Apesar da morte de jovem paraense, Ministério da Saúde diz que raiva está sob controle no Brasil
Em 2026, a pasta deverá solicitar à OMS a certificação do País como área livre das variantes caninas da raiva
Neste ano, o Ministério da Saúde deverá solicitar à Organização Mundial da Saúde (OMS) a certificação do Brasil como área livre das variantes caninas da raiva (AgV1 e AgV2). A pasta reforça que a doença segue sob controle no país e que não há aumento de casos em âmbito nacional. A informação é do Ministério da Saúde. Há poucos dias, o paraense Matheus Santa Rosa dos Santos, de 24 anos, natural de São Caetano de Odivelas, o que reacendeu o alerta sobre a raiva humana no Brasil.
No ano passado, segundo o Ministério da Saúde, houve 13 casos em cães e quatro casos humanos (todos por variante silvestre). Matheus morreu após contrair raiva humana na região de Oiapoque, no Amapá. A Secretaria de Estado de Saúde do Amapá (Sesa) informou que ele foi atacado por um macaco enquanto pescava no Cabo Orange, área de manguezal no extremo norte do estado. Dias depois do ataque, o jovem apresentou sintomas de encefalite viral e precisou ser transferido para Belém, mas não resistiu.
Matheus Santa Rosa dos Santos estava internado havia duas semanas na UTI do Hospital Universitário Barros Barreto, em Belém, referência em doenças infecciosas. Em nota, a instituição informou que não divulga dados clínicos de pacientes, em respeito à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). O corpo dele foi enterrado no dia 4 de dezembro na zona rural do município de origem.
Apesar do caso, o Ministério da Saúde destaca que a situação da raiva humana no Brasil é considerada controlada. Segundo a pasta, há mais de dez anos não há registro de casos de raiva humana causados por variantes caninas do vírus (AgV1 e AgV2), historicamente associadas à transmissão por cães. Por isso, garante a pasta, “não é correto, portanto, falar em aumento de casos de raiva no país”.
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Vacina é oferta gratuitamente no SUS
As autoridades de saúde seguem orientando a população a procurar atendimento imediato em caso de mordidas ou arranhões causados por animais silvestres ou domésticos, para avaliação de risco e, se necessário, início rápido da profilaxia antirrábica, medida essencial para evitar a evolução da doença. Ainda segundo o Ministério da Saúde, a vacina contra a raiva é ofertada gratuitamente pelo SUS tanto para pessoas expostas ao vírus quanto para profissionais com risco permanente, como veterinários e biólogos. No ano passado (as informações foram divulgadas em dezembro), a vacina entrou no calendário de vacinação de comunidades de difícil acesso da região amazônica.
O Ministério da Saúde também informou que realiza anualmente treinamentos com as Secretarias Estaduais de Saúde, ações de educação em saúde e campanhas de comunicação para orientar a população sobre os riscos da raiva, especialmente no contato com animais silvestres. Em casos de mordedura, arranhadura ou contato de mucosas com animais potencialmente transmissores, a orientação é procurar imediatamente uma unidade de saúde para início da profilaxia antirrábica, com vacina e, quando indicado, soro.
No Pará, caso mais recente de raiva humana foi em 2018
A Secretaria de Estado de Saúde Pública do Pará (Sespa) informou que não houve registros de casos de raiva humana no Pará em 2024 e 2025. O último caso no estado ocorreu em 2018, no município de Melgaço, no Marajó. Houve um óbito no período recente, porém o Local Provável de Infecção foi no Amapá, não no Pará. A raiva animal é endêmica no estado, especialmente a transmitida por morcegos, mas não há registro recente de raiva transmitida em pets como cães e gatos.
O último registro por gato ocorreu em 1994 (Novo Repartimento) e por cão em 2002 (Itupiranga). A prevenção inclui a vacinação anual de cães e gatos, evitar contato com animais silvestres, além da profilaxia antirrábica humana após acidentes. A vacinação é essencial independentemente de campanhas, pois impede a circulação do vírus, protege os animais e previne casos graves e fatais em humanos.
Belém não registrou casos de raiva e nem óbitos em 2024 e 2025
Já a Secretaria Municipal de Saúde de Belém (Sesma) informou que não houve registro de casos de raiva nem de óbitos, em 2024 e 2025, no município, tanto em seres humanos quanto em animais. A Sesma reforçou que a principal forma de prevenção da raiva é a vacinação antirrábica de cães e gatos, fundamental para manter o controle da doença e evitar sua reintrodução no território. A ausência de casos no município é resultado direto das vacinações periódicas e da vigilância contínua de casos suspeitos.
Em situações de acidente com animais, informou ainda a Sesma, a orientação é que a pessoa procure imediatamente qualquer unidade de saúde da rede pública para avaliação e, se indicado, início do esquema pós-exposição da raiva, conforme protocolo do Ministério da Saúde. A vacinação antirrábica animal é um serviço gratuito e permanente, disponível na Unidade de Vigilância de Zoonoses (UVZ), localizada na avenida Augusto Montenegro, km 11, de segunda a sexta-feira, das 8 às 16 horas.
Evite ter contato mais próximo com animais silvestres, diz infectologista
Vice-presidente da Sociedade Paraense de Infectologia, o infectologista Alessandre Guimarães disse que, No Brasil, a principal forma de transmissão é principalmente através da mordedura de animais silvestres, sendo o morcego o principal mamífero transmissor, seguido pelos cães e outros animais silvestres. Pode haver transmissão também através da arranhadura e lambedura, a depender da fonte e exposição, sobretudo se for lambedura em área de mucosa (boca). A transmissão ocorre pelo contato direto com a saliva dos animais contendo o vírus que passa então para seres humanos que se infectam com o vírus da raiva e desenvolvem a doença em poucos dias.
O infectologista Alessandre Guimarães disse que deve-se evitar ter contato mais próximo (áreas de boca, nariz) com animais silvestres, sobretudo se desconhecidos. Também é importante vacinar cães e gatos domésticos. Monitorar morte de animais sem causa aparente em matas (morcegos que aparecem mortos podem ser “sentinela””do vírus circulando entre eles). “Após eventual exposição, acidente ou situação de risco, lavar abundantemente o local com água e sabão por 15 a 20 minutos e procurar imediatamente uma unidade de saúde para providências (vacina e/ou soro, a depender da gravidade). Tentar observar o animal e procurar conhecer o status vacinal do mesmo (se tomou antirrábica)”, explicou.
A vacina está recomendada para profissionais com risco constante, como veterinários, manejadores de animais, espeleólogos (profissionais ou pesquisadores que estudam as cavernas e outros ambientes subterrâneos) em forma de “pré-exposição”. “E, se acontecer o acidente (mordedura, arranhadura ou lambedura) em situação de pós-exposição, negligenciar a vacina antirrábica pode custar a própria vida, pois é uma doença viral com letalidade de 100% na maioria dos casos”, afirmou.
O especialista disse que a vigilância deve sempre atuar de forma a fazer o levantamento epidemiológico de cada caso, notificando, monitorando e informando as medidas a serem adotadas diante do eventual risco. A população, explicou, deve estar atenta e seguir todas as recomendações preventivas do Ministério da Saúde a fim de evitar essa doença grave, cuja morte é um contexto muito difícil até para médicos especialistas acompanharem. “Eu já tive oportunidade de assistir e é algo que marca (época do surto de raiva humana em Portel). Em casos de raiva humana, a recomendação para se evitar o contato com o paciente doente é a mesma que deve ser adotada em relação a um animal silvestre infectado. O profissional de saúde deve adentrar no leito de isolamento do enfermo 100% paramentado para evitar contato com gotículas. O profissional de saúde sabe do desfecho (fatal) desde o início, mas o paciente (que entra consciente e orientado), não”, afirmou o infectologista Alessandre Guimarães.
Médica veterinária Angel Macedo destaca importância da vacinação
A médica veterinária Angel Macedo disse que o vírus da raiva é transmitido através da mordida ou arranhão do animal infectado, sendo o principal vetor o morcego hematófago (que se alimentam de sangue). Áreas rurais, ribeirinhas e de mata são os locais que mais representam risco de contaminação pelo vírus, devido ao menor controle sanitário e dificuldade de acesso à saúde. Ainda segundo ela, a principal forma de prevenção do vírus da raiva é através da vacinação anual de cães, gatos e rebanhos. Para os humanos, o cuidado imediato é buscar atendimento médico na unidade de saúde mais próxima, realizar higienização da ferida com água e sabão antisséptico, fazer aplicação da vacina e soro antirrábico pós- exposição.
“Caso tenha presença de animais com suspeita de contaminação, acionar a vigilância sanitária para monitoramento”, afirmou. Já que se trata de uma zoonose (doença que pode ser transmitido do animal para o homem), a campanha de vacinação possui como objetivo controlar a disseminação da doença. “Por este motivo, não deve ser negligenciada, pois é um vírus letal e não possui cura”, completou.
Orientações dos especialistas:
Evitar contato com animais silvestres
Não se deve tocar, alimentar ou manter contato próximo com animais silvestres, especialmente morcegos, macacos ou animais desconhecidos. Áreas de boca, nariz e mucosas oferecem risco ainda maior de transmissão.
Vacinar regularmente cães e gatos
A vacinação antirrábica anual de animais domésticos é essencial para impedir a circulação do vírus e evitar a reintrodução da doença em áreas urbanas e rurais.
Buscar atendimento imediato após mordidas ou arranhões
Em casos de mordedura, arranhadura ou lambedura (principalmente em mucosas), a orientação é lavar o local imediatamente com água e sabão por 15 a 20 minutos e procurar uma unidade de saúde para avaliação e início da profilaxia antirrábica (vacina e, se indicado, soro).
Acionar a vigilância em casos suspeitos
A morte de animais sem causa aparente, especialmente morcegos, deve ser comunicada às autoridades de saúde. A vigilância epidemiológica é fundamental para monitorar, notificar casos e orientar medidas preventivas à população.
Fonte: Infectologista Alessandre Guimarães e médica veterinária Angel Macedo
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