Cuidado com as praias deve seguir durante e depois do verão; entenda a importância de preservar

Até mesmo materiais orgânicos, como restos de alimentos, podem sujar e prejudicar os ambientes

Ayla Ferreira
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No Pará, onde há grande presença de rios e ambientes de água doce, realizar o descarte irregular de lixo nas praias e balneários pode comprometer diretamente a qualidade da água, o que afeta espécies típicas da região e prejudica a fauna e a flora. Já nos mares, o impacto é visto principalmente sobre a vida marinha, com o risco de formação de áreas de concentração de lixo no oceano e outros problemas. Por isso, a população deve manter os cuidados com o meio ambiente antes, durante e depois do verão, para evitar desequilíbrios nos ecossistemas.

Segundo Franciane Veloso, professora do Instituto Federal do Pará (IFPA) Campus Belém e Líder do Núcleo de Pesquisa em Saneamento Ambiental (NUPESA/IFPA), o lixo e a poluição impactam águas doces e salgadas de formas diferentes. “Nos rios e em outros ambientes de água doce, o descarte de lixo pode comprometer uma fonte que, após tratamento, pode ser utilizada para consumo humano. Além disso, os resíduos podem contribuir para o assoreamento e para a degradação do rio, afetando sua continuidade como fonte de água potável”, explica.

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Já nas águas salgadas, o impacto ocorre principalmente sobre a vida marinha. As correntes e as marés transportam os resíduos e podem formar áreas de concentração de lixo no oceano. Alguns animais, como as tartarugas, podem confundir o plástico com alimentos, o que pode provocar engasgos e até mesmo morte.

Ao descartar lixo nos ambientes, os espaços podem acabar perdendo a função de lazer. O ambiente fica poluído, a fauna e a flora são prejudicadas e o local deixa de ser adequado para a permanência das pessoas. Com isso, comerciantes podem ter prejuízos, o que pode refletir na economia local. 

“O descarte inadequado pode trazer riscos à saúde e à segurança das pessoas, com a presença de microrganismos e vetores causadores de doenças, além de possíveis impactos na cadeia alimentar. Outro problema é o risco de acidentes com materiais cortantes, como vidros quebrados. Crianças e outras pessoas podem não perceber esses resíduos, pisar neles, sofrer cortes e até desenvolver infecções”, alerta Franciane Veloso.

Cuidados

Durante o processo de decomposição, o plástico que é descartado pode se fragmentar em partículas muito pequenas, que são ingeridas por animais e outros organismos aquáticos. Essas partículas, conhecidas como microplásticos, entram na cadeia alimentar e passam de um organismo para outro.

A professora explica que existem casos de enredamento, quando aves e animais marinhos ficam presos em linhas de pesca e outros resíduos. “Isso pode causar ferimentos, perda de membros e dificuldade para se alimentar. Na flora, o acúmulo de resíduos pode prejudicar o crescimento das plantas localizadas próximas às faixas de praia e nas áreas de vegetação ribeirinha. Além disso, o lixo também pode alterar as características do próprio solo”, alerta.

E como a população pode cuidar das praias e balneários e evitar as consequências? 

Segundo a professora do IFPA, a educação e a adoção de boas práticas são fundamentais, Todo lixo produzido deve ser descartado em local adequado, sendo ideal levar um saco para guardar os resíduos, fechá-lo e levá-lo até a própria casa ou um local onde haja coleta.

Um hábito comum é jogar restos de alimentos na praia, com a crença popular de que não prejudicam tanto quanto os plásticos. Por isso, Franciane reforça: não se deve deixar nenhum tipo de resíduo na praia, nem mesmo materiais orgânicos. “Cascas de camarão, por exemplo, também sujam, contaminam e prejudicam o ambiente”, afirma.

Outra orientação é reduzir o uso de plásticos descartáveis e adotar recipientes reutilizáveis, como garrafas e copos. Também é importante separar os resíduos recicláveis e, sempre que possível, começar pela separação entre resíduos orgânicos e secos. Bitucas de cigarro, embalagens, latas, garrafas e restos de alimentos nunca devem ser jogados na areia ou na água.

A fauna e a flora do local também devem ser respeitadas. Não se deve retirar plantas, alimentar animais silvestres ou interferir em seus habitats. Também é importante evitar fogueiras e não deixar brasas ou carvão na areia, pois isso pode causar acidentes e danos ambientais.

“As necessidades fisiológicas devem ser feitas apenas em banheiros adequados. Quando houver banheiro químico ou banheiro disponível nas barracas, ele deve ser utilizado. Não se deve fazer necessidades na água nem na areia, pois isso também causa contaminação”, acrescenta Franciane.

Sustentabilidade e cidadania caminham juntas

Organizado pela Defensoria Pública do Estado do Pará (DPE-PA), o Projeto Julho Verde vem realizando ações de cidadania e educação ambiental nos distritos de Outeiro e Mosqueiro ao longo do mês. A programação inclui ações do Balcão de Direitos, com oferta de serviços gratuitos à população, e caminhadas ecológicas voltadas à conscientização sobre a preservação das praias durante o período de férias escolares e veraneio, quando há um aumento significativo no fluxo de visitantes.

Para Graziela Caponi, defensora pública atuante no Núcleo Metropolitano de Mosqueiro da DPE-PA, a sustentabilidade é chave para a garantia e exercício de direitos fundamentais, como saúde, lazer e dignidade. “A proteção ambiental faz parte da cidadania. O Projeto Julho Verde integra serviços jurídicos com educação ambiental, reforçando que ser cidadão também é cuidar dos bens coletivos”, diz.

Para a defensora, as praias são mais que locais de lazer e turismo, integrando o patrimônio natural e sendo também espaços de cultura, conjugando a transmissão de saberes, memória, para além de existirem enquanto fonte de trabalho e renda. São essenciais também ao modo de ser e existir da população.

“A conscientização é essencial, pois o cuidado com as praias exige responsabilidade compartilhada. O poder público deve garantir políticas de limpeza e fiscalização, enquanto a população precisa adotar práticas responsáveis, protegendo estes espaços para gerações atuais e futuras”, afirma Graziela. 

Ações educativas sobre descarte de resíduos e preservação foram realizadas no último sábado (25), na Praia do Paraíso, em Mosqueiro, marcando o encerramento do projeto Julho Verde. “O principal objetivo é que a mensagem do projeto permaneça e ecoe ao longo dos anos, promovendo cooperação entre instituições e comunidade. A preservação deve ser contínua, formando uma consciência real e uma cultura de preservação, não limitada a campanhas sazonais”, afirma a defensora.

*Ayla Ferreira, estagiária de Jornalismo, sob supervisão de João Thiago Dias, coordenador do Núcleo de Atualidades

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