Artistas da Região Metropolitana relatam desafios e oportunidades na cena musical de Belém
Com trabalhos ligados ao rock, carimbó urbano e forró, Gabriel Silveira, Íris da Selva e Bruno Mescouto revelam múltiplas cenas na capital paraense
Belém comemora 410 anos, na próxima segunda-feira (12), como uma cidade construída por muitos territórios. Na música, essa diversidade se revela na relação de artistas da Região Metropolitana com a capital, vista ora como casa, ora como vitrine, mas sempre como um espaço que provoca criação para distritos e municípios vizinhos. Nesse contexto de circulação e pertencimento, o cantor, compositor e produtor musical Gabriel Silveira, do município de Ananindeua, tem na capital uma referência constante em sua trajetória artística. “Belém é sempre a primeira referência que levo comigo quando estou fora”, afirmou.
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Essa relação do artista com o território se reflete no álbum ‘Origem’, lançado em 2025 nas plataformas digitais. Gabriel define o trabalho como o mais regional de sua carreira até agora. “Nele, reuni poetas, compositores, parceiros, cantores e cantoras da nossa região, criando um projeto que atravessa diversas linguagens artísticas, mas que comunica a essência de um único lugar”, relembrou. No disco, o artista mescla o rock paraense, que faz parte de sua formação musical, com referências das culturas populares amazônicas.
O deslocamento constante entre Ananindeua e Belém também se tornou matéria-prima para sua criação. Gabriel conta que já produziu músicas que tratam diretamente dessa vivência, como “De Rolê”, “Outro Novo Lugar”, do álbum Origem, e “O Viajante”.
“Tenho muito orgulho de morar em Ananindeua e sei que aqui existem inúmeros artistas extremamente potentes. O que ainda precisamos é de mais oportunidades reais para mostrar nossos talentos, nossas vozes e nossas culturas”, ressaltou.
Desafios
Do distrito de Icoaraci, o cantor e compositor trans não-binário Íris da Selva constrói sua trajetória a partir do carimbó urbano, ritmo que marca sua identidade musical. Ao se apresentar nos palcos da capital, o artista destaca a importância de afirmar sua origem e de mostrar que a música feita nos distritos também ocupa espaço na cena cultural de Belém.
“Ainda existe uma diferença no tratamento entre o carimbó que nasce nos bairros e distritos e aquele que chega aos palcos do centro. Muitas vezes ele é visto só como tradição ou folclore, mas quando ocupa certos espaços passa a ser reconhecido como arte e cultura, com investimento e visibilidade”, afirmou.
Íris também apontou desafios práticos enfrentados por quem circula entre Icoaraci e a capital. Entre eles estão o deslocamento, os custos e o tempo necessários para acessar os espaços culturais de Belém, além das expectativas que recaem sobre artistas da periferia.
“Muitas vezes esperam que o artista da periferia represente só um lugar fixo, uma tradição engessada, e o meu trabalho é justamente um carimbó em movimento, que dialoga com a cidade, com a música urbana, com a canção, com o presente, com questões de gênero”, disse.
Outro desafio citado é o acesso à estrutura cultural. Para Íris, estúdios, palcos, editais, redes de circulação e curadorias ainda são mais acessíveis para quem já está nos centros culturais da cidade. O artista ressalta que ouvir e valorizar os sons que vêm dos distritos e da Região Metropolitana é fundamental para fortalecer a cultura local. “A importância está em cuidar daquilo que vem da nossa própria expressividade e em entender que somos potências, sem precisar de reconhecimento de fora para ter valor dentro do nosso território”, afirmou.
Vitrine
Já o cantor de forró Bruno Mescouto, de Castanhal, vê Belém como uma vitrine importante para artistas de todas as regiões. Com passagens anteriores pelo cenário musical da capital, ele lembra que já se apresentou em diversas casas de show e também atuou em uma produtora sediada na capital até 2024, experiência que contribuiu para fortalecer sua rede de contatos profissionais.
Atualmente, o cantor avalia que o cenário cultural belenense apresenta mais possibilidades de circulação. “Acredito que Belém seja, sim, uma vitrine, um ponto de encontro e também um grande desafio”, afirmou.
Ao mesmo tempo, o cantor aponta desafios enfrentados por quem vive fora da capital, mesmo dentro da Região Metropolitana. “Para quem mora em Castanhal, Belém traz desafios reais, a começar pela distância”, disse, citando ainda questões relacionadas aos valores de cachê, à logística da banda e à importância de ter contatos no meio musical.
Segundo ele, muitas vezes é necessário montar uma base de músicos em Belém para reduzir custos e viabilizar os shows.
Bruno ressalta que a capital influência diretamente suas escolhas musicais e estéticas. “Belém é uma referência muito forte, principalmente no repertório e na estética musical que eu gosto de trabalhar, que é o forró”, apontou. Um exemplo dessa influência é a regravação do brega ‘Você Me Perdeu (Sal)’, reinterpretado em versão de forró.
“A música paraense tem um ‘molho’ muito particular, que influencia diretamente a forma de tocar, de arranjar e de interpretar”, disse.
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