Infestação de ‘erva-de-passarinho’ preocupa moradores e ameaça arborização histórica de Belém
Pesquisador da Ufra, Cândido Neto explica que parasita compromete nutrição das árvores, provoca secamento de galhos e pode causar acidentes durante chuvas e ventanias
A presença da chamada “erva-de-passarinho” em árvores de Belém tem preocupado moradores, ambientalistas e especialistas devido ao avanço da planta parasita em diversas áreas da capital paraense. Facilmente identificada pelas folhas do parasita e hospedeiro e tufos verdes sobre as copas das árvores, a espécie se espalha principalmente por meio de aves e compromete o desenvolvimento das plantas hospedeiras.
A identificação da infestação pode ser feita visualmente. “Você olha e consegue ver a planta, a parte foliar. A gente verifica a diferenciação entre essa folha e as outras da árvore. Principalmente esses tufos formados, esse grande bolo de plantas que se diferencia foliarmente da planta original”, ainda segundo o professor Cândido Neto, da Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra).
Em avenidas históricas e bairros arborizados de Belém, como Nazaré, Batista Campos, Umarizal e Marco, é possível encontrar árvores tomadas pela erva parasita, muitas delas já com galhos secos, risco de queda e perda gradual da cobertura vegetal urbana. A situação levanta o debate sobre a necessidade de manutenção preventiva, poda adequada e acompanhamento técnico da arborização da cidade.
Especialistas alertam que, sem manejo correto, a erva-de-passarinho pode acelerar o adoecimento das árvores, afetando sombra, conforto térmico e segurança da população, especialmente durante o período chuvoso e de ventanias. Além disso, a falta de manutenção pode contribuir para quedas de galhos sobre veículos, calçadas e fiações elétricas.
Belém é conhecida nacionalmente pela arborização urbana e pelas mangueiras espalhadas pela cidade. No entanto, moradores reclamam da ausência de podas regulares e da demora na retirada de galhos comprometidos. Também em doutor em Ciências Agrárias e pesquisador, Cândido Neto, da Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra), explicou os impactos causados pela erva-de-passarinho nas árvores urbanas. “A erva-de-passarinho causa um dano nutricional e hídrico dentro da planta. As raízes penetram o tronco da árvore e retiram a seiva bruta, que são a água e os nutrientes da planta. Então, ao passar do tempo e o aumento da infestação dessa erva na planta, vai causar o secamento dos troncos, risco de queda desses troncos e até a morte da planta”, afirmou.
Segundo o especialista, o tempo para que uma árvore apresente risco de queda depende do nível de infestação e da espécie atingida. “O ideal é que essas árvores sejam observadas anualmente. Quando se verifica o início da infestação, o ideal é fazer logo a retirada de forma manual. Quando ela está muito infestada, como é esse caso aqui atrás, já é necessário fazer a poda e retirar os galhos secos para evitar quedas”, explicou ele, que também tem especialização internacional em arborização urbana.
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Manutenção deve ocorrer pelo menos duas vezes por ano, diz professor
Ele também destacou que a manutenção das árvores com erva-de-passarinho deve ocorrer pelo menos duas vezes ao ano. Embora seja muito observada em mangueiras, a infestação não ocorre apenas nessa espécie. “Você encontra em castanhola, jambeiro e mangueira, entre outras. Aqui, na nossa região, a gente vê muito nas mangueiras em função da grande quantidade dessa planta e porque os pássaros são atraídos por ela, já que tem grande porte e frutos”, afirmou.
Segundo ele, os pássaros são os principais agentes de propagação da erva-de-passarinho. “Os pássaros são os principais transportadores das sementes. Eles retiram essa semente e levam para outras árvores, depositando nelas. A semente germina e a planta se desenvolve”, explicou. O professor disse ainda que a planta parasita compete diretamente com a árvore hospedeira. “Ela retira água e nutrientes do solo e compete também por luz. A erva cobre as outras folhas e diminui a fotossíntese. Muitas mangueiras atacadas por grande quantidade de erva-de-passarinho apresentam redução na produção de frutos”, ressaltou.
