Gritos, tortura e dor: a história do casarão fantasma de Barcarena

As histórias que os moradores do bairro do Cafezal contam sobre o antigo casarão, onde funcionou uma senzala, são de deixar de cabelo em pé até a mais cética das pessoas.

Igor Wilson
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Sons de correntes sendo arrastadas pelos corredores, sussurros e gritos de dor de quem parece estar sendo torturado e marcas de pegadas. Quando Raimundo Marques era criança, eram essas as histórias que ouvia seu pai contar sobre o casarão da antiga fazenda Cafezal. Raimundo, que é mais conhecido como ‘Zaca’, lembra que estremecia de medo ao ouvir os relatos. Seu pai era caseiro do local nas décadas de 1950 e 1960, quando o lugar já estava desativado. Foram duas décadas trabalhando sozinho no casarão durante noites e noites. O antigo caseiro, que faleceu no ano passado aos 102 anos de idade, foi apenas mais um dos moradores que testemunharam coisas estranhas acontecendo na fazenda que teve sua história ligada aos horrores da escravidão.

As histórias que os moradores do bairro do Cafezal contam sobre o antigo casarão são de deixar de cabelo em pé até a mais cética das pessoas. Mas para começarmos a falar sobre os relatos de moradores das proximidades onde ficava o antigo casarão de 365 janelas, precisamos primeiro contar sua história ligada ao sofrimento de pessoas escravizadas por colonos portugueses. Localizada às margens do rio Cafezal ou Aicaraú, o casarão foi construído no século XVII pelo português Francisco Bernardo da Silva. Na fazenda funcionava um engenho onde vários escravos eram forçados a trabalhar. Após uma longa história, que passa pelo funcionamento de um engenho que teve dois donos, o lugar foi desativado próximo em meados de 1920. Foi a partir desta época que as ‘visagens’ começaram a aparecer.

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image Casarão ficava a beira do rio e foi demolido na década de 1980 (Arquivo)

"Meu pai chegou aqui por volta de 1960, se instalou e começou a trabalhar no casarão como caseiro. segundo meu pai contava, meu pai foi caseiro lá. Eu lembro que ele contava que tinha um lugar onde eram colocados os presos da senzala. Ele dizia que era um porão muito escuro e dali o cara não tinha como sair, ficava andando à deriva e acabava caindo no alçapão, sendo devorado pelos animais. Ele dizia que esse porão tinha uma saída onde os restos mortais do escravo saíam para o rio”, conta seu Zaca, lembrando logo em seguida das visagens vistas pelo pai.

"Ele falava que ouvia gritos vindos de dentro do casarão, ouvia pegadas dentro e fora de lá. Tinha um salão do casarão que era todo feito de madeira, de pau amarelo, madeiras de lei. E lá ele ouvia as pessoas andarem. Andavam de noite, aquela zoada, ele ouvia vários tipos de grito e tinha uma capela onde ele falava que saía um cortejo de visagens diretamente pro cemitério. Esse cemitério foi desativado, mas ainda existe o resto num local chamado Areião. Não foi só meu pai, foram vários trabalhadores de lá que viam e ouviam, moradores que iam, era todo mundo”, conta Zaca.

Os relatos foram passando por gerações. As histórias foram se somando até que uma lenda se formou em torno do casarão. “Desde minha infância ouvi algumas pessoas idosas falarem sobre essa residência em tom de profunda admiração ao descrever a suntuosidade da construção, revelando uma edificação com mais de trezentas janelas e imensos quartos e salas. Embora se tratasse de uma residência bem concreta, eram as produções imaginárias que melhor traduziam a relação dos indivíduos com aquela arquitetura. As narrativas identificavam a existência de sons de correntes sendo arrastados pelos corredores da morada, sussurros de dor e batidos de pegadas entre outros”, diz o professor Luiz Antônio Guimarães, morador de Barcarena e autor do livro ‘De chegadas e partidas’, sobre a imigração portuguesa no Pará.

VISAGENS, PORÃO E O SUMIDOR

Após o abandono do casarão, os moradores começaram a frequentar o local como uma aventura. Os relatos se espalhavam e ir até o casarão era um grande desafio de coragem, pois todos diziam que no porão daquela casa havia um misterioso fosso onde os proprietários da casa resolviam lançar os escravos considerados rebeldes.

“Todos se referiam a este local como o ‘sumidor’, onde um terrível destino era dado aos negros que eram penetrados por lanças pontiagudas que ficavam no fundo do buraco, depois de decompostos, seus restos eram levados pelas águas do rio que tinha comunicação com o referido fosso”, diz Luiz.

image Local hoje é ponto turístico do bairro do Cafezal (Márcia Ferreira)

Os principais contos giram em torno do ‘sumidor’. Muitos moradores começaram a relatar sons de gritos, de correntes sendo arrastadas, choros intermináveis. Para seu Zaca, ainda é possível ouvir coisas ali, mesmo com a demolição do casarão na década de 1980. Não só ele, mas muitos moradores do local dizem ouvir. Para o professor Luiz, o cenário de dor e sofrimento acabou desenvolvendo o imaginário das correntes, sussurros ou lamentos de dor que alguns moradores diziam ouvir ou ouvir dizer pela boca de pessoas idosas.

Para Luiz, é deste cenário de dor e sofrimento, que se desenvolveu o imaginário das correntes, sussurros ou lamentos de dor que alguns moradores diziam ouvir ou ouvir dizer pela boca de pessoas idosas. O certo é que, mal-assombrado ou não, o bairro do Cafezal carrega essa história real ligada a dor e sofrimento da escravidão, como em muitos outros lugares do Brasil.

Pará
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