fecha. Nos querem colocar como vilões, mas felizmente sabemos quem está do lado certo dessa história. Infelizmente uma parcela da população acreditou nessa fake news de que somos “mamadores de teta” do governo. Esse é o problema da falta de informação. Esse é o verdadeiro vilão. Nunca temi. O teatro existe há mais de dois mil anos e continuará a existir.  

T+M: Voltando rapidamente ao Diogo, acreditas que ele pagará pelos crimes que comete?
AB: Acredito que sim. O mal nunca vence. Não será nessa novela que a maldade do Diogo ficará impune.

T+M: Adoraria saber teus planos para o futuro.
AB: Estou seguindo o fluxo das coisas, desisti de planejar. Nunca fui bom nisso. Economizo dinheiro, apenas.

T+M: Por fim, quando tens um tempinho de folga, o que curtes fazer?
AB: Gosto de estar entre os meus pares. Minha família e amigos. Gosto de ler, de estar na natureza. Gosto de viajar, muito.

Para conhecer mais:
@babaioff

Troppo
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