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Linguagem neutra: fenômeno linguístico divide opiniões na sociedade

Ao mesmo tempo em que essa transformação de língua ganha adeptos, outras pessoas se mostram resistentes; especialistas também fomentam esse debate

Gabriel Pires
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A utilização do pronome neutro (elu, ile, todes por exemplo), em sua maioria por jovens, para se referir a pessoas não-binárias, vem causando grande discussão e, até mesmo, polêmica na sociedade sobre o uso ou não dessa forma de comunicação. A linguagem neutra é um movimento de inclusão da comunidade LGBTQIA+ que se apresenta como uma opção para os pronomes já conhecidos, além do feminino e o masculino. Ao mesmo tempo em que essa transformação de língua ganha adeptos, outras pessoas se mostram resistentes entre os mais conservadores. Especialistas também fomentam esse debate partindo de argumentos embasado em fundamentações linguísticas.

ENQUETE

O professor de língua portuguesa Bruno Gibson, de Belém, enfatiza que o pronome neutro é um tipo de variação linguística, já que a língua portuguesa é uma língua e, em casos, como esse pode, sim, passar por adequações. Ele também destaca que esse é um mecanismo de inclusão. Por ser atual, o debate relacionado à linguagem neutra tem grandes chances de ser visto em questões do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), como destaca o professor.

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“É muito importante que o aluno entenda qual é o mecanismo de funcionamento do pronome neutro, qual o objetivo e qual é a representatividade desse pronome, a quem ele está se reportando, quem são as pessoas que usa o pronome neutro”. E o tema pode ser cobrado na prova da seguinte forma: “Um texto todo adaptado para o pronome neutro e, a partir dele, uma análise linguística: qual é a intenção do uso do pronome? Muito provavelmente vai ser uma alternativa que vai falar sobre a representatividade”, disse Bruno.

Ainda de acordo com Bruno. a língua tem a característica de ser inclusiva. Isso tudo por meio da escrita e da oralidade, é refletido no caso do pronome neutro. “A língua é uma forma de empoderamento, de representatividade. Com o desenvolvimento do pronome neutro há uma forma de essas pessoas terem visibilidade. E deu certo. É importante reconhecer não como norma, mas como variante”, destacou.

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As transformações na língua portuguesa não é um fenômeno recente. Historicamente, algumas alterações significativas mudaram a forma de falar e de escrever, como é o caso da evolução de “vosmecê” até chegar ao “você”, que conhecemos hoje, lembra Gibson. Com a internet, outras variações também são usadas como o “vc” e, até mesmo, o “cê”, conforme falado em algumas regiões do Brasil. Para Bruno, essas transformações são naturais dentro de um contexto linguístico.

“O impacto disso é a rapidez. A gente ganha tempo, consegue escrever com menos palavras e passar a mesma informação. É também uma evolução histórica. A língua evolui e essa evolução, de acordo com o internetês, é a diminuição de letras. Tem impactos negativos e positivos. Mas muito mais positivos”, afirmou o professor, relacionando às mudanças trazidas pela internet.

Generalização

Por outro lado, o professor Marcos Neto, de Belém, defende que a língua garante outras formas de se referir a pessoas não binárias. Segundo ele, o pronome neutro não seria adequado “porque na própria linguagem já existe uma generalização para todos os gêneros”. “Quando eu me refiro ‘todos’, abrange diversos públicos, de modo geral. E quando falo ‘todes’ é um aspecto de neologismo. Gramaticalmente, ‘todos’ já abrange, indiferentemente, de gênero, ordem e classe”, explicou Marcos.

Marcos pontua que, de um ponto de vista linguístico, o pronome neutro pode não vir a ser inserido na norma culta. “Os principais desafios que norteiam o pronome neutro é esse entendimento: até onde eu posso usá-lo? O uso do pronome neutro é válido, mas que esteja no âmbito oral, e não atrelado ao uso em uma redação, por exemplo, porque a norma padrão já compete todos os aspectos necessários para a construção sintática de uma língua”, pontuou o professor.

Debate

Nas ruas de Belém, há quem seja contra e a favor do pronome neutro. A estudante de medicina Lourena Araújo comenta que o uso do pronome neutro é uma forma de respeito com quem opta por ser tratado dessa forma. “Se tem uma pessoa que quer ser denominada dessa maneira, não vejo porque não usar com aquela pessoa. Não acho que isso deveria ser uma regra. Já linguisticamente eu teria que ter um estudo pra dizer se é correto ou incorreto”, comentou Lourena.

image Lourena Araújo, estudante de medicina, defende a necessidade do uso do pronome neutro (Thiago Gomes / O Liberal)

O estudante de psicologia Joás Venâncio também enxerga a necessidade e a adoção do uso da linguagem neutra. Segundo ele, é importante o debate em escolas e faculdades acerca do tema. O estudante comenta, ainda, que pretende aprender mais sobre o assunto. “As pessoas ouvem falar sobre e pensam que é como se fosse meme ou algo engraçado, mas não é. É como alguns gêneros se identificam. Então, acho importante debater, de forma social e de forma linguística e técnica", avaliou Joás.

image Para o estudante Joás Venâncio, o debate acerca do pronome neutro é importante (Thiago Gomes / O Liberal)

Já o porteiro Neilson Souza, 48 anos, não concorda com o uso do pronome neutro. “Não sou muito a favor. Na verdade, acho que isso não existia. Colocaram agora e acho que não faz parte porque durante muito tempo a gente estudou e nunca houve isso aí", comentou. Neilson cita que é favor apenas dos pronomes que já são enquadrados na língua portuguesa, atualmente.

image Neilson Souza se diz contra o uso do pronome neutro (Thiago Gomes / O Liberal)

Principais mudanças na língua portuguesa

  • “Vosmecê” passou a ser “você”
  • Supressão de acentos diferenciais em palavras que tem letras repetidas (vôo passou a ser voo)
  • Acordo ortográfico remove o uso do trema
  • Historicamente, pharmácia se tornou farmácia, em uma variação linguística histórica
  • As letras w, k e y passam a fazer parte do alfabeto

(Gabriel Pires, estagiário, sob a supervisão de Victor Furtado, coordenador do Núcleo de Atualidades)

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