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Garças, pombos e urubus expõem contraste entre beleza natural e riscos à saúde nas praças de Belém

Frequentadores relatam transtornos com fezes e sugerem medidas para reduzir impactos na Praça Batista Campos

Dilson Pimentel
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A convivência entre moradores e aves em espaços públicos de Belém tem revelado um cenário marcado por contrastes. Em praças da capital, como a tradicional Praça Batista Campos, a presença de garças, pombos e urubus chama a atenção tanto pela proximidade com a natureza quanto pelos problemas gerados pelo acúmulo de sujeira e possíveis riscos à saúde. Em locais com grande circulação de pessoas e oferta de alimentos, a concentração dessas aves se intensifica.

O acúmulo de fezes em bancos, calçadas e veículos afeta não apenas a estética dos espaços, mas também a qualidade de vida da população e o meio ambiente, além de representar um desafio para o poder público no controle da situação.

O engenheiro civil Alysson Sousa, de 35 anos, frequenta a praça Batista Campos com a família e reconhece a dualidade do problema. “A gente também gosta, porque é a natureza. Tenho uma filha pequena, a Olívia, de dois anos e meio, que acaba gostando dos bichinhos. Porém, é notório que a gente tem problemas com relação à circulação de pessoas. Por baixo das árvores onde eles pousam, acabam caindo as fezes”, contou.

Segundo ele, além do incômodo para pedestres, os veículos também são afetados. “No espaço que faz o estacionamento dos carros, acaba criando uma sujeira muito nociva para os veículos”, afirmou. Para evitar transtornos, Alysson disse que adota medidas simples no dia a dia. “Basicamente evitar circular por baixo das árvores e evitar estacionar embaixo dessas mesmas árvores”, explicou. Ainda assim, situações inesperadas acontecem. “Já aconteceu de cair fezes. Minha esposa, Camila, por exemplo, quando ela estava grávida, foi atingida e a gente teve que ir embora, abortar o passeio para poder limpar”, contou.

Apesar de não apontar soluções definitivas, ele sugeriu alternativas. “Talvez uma passarela coberta nos corredores da praça, embaixo dessas árvores, manutenção de limpeza e orientação com placas sinalizando sobre o risco”, opinou. A realidade também impacta diretamente quem trabalha no local. O lavador de carros Nazareno Silva da Silva, que completou 51 anos nesta terça-feira (21) e atua há 37 anos na área, relata prejuízos causados pelas aves. “Quando a garça dá aquela ‘gorfada’, fica tudo manchado o carro. Se não limpar logo, o carro fica todo manchado. É ácido”, explicou.

Segundo ele, a limpeza precisa ser imediata para evitar danos maiores. “Tem que limpar logo, com água, sabão líquido e cera. Se não, dá mais trabalho depois”, afirmou. Em dias de maior movimento, especialmente durante missas, ele chega a limpar entre nove e onze carros atingidos. Nazareno também demonstra preocupação com a saúde. “Evito passar por baixo. Isso é uma doença que dá. Se a pessoa não se cuidar logo, já era. Todo cuidado é pouco”, alertou. Na manhã desta terça-feira havia uma garça morta na calçada da praça, pela avenida Serzedelo Correa.

image Engenheiro civil Alysson Sousa: “A gente também gosta, porque é a natureza. Porém, é notório que a gente tem problemas com relação à circulação de pessoas" (Foto: Ivan Duarte | O Liberal)

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“É uma tradição, mas a gente está correndo risco”, diz vendedora de coco

Para Adriana Freitas, de 44 anos, que trabalha em uma barraca de coco na praça, a situação se agravou ao longo dos anos. Ela atribuiu o aumento das aves a uma intervenção antiga. “A ideia da prefeitura, há muito tempo, foi trazer as garças para embelezar a praça. Mas não imaginavam que ia acontecer esse desequilíbrio aqui. Achavam que ficaria legal a convivência de um animal silvestre com ser humano”, disse. “Só que elas se proliferaram de uma forma tão grande que o desequilíbrio só fez piorar”, afirmou.

De acordo com Adriana, a presença das garças acabou atraindo outros animais. “Não só trouxe elas, como trouxe urubus e pombos. E eles acabam se alimentando de outros animais, como ratos, que transmitem doença”, contou. Ela descreveu ainda episódios que evidenciam os riscos. “Anteontem, eu vinha de moto para o trabalho e caiu fezes na minha cara. Fiquei desesperada, porque sei que isso transmite doença. Saí correndo e joguei álcool no rosto”, contou ela, que fez um vídeo dessa situação.

