Pará lidera arrecadação de impostos no Norte, mas contribuinte questiona retorno em serviços

Estado já somou R$ 6 bilhões em impostos nos primeiros 29 dias de 2026; empreendedores relatam carga tributária de até 40% em equipamentos e precariedade na infraestrutura pública

Gabriel da Mota
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O estado do Pará encerrou o primeiro mês de 2026 consolidando sua posição como a maior força arrecadadora da Região Norte. Segundo dados do Impostômetro, da Associação Comercial de São Paulo, o território paraense já acumulou R$ 6 bilhões em tributos (federais, estaduais e municipais) entre o dia 1º e 30 de janeiro. Somente a capital, Belém, foi responsável pela fatia de R$ 139 milhões nesse período. No entanto, o volume bilionário de recursos que entra nos cofres públicos contrasta com a realidade de quem produz e a percepção de quem paga a conta: o sentimento de que o retorno em serviços essenciais, como segurança e saneamento, ainda caminha a passos lentos.

Para o empreendedor Danilo Gomes, de 23 anos, o peso dos impostos é um obstáculo direto ao crescimento de sua agência de marketing. Com investimentos que superam os R$ 150 mil em cinco anos de carreira, ele calcula que cerca de 40% do valor de seus equipamentos de trabalho sejam destinados apenas ao pagamento de tributos. “Eu já fiz mais de R$ 50 mil de investimento nos produtos e mais de 40% foram tributos e impostos pagos, principalmente em uma câmera de cinema que custou R$ 18,7 mil. Desse total, quase R$ 7 mil foram só de tributos aplicados à câmera”, afirmou Danilo, ressaltando que o valor da nota fiscal muitas vezes dobra devido à carga tributária brasileira.

image Para o empreendedor belenense Danilo Gomes, 23 anos, o peso dos impostos é um obstáculo direto ao crescimento de sua agência de marketing (Thiago Gomes / O Liberal)

Carga tributária

A estratégia para viabilizar o negócio tem sido buscar equipamentos fora do estado ou do país. Danilo relata que o ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) no Pará, fixado em 20%, torna a compra de equipamentos no comércio local financeiramente impossível para profissionais do audiovisual. “O valor acaba sendo muito absurdo. Em um único produto, como a câmera, o imposto estadual fica em quase R$ 4 mil. Se eu comprasse essa mesma câmera em Curitiba [no Paraná], não pagaria R$ 18 mil, mas uns R$ 13 mil ou R$ 14 mil”, comparou o empreendedor.

image O empreendedor mostra que 20% do valor investido em um equipamento de trabalho vai para o ICMS, utilizado para financiar serviços públicos estaduais como segurança, saúde e educação (Thiago Gomes / O Liberal)

O impacto desse custo é repassado, inevitavelmente, ao consumidor final, embora nem sempre de forma compreendida. “Tudo isso é atribuído ao meu trabalho, só que o consumidor não consegue reconhecer isso e pergunta por que algo tão simples é tão caro. Eu explico que um equipamento desses é quase R$ 30 mil e que só com luz e edição gasto mais de R$ 2 mil. Isso deixa tudo mais pesado para quem fornece e para quem consome”, disse.

Investimento sem retorno

A frustração aumenta quando o contribuinte precisa do Estado e não encontra amparo. Danilo relata ter perdido uma maleta com lentes avaliadas em R$ 60 mil. Mesmo com o registro de boletim de ocorrência, nunca houve uma resposta das autoridades. “Definitivamente não sinto que retorna para mim todo esse imposto que é pago. Não tive meus equipamentos de volta e não deram uma devolutiva. Não retorna nem para o meu trabalho, nem para a estrutura da cidade”, lamentou.

Na análise do economista Nélio Bordalo Filho, conselheiro do Conselho Regional de Economia do Pará e Amapá (Corecon PA/AP), a liderança do Pará na arrecadação reflete a pujança da indústria mineral e da logística, mas não garante bem-estar social automático. “A liderança na arrecadação