Introdução do pirarucu em outro habitat pode ter consequências terríveis, diz especialista

Para pesquisador, a hipótese mais aceita é de que o animal que foi encontrado na Malásia tenha sido criado em cativeiro desde filhote após ter sido traficado do Brasil

João Paulo Jussara

Depois que um pirarucu, peixe nativo da Amazônia, foi encontrado em um lago da Malásia, na última quarta-feira (7), várias teorias surgiram sobre o motivo pelo qual uma das maiores espécies de água doce do planeta estava a mais de 17 mil quilômetros de seu habitat natural. Para os especialistas, não há dúvida: o animal foi introduzido naquele ambiente pela atividade humana. E as consequências podem ser terríveis para toda a fauna daquela região.

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Naquela tarde, frequentadores do Tun Fuad Stephens Park, localizado na capital do estado de Sabá, Kota Kinabal, ficaram assustados. Eles não estavam acostumados a ver um peixe daquele tamanho nadando pelas águas do lago Tun Fu Stephens. Exótico, o animal chamou a atenção de um atleta que corria às margens do lago, e acabou o golpeando até a morte. Rapidamente, a notícia se espalhou pelo mundo, e as teorias começaram a surgir.

Alguns internautas sugeriram a possibilidade de migração da espécie. Para o pesquisador do museu Emílio Goeldi, ictiólogo e especialista em sistemática e conservação de peixes amazônicos, Alberto Akama, trata-se de uma ideia absurda. Por ser uma espécie de água doce, seria impossível fazer a migração até um rio de um país tão distante, já que o pirarucu é nativo da Amazônia. "Não tem como um peixe se deslocar da Amazônia até lá", garantiu.

Nativo da Amazônia e de água doce, pirarucu não poderia ter migrado para tão longe (Lorena e Silva Monte de Almeida)

Outra teoria, levantada também por internautas, sugere que o forte calor da região amazônica provocou uma evaporação intensa, e já que a fecundação dos peixes acontece na água, alguns óvulos fecundados podem ter subido até as nuvens por evaporação, viajando até a Malásia e caindo nos rios malaios já em forma de alevinos. "Também é impossível", revelou o estudioso. "Temos casos de transporte de ovos por aves, mas é algo raríssimo".

Oficialmente, as autoridades malaias acreditam que o peixe foi criado desde filhote, e por crescer demais, foi solto no lago. Para o pesquisador Alberto Akama, essa é a teoria mais aceita. Ele lembra que é muito comum que pessoas comprem um peixe ainda pequeno para criar em aquários, mas após notarem um crescimento indesejado, acabam soltando em outros locais. Outra possibilidade, menos provável, é de que o animal fazia parte de uma piscicultura e acabou escapando.

Em alguns países orientais, como a Tailândia, por exemplo, é muito comum haver a produção e o cultivo de pisciculturas, e muitas espécies exclusivas de outras regiões acabam chegando lá de maneira ilegal, pontuou o especialista. De lá, acontece o tráfico para outros países, e esses peixes acabam sendo comercializados normalmente. No caso do pirarucu, todas as partes podem ser aproveitadas. A carne é saborosa, a língua pode ser usada em artesanato, o couro em acessórios e as escamas podem virar lixas de unha. Ameaçado de extinção, o pirarucu só pode ser comercializado se tiver sido pescado em área de manejo autorizada pelo Ibama.

Este tipo de ação humana pode acarretar em um grande desequilíbrio ambiental, ressaltou o pesquisador. O caso do pirarucu encontrado na Malásia é mais grave ainda, já que trata-se de um animal enorme, que pode chegar aos três metros e 200 quilos, não possui predadores e se alimenta de outros peixes. Além disso, uma ova de pirarucu tem cerca de 200 mil ovócitos, então a reprodução dessa espécie acontece de maneira rápida e intensa. "Se não houver um controle, ele pode se tornar uma praga e fazer um estrago violento na fauna local", explicou.

Alberto ressaltou que fazer a introdução de qualquer espécie em outro habitat é crime no Brasil, assim como caçar, exportar, capturar e comercializar qualquer espécime da fauna silvestre. Ele acredita que a fiscalização de todas as fronteiras que o Brasil faz com outros países é algo muito difícil de ser feito, e portanto é necessário que o poder público invista mais em campanhas de conscientização para que esse tipo de crime não volte a ocorrer. "As leis são duras, você não pode introduzir nada. A história dessas introduções errôneas vem provando que sempre traz malefícios, então o que a gente precisa é ter consciência disso. Trabalhar mais a questão da consciência ambiental", concluiu o especialista.

Pará
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