SEX · 02 OUT 2026Assine

SEU BAIRRO

Reduto: o motor da economia na fundação de Belém

Bairro já serviu para a defesa da cidade, para o desenvolvimento industrial, para organização política de trabalhadores e hoje é centro comercial

Victor Furtado

15 de junho de 2019 às 18:30

A antiga "Doca do Reducto", que funcionava no Igarapé das Almas (ou "Armas"). Era a segunda doca, além da Visconde de Souza Franco.

A antiga "Doca do Reducto", que funcionava no Igarapé das Almas (ou "Armas"). Era a segunda doca, além da Visconde de Souza Franco. ( Foto: Autor Desconhecido / Wikipedia )

O bairro do Reduto é um dos mais antigos de Belém. E está intimamente ligado com o desenvolvimento econômico da cidade. Foi uma pedaço da cidade onde se concentravam trabalhadores e pessoas pobres. Foi o local escolhido por empresários para a operação de fábricas diversas. Porém, esse não era o perfil original da área, projetada para ser uma estratégia de defesa, em meados do século XVIII.

Diego Pereira, historiador e coordenador do curso de História da Unama, considera a fundação do Reduto uma das origens mais interessantes entre os bairros de Belém. Considera que, curiosamente, não é um bairro tão comentado quanto o Umarizal em termos de valor histórico e cultural. Ainda restam alguns traços do passado pelas ruas, como os imóveis e o perfume da fábrica da Phebo.

LEIA TAMBÉM OUTRAS MATÉRIAS DA SÉRIE "SEU BAIRRO":

- Conheça a história do bairro de Val-de-Cans (ou Cães): sobre idosos, cachorros e militares

- Cremação: de quando se buscava soluções para o lixo

- Terra Firme: amor, humildade e identidade

- Guamá: uma história de lutas contra a doença, o preconceito e a exclusão

- Conheça a história do bairro da Condor, que homenageia uma empresa aérea alemã

- Telégrafo: bairro de contrastes e das ruas que "falam"

- Conheça a história da Pedreira, o bairro do samba e do amor

- Cidade Velha e esquecida

- Jurunas, o retrato da diversidade belenense

- Nazaré: o projeto da Belém de todos os tempos

- Tapanã: a rota da borracha em Belém e a 'Hospedaria do Inferno'

- Conheça a história do bairro Curió-Utinga: engenhos, natureza e a Cabanagem

- Sacramenta: história de luta pela moradia

No século XVIII, no reinado português de dom José I, o governador do Grão-Pará e Maranhão — que hoje são os estados que todo brasileiro já conhece — era o marquês de Pombal, Sebastião José de Carvalho e Melo. Naquele período, se pensava na necessidade de expandir o desenvolvimento da cidade, além dos bairros da Cidade Velha e da Campina. O rei e o governador então criaram a Comissão Demarcadora de Limites, formada por engenheiros, geógrafos e ambientalistas.

Em 1751, a área que hoje é o bairro do Reduto era um terreno alagado, com igarapés, pontua Diego. Ali, para reforço na defesa já estabelecida com o Forte de São Pedro Nolasco, deveria ser construído um "reduto", um posto de vigilância. O reduto era uma construção pequena, que ficava ao lado do convento dos capuchos de Santo Antônio. A função da edificação era estritamente militar. Mas o nome ficou. Originalmente, o bairro se chamava Reduto de São José, ressalta Diego.

As fábricas e os trabalhadores que movimentaram a economia

Pouco a pouco, o bairro começou a ser ocupado. Antes, havia duas docas: além da Doca Visconde de Souza Franco, havia a Doca do Reduto. Essa posição estratégica próxima das águas, foi interessante para empresários. Perceberam as vantagens de criar fábricas ali. E foi assim que várias começaram a surgir. E o bairro, entre o final do século XIX para o início do século XX, passou de uma estratégia militar a um bairro industrial.

A fábrica da Phebo, inaugurada na década de 1930, marcou a presença do Pará no cenário nacional e internacional de perfumaria
A fábrica da Phebo, inaugurada na década de 1930, marcou a presença do Pará no cenário nacional e internacional de perfumaria (Akira Onuma / Redação Integrada de O Liberal)

Entre algumas das fábricas mais conhecidas, cita o historiador, está a Pará Eletric, que ajudou no processo de iluminação de Belém. Outras que ele considera importantes são Amazônia Sabão (Soares Carvalho), a oficina de carpintaria (Manoel Caniceiro da Costa), fábrica a vapor (Fulgência Santos e Companhia União), fábrica do Mosaico Paraense, fábrica do Cimento Paraense Pinheiro Filho. A mais antiga é a fábrica Perseverança (em 1895, possivelmente uma raiz para a Fábrica Esperança) e a fábrica da Phebo (a partir de 1930).

Memória da Belém do passado é forte no Reduto

"O bairro do Reduto serviu bem aos interesses do processo de urbanização da cidade, sobretudo no período da borracha. Ainda hoje há muitos galpões e fábricas. Hoje em dia, o perfil socioeconômico dos moradores da área é de padrão mais alto, mas já foi uma área onde moravam pessoas pobres e trabalhadores. Também foi um centro político. Alguns imóveis resistem à especulação imobiliária", analisa o Diego Pereira.

Alguns imóveis do bairro do Reduto ainda mantém as características do Ciclo da Borracha
Alguns imóveis do bairro do Reduto ainda mantém as características do Ciclo da Borracha (Akira Onuma / Redação Integrada de O Liberal)

Atualmente, o perfil do bairro mudou novamente e é mais uma área comercial e de entretenimento. Um dos principais símbolos desse perfil é um shopping de grande porte. Mas ainda há uma quantidade considerável de moradias. No último censo, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o bairro apresentou cerca de 6,4 mil habitantes. Claro, há outros pontos turísticos e símbolos históricos.

Episódio aconteceu na noite desta sexta-feira (22).
Um dos maiores shopping centers da cidade caracteriza o perfil social, econômico e cultural do Reduto nos dias de hoje (Akira Onuma / Redação Integrada de O Liberal)

"Se fala muito como se fosse o Reduto não fosse um bairro que pertence ao Centro Histórico de Belém, mas nas estruturas do bairro está uma memória muito forte dos séculos XVIII e XIX, não tão mencionadas como em outros bairros. É necessário conscientizar, educar e cuidar de tudo isso. E para uma Belém do futuro, é importante cuidar da população de rua e dos índices de violência", conclui o historiador.

Assuntos relacionados