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Patriarca é venerado por seu respeito às tradições quilombolas

No quilombo de Petimandeua, em Inhangapi, Pai Eli é o mais antigo remanescente da linhagem de fundadores do lugar onde vive

Victor Furtado
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O pai quilombola é uma figura paterna presente. Tem a responsabilidade de repassar disciplina e os valores morais às próximas gerações. É fonte das tradições ancestrais. Precisa aliar o que aprendeu com as as realidades de cada época. Assim é feito por Luiz Colares de Moraes, de 86 anos. Carinhosamente, é chamado de "Pai Eli". Ele é o patriarca mais antigo da linhagem original dos fundadores do quilombo Petimandeua. O povoado fica no município de Inhangapi, a quase 10 quilômetros de Castanhal.

Pai Eli não tem esse nome à toa. A figura paterna dele é reconhecida em todo o quilombo. Já não enxerga mais. Se locomove com dificuldade, com a ajuda de um cajado. A voz agora é rouca, exigindo um esforço extra para se expressar. Mesmo assim, sempre é carinhoso com qualquer um que se aproxime. É sorridente, acolhedor e muito atencioso. Com ele, não falta abraço, conselho e puxão de orelha. Pai não pode ser só dengo. Precisa educar também.

Lembra com admiração e muito respeito do pai, Tomé Colares de Moraes. São Tomé é o santo da família e um dos protetores do quilombo. O sítio onde cresceu, que um dia deixará de herança às próximas gerações, também se chama São Tomé. Era assim desde os tempos do avô dele, que ele não chegou a conhecer, Emiliano Colares. Emiliano e Eudorico Pontes foram os fundadores do Petimandeua. E das tradições que se cristalizaram com o tempo.

Quando criança, Pai Eli estava sempre muito perto do pai. Era o caçula de quatro irmãos e o único ainda vivo. Trabalhou com com Seu Tomé nas roças de arroz, feijão, milho e mandioca. Tinha criação de vários animais. Havia frutas em abundância e diversidade. Com as matas e água preservadas daqueles tempos, havia fartura para caça e pesca. Tudo era adquirido na natureza e preparado em casa. A mandioca virava farinha. O momento das refeições era para reunir a família toda e quem mais estivesse com fome nas redondezas. É assim até hoje.

Já não há mais tantos animais para caçar e pescar. Das plantações próprias, só as frutas restaram. Mas ainda há criação de animais no sítio São Tomé. A casa hoje é muito calma, pois a maior parte da família mora em Castanhal ou pela Região Metropolitana de Belém. Mas aos finais de semana, há reunião da família. As refeições precisam ser fartas e cheias de papo. O silêncio é suspenso. Difícil haver silêncio com sete filhos, 20 netos e 14 bisnetos.

"Antes, a criação era diferente. Era rígida. Não tinha drogas, que estão acabando com os nossos jovens. Filhos não desobedeciam pai e mãe. Não desobedeciam professores. Eu só fui estudar com 10 ou 12 anos. Não lembro. Mas lembro que a minha professora era uma segunda mãe. Escola era uma segunda casa. Educação a gente tinha na nossa casa, na nossa família. Pai quilombola é assim. Ensina a ser uma boa pessoa, bom cidadão. Ensina a ser honesto, direito. E ensina os nossos costumes", diz Pai Eli.

Momento das refeições ainda é usado para reunir toda a família e mais quem esteja com fome pelas redondezas

Entre esses costumes, está o de almoçar em família. Seu Tomé trazia a caça ou os peixes para as refeições do dia. Todo mundo precisava estar esperando. Era um momento sagrado. Pai Eli seguiu essa tradição. Mas já não tinha caça. Ele voltava com as compras, mas fazia questão, igual ao pai dele, de ter todos à mesa. Fosse para o café da manhã, almoço, lanche ou jantar. Era uma desfeita que não ocorresse essa reunião.

image No Dia dos Pais, Luiz diz que deseja apenas uma coisa: a promessa de que os filhos darão a mesma educação e amor aos netos e bisnetos (Igor Mota / O Liberal)

 

 

 

 

 

Quilombo faz dois círios no mês de novembro

Em novembro, duas festividades religiosas movimentam todas as famílias de Petimandeua. No segundo domingo, ocorre o Círio de Nossa Senhora de Nazaré. No dia 20, é o Círio de São Tomé. As duas manifestações são um momento de reunião do povo quilombola de Inhangapi há mais de um século. No entanto, uma das tradições que serão reforçadas para sempre — assim espera Pai Eli — é o contato com o quilombo. Por enquanto, qualquer final de semana, feriado prolongado e data comemorativa é motivo de reunir todos os núcleos familiares.

No Dia dos Pais, Pai Eli é o centro das atenções de Petimandeua. Os filhos e netos organizam um banquete para homenagear o patriarca mais antigo do quilombo. Cada um leva uma comida. O convite se estende à toda a comunidade. A festa acaba reunindo quase 200 pessoas, entre familiares e amigos. A família precisou criar um pequeno salão de festas para dar conta dessa e de outras comemorações, como o Dia das Mães. Aí a homenageada é dona Sebastiana, a inseparável companheira de Pai Eli. Estão juntos há 56 anos.

São esses momentos que rompem o silêncio tranquilo e pacífico do sítio São Tomé. Dentro da casa principal do sítio, que pouco mudou com o passar dos anos, há imagens dos santos e santas de devoção da família. São Tomé é a menor imagem, mas é a mais diferente. É adornada com várias fitas vermelhas. "Ele é pequeno no tamanho, mas grande no poder", diz dona Sebastiana. Pai Eli concorda.

Numa das paredes, num local de destaque, está uma lembrança do primeiro filho que se foi. Raimundo Bento tinha 42 anos quando morreu. Havia voltado a estudar, para terminar o ensino médio. Num trabalho da escola, fez uma pintura que mostrava um homem branco com uma motosserra. Várias árvores cortadas. Era uma crítica ao desmatamento. Nas tradições quilombolas, a floresta precisa estar em pé, viva e preservada. As pessoas precisam conviver com natureza em harmonia. "Por isso eu faço questão de preservar as árvores daqui. De preservar esse espaço. Este sítio foi do meu avô. Deixou para o meu pai, que deixou para mim. E vou deixar para meus filhos, netos e bisnetos. Eu sempre digo para eles cuidarem deste lugar. Que preservem o que significa: a história, as tradições, a cultura do nosso povo. É o orgulho do nosso povo e dessa pele negra que temos", diz Pai Eli.

E acrescenta: de Dia dos Pais, quer a promessa de que os filhos darão a mesma educação e amor aos netos e bisnetos. Assim, as próximas gerações manterão a memória viva do quilombo Petimandeua. Na preservação das tradições, estimula que as próximas gerações se interessem pelas profissões tradicionais. Em Petimandeua, alguns ofícios ancestrais ainda existem. Erveiras, massagistas puxadores, rezadores, benzedeiras.

Algumas coisas evoluíram devagar no quilombo. A água encanada só chegou há 20 anos. A energia elétrica veio há cerca de 18 anos. Para dona Sebastiana, a principal avaliadora do desempenho de Pai Eli como figura paterna, um pai quilombola acaba sendo mais presente que um pai urbano. Isso porque as profissões tradicionais do quilombo costumam ter cargas horárias que permitem presença em casa. Assim, os pais convivem com os filhos e com a educação moral e cultural.

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