De acordo com o especialista, o manejo é complexo e envolve uma série de etapas. “É um dos principais problemas da arborização urbana. Muitas vezes é necessário fechar ruas, interromper a rede elétrica, utilizar equipes especializadas para subir nas árvores, fazer a retirada manual e transportar o material retirado de forma correta”, explicou.
Cândido Neto informou que a Ufra desenvolve, em parceria com a Secretaria Municipal de Meio Ambiente, o projeto “Semente do Amanhã, Belém Mais Verde”, iniciado em 2022. O trabalho realiza o levantamento da quantidade e qualidade das árvores nos bairros da capital. Segundo ele, bairros como Marco, Nazaré, Batista Campos, Reduto, Terra Firme e Fátima já passaram por levantamento florístico. “A gente verifica planta com risco de queda, galho secando e outros problemas. Quando encontramos árvores em estado severo, encaminhamos relatórios para a Secretaria do Meio Ambiente, que realiza as retiradas dentro das possibilidades”, afirmou.
Moradora desconhecia riscos da ‘erva-de-passarinho’
O professor ressaltou ainda que, apesar de Belém possuir grande quantidade de árvores urbanas, o controle da erva-de-passarinho é considerado difícil. “Tem casos em que a retirada precisa ser manual e acompanhada de poda. Se não retirar, em seis meses, oito meses ou um ano, dependendo da infestação, o galho pode secar completamente e cair, provocando acidentes”, alertou. Ele destacou que galhos comprometidos podem atingir veículos e pedestres. “O galho seco fica totalmente fragilizado. Dependendo da árvore, ele pode quebrar na base e ocasionar acidentes”, concluiu.
A aposentada Carmen Lima, de 69 anos, moradora da travessa Mauriti, em Belém, relatou preocupação após descobrir os riscos causados pela presença da chamada “erva-de-passarinho” em uma árvore localizada em frente à casa dela. Segundo a moradora, ela não tinha conhecimento sobre os perigos provocados pela planta parasita até receber explicações de um professor que esteve no local - o que ocorreu, na manhã desta terça-feira (19), com a presença do professor Cândido Neto.
“Não sabia. O professor estava explicando que isso pode até causar queda da árvore”, contou dona Carmen. Ela afirmou que imaginava que as podas realizadas na área ocorriam apenas por causa da proximidade dos fios elétricos. “Inclusive, eu pensei que eles podavam só por causa do fio, não por causa disso aí”, disse. A moradora também afirmou que desconhecia o risco de acidentes envolvendo a queda da árvore. “Também não sabia que causava isso, de a árvore cair em cima até da casa ou em cima de alguma pessoa, né? Porque é um perigo, né? As pessoas que passam pra lá e pra cá e cair por cima de crianças”, alertou.
Ainda segundo dona Carmen, a última poda realizada na árvore ocorreu há bastante tempo. “Faz tempo. Olha como está tudo assim grande”, comentou, ao mostrar os galhos e a vegetação crescida ao redor da fiação elétrica. Ela defendeu que o serviço de manutenção seja realizado com maior frequência. “Eles cortaram, mas faz tempo. Aí não vieram mais e já cresceu”, relatou. Moradora da região desde os 10 anos de idade, dona Carmen acompanha há décadas a arborização da área e teme que a falta de manutenção possa provocar acidentes.
Em nota, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semma) informou que "está com um inventário arbóreo detalhado por bairros como parte das ações de monitoramento e combate à infestação de ervas-de-passarinho". "Este levantamento, que mapeia a situação das árvores na capital, já foi concluído nas áreas do Marco, Fátima, Nazaré, Batista Campos, Reduto e Terra Firme, e os documentos serão encaminhados para a Secretaria Municipal de Zeladoria e Conservação Urbana (Sezel), pasta atualmente responsável pela manutenção e poda no município", diz o comunicado.
"Além disso, as ações de podas e manutenções preventivas em bairros históricos e de grande circulação, como Nazaré, Batista Campos, Umarizal e Marco, são realizadas semanalmente. Para ampliar o atendimento e evitar o risco de quedas de galhos, o município organiza equipes para atuar nos grandes corredores da capital, com serviços executados no período noturno para evitar transtornos no trânsito", conclui a Semma.
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