Do closet ao feed: páginas de ‘desapego’ no Instagram viram renda extra para empreendedoras de Belém
Venda direta, baixo custo e criatividade impulsionam mulheres a transformar roupas usadas em dinheiro e dar os primeiros passos no empreendedorismo digital
Criadas inicialmente para liberar espaço no guarda-roupa, páginas de “desapego” no Instagram têm se consolidado como uma importante fonte de renda extra para mulheres em Belém. Sem intermediação de grandes plataformas, essas iniciativas utilizam estratégias simples de marketing digital, engajamento nas redes sociais e pagamentos via Pix para transformar itens pessoais em dinheiro.
O fenômeno reflete tanto a busca por alternativas financeiras diante da instabilidade econômica quanto a força da economia criativa e do empreendedorismo digital cotidiano, especialmente entre jovens e mães que conciliam múltiplas rotinas.
Renda que nasce do próprio armário
A advogada Sarah Martins, de 23 anos, é um exemplo de como o desapego virou negócio. O que começou como uma tentativa de ganhar espaço no closet rapidamente se transformou em renda complementar.
“Eu queria desapegar para ter um espaço a mais no closet e percebi que aquilo tinha potencial para virar renda extra”, conta. Segundo Sarah, logo na primeira vez em que separou peças para vender, o retorno surpreendeu. “Em um dia eu fiz R$ 2 mil. Vende muito rápido.”
Atualmente, ela consegue faturar cerca de R$ 2 mil por mês, dependendo da quantidade de peças disponíveis. “Tudo o que eu tenho vou colocando ao longo da semana e vai saindo”, explica.
Parte do dinheiro é reinvestida na compra de novas roupas. “Para mim é um investimento. Pode parecer futilidade, mas faz sentido, porque eu uso, vendo e gero retorno.”
As peças mais procuradas são roupas com estilo diferenciado, voltadas para festas e festivais. A estratégia de divulgação é simples e direta:“Posto o que eu realmente usei. Nada de tráfego pago, só divulgando mesmo”, diz. Os pagamentos são feitos via Pix, dinheiro ou link de pagamento, dependendo do valor.
Desafios logísticos e relação com clientes
Apesar dos bons resultados, o modelo também tem limitações. Sarah relata que o principal desafio está na logística. “Já tive problemas com entrega porque não tenho motoboy próprio. Algumas vezes o Uber não entregou”, afirma.
Ainda assim, ela considera a experiência tranquila e destaca que não se preocupa com concorrência. “Eu criei um relacionamento com as clientes para além das vendas.”
Além das próprias roupas, a página também funciona como vitrine para peças de amigas, ampliando o mix de produtos. O sucesso do bazar virtual motivou novos planos.
“Vou abrir uma loja online em breve. A expectativa é gigante”, revela. A ideia é manter a mesma estratégia, mas com peças novas e investimento em tráfego pago, além de oferecer benefícios para quem já segue o bazar.
Complemento essencial no orçamento doméstico
Para Aline Silva, vendedora de itens de desapego no Instagram, a renda é menor, mas igualmente significativa. Ela lucra entre R$ 500 e R$ 600 por mês, valor que ajuda a pagar contas pessoais.
“Sou recém-formada e mãe de um bebê. Meu esposo é o principal suporte financeiro da casa”, explica.
O perfil de vendas foi criado em 2018, quando Aline não conseguia emprego na área em que se formou. “Era para ser temporário, até conseguir um trabalho, mas deu certo e dá certo até hoje”, afirma.
Ela aposta em fotos claras, informações detalhadas, promoções e conteúdos com identidade regional para atrair seguidores.
“Faço pequenos textos e reels informativos com teor regional”, diz. Os produtos vêm tanto de colaboradores que desapegam peças quanto de compras em brechós e bazares de igrejas. “É o que a gente chama de garimpo”, explicou.
O maior desafio, segundo Aline, é manter a constância. “Tenho um bebê de um ano e estou estudando para o mestrado. Às vezes a dedicação em um lado acaba faltando no outro”, disse.
Informalidade, adaptação e sobrevivência econômica
Do ponto de vista econômico, o crescimento dessas páginas revela um cenário marcado por insegurança ocupacional e fragilidade do mercado de trabalho formal, avalia o economista paraense André Cutrim, membro do Conselho Regional de Economia do Pará e Amapá (Corecon PA/AP).
“A expansão das páginas de desapego revela a existência de uma parcela da população inserida em um contexto de restrições estruturais de renda, em que estratégias complementares se tornam necessárias para estabilizar o orçamento doméstico”, analisa.
Segundo Cutrim, essas iniciativas demonstram a capacidade de adaptação dos trabalhadores diante da informalização. “As pessoas passam a mobilizar ativos já existentes, como bens subutilizados, redes sociais pessoais e competências informais de comunicação e marketing, transformando isso em renda, sem necessidade de capital inicial relevante”, afirma.
Para o economista, esse tipo de empreendedorismo está mais ligado à sobrevivência do que à expansão empresarial. “Trata-se muito mais de uma estratégia de mitigação de riscos do que de um projeto deliberado de crescimento”, completa.
Desapego: renda temporária ou porta de entrada para um negócio?
Já o economista Nélio Bordalo, também membro do Corecon PA/AP, avalia que, na maioria dos casos, as páginas de desapego funcionam como complemento temporário de renda.
“No médio prazo, esse tipo de iniciativa tende a não se sustentar como fonte principal para a maioria das pessoas, porque o modelo está baseado na venda de bens próprios, o que limita sua continuidade”, explica.
Ele destaca ainda desafios como concorrência elevada, ausência de escala, informalidade, logística e dependência dos algoritmos das redes sociais. “O alcance pode ser reduzido a qualquer momento, o que torna a renda instável”, afirma.
Por outro lado, Bordalo ressalta que há possibilidade de evolução. “Quando há profissionalização, reinvestimento dos ganhos, organização financeira e diversificação dos canais de venda, o desapego pode deixar de ser apenas uma resposta ao aperto financeiro e se transformar em um pequeno negócio digital”, diz.
Segundo ele, essa transição ocorre quando o vendedor passa a comprar produtos para revenda, repor estoque e precificar estrategicamente.
“Nesse momento, já se caracteriza uma atividade econômica contínua, ainda que informal, inserida na economia criativa e na lógica da economia circular, mas que também exige novas responsabilidades”, conclui.
Consumo consciente e confiança impulsionam compras
Do lado de quem consome, as páginas de desapego também atendem a motivações que vão além do preço. Para a assistente social Conce Barbosa, comprar por esses perfis no Instagram é uma escolha que envolve consciência ambiental, impacto social e economia.
“A motivação é reduzir o desperdício da indústria têxtil, que é altamente poluente. Muitos bazares são beneficentes, e a compra ajuda projetos e instituições sociais, além de permitir encontrar peças por valores muito abaixo do mercado”, afirma.
Segundo Conce, o modelo das páginas de desapego oferece uma experiência de consumo mais alinhada a valores pessoais, ao mesmo tempo em que facilita o acesso a roupas e acessórios de qualidade por preços acessíveis.
Na hora de decidir pela compra, dois fatores são determinantes. “Preço e confiança no vendedor”, resume.
Para ela, a relação direta com quem vende, a transparência sobre as peças e a reputação construída ao longo do tempo são diferenciais em relação aos marketplaces tradicionais.
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