Diante do cenário, a comerciante cobra providências das autoridades. “Peço socorro da prefeitura. Tem que trazer um biólogo, estudar a situação e pensar no remanejamento dessas aves ou na retirada dos ninhos para diminuir a quantidade”, sugere. Ela também destaca a preocupação com crianças que frequentam o local. “Muitas crianças continuam vindo ao parquinho. É uma tradição, mas a gente está correndo risco. Isso é questão de saúde”, enfatiza.

image O lavador de carros Nazareno Silva da Silva relata prejuízos causados pelas aves. “Quando a garça dá aquela ‘gorfada’, fica manchado o carro. Tem que limpar logo. É ácido”, disse (Foto: Ivan Duarte | O Liberal)

“O risco existe, mas não está na ave em si”, diz infectologista

O médico infectologista Lourival Marsola comentou o assunto. Sobre os riscos à saúde associados ao contato com fezes de aves em ambientes urbanos, ele respondeu o seguinte: “O risco existe, mas ele não está na ave em si. O problema começa quando há acúmulo de fezes no ambiente, principalmente quando isso seca e vira poeira (com aerossóis)”, disse. “É essa poeira que pode ser inalada, pois ela contém aerossóis que são partículas pequenas demais com a presença de vários microrganismos incluindo fungos. Isso sim pode trazer algum risco. Passar por uma praça com aves não vai fazer ninguém adoecer. O que preocupa é quando o local está visivelmente sujo, sem manutenção, com fezes acumuladas por muito tempo”, afirmou.

As principais doenças relacionadas a esse cenário são infecções por fungos, como a criptococose e, com menos frequência, a histoplasmose. “E é importante deixar claro: não é a ave que ‘transmite’ diretamente. A pessoa não pega isso encostando no animal. A transmissão acontece quando se inala partículas do ambiente contaminado, geralmente de fezes secas que se misturam à poeira. É uma exposição mais ambiental do que um contato direto”, disse.

O médico infectologista Lourival Marsola disse ainda que a presença das aves, por si só, não é problema. “Elas fazem parte da cidade, do ambiente - e diria mais - são necessárias para harmonia da natureza. O risco está muito mais ligado ao estado e manutenção do ambiente”, disse. “Praça limpa, bem cuidada, não costuma trazer preocupação. Agora, quando há acúmulo de fezes, falta de limpeza e abandono, aí sim o cenário muda. Então é muito mais uma questão de manejo urbano do que das aves em si. Aves fazem bem para nosso convívio”, afirmou.

Sobre os cuidados que a população deve adotar ao frequentar praças e espaços públicos onde há grande concentração dessas aves, ele comentou que as pessoas devem evitar áreas muito sujas, não sentar onde tem fezes, lavar as mãos depois - coisas básicas. Também é importante não alimentar essas aves, porque isso aumenta a quantidade delas no mesmo lugar, principalmente, hábitos que observamos com frequência de alimentar pombos. “E, se for fazer limpeza, o ideal é não varrer a seco, para não levantar poeira. São cuidados simples, mas que fazem diferença. E, se o ambiente estiver visivelmente sujo e sem manutenção, prefira não frequentar. E, se for necessário, tipo vendedora locais, utilize uma máscara adequada como a N95”, disse.

Crianças, idosos ou pessoas com imunidade baixa correm mais risco nesse tipo de exposição. “Sim, são os que têm mais risco e que merecem um pouco mais de atenção. Pessoas com imunidade mais baixa, idosos e crianças pequenas têm uma capacidade menor de lidar com esse tipo de microrganismo”, disse. “Enquanto uma pessoa saudável muitas vezes nem percebe a exposição, nesses grupos o risco de evoluir para algo mais sério é maior. Não é motivo para pânico, mas é motivo para cuidado”, afirmou Lourival Marsola.

image Adriana Freitas disse que a situação se agravou ao longo dos anos. “A ideia da prefeitura, há muito tempo, foi trazer as garças para embelezar a praça. Mas não imaginavam que ia acontecer esse desequilíbrio aqui", disse (Foto: Ivan Duarte | O Liberal)

Ações da prefeitura

A Prefeitura de Belém, por meio da Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semma), informou que os animais sob sua responsabilidade são os de cativeiro e não os que vivem livres, como as garças. A Prefeitura informou ainda que, por meio da Secretaria Municipal de Zeladoria e Conservação Urbana (Sezel), realiza limpezas diárias em praças, como a da Batista Campos, prevenindo o risco de possíveis contaminações por meio das fezes de animais.

 

 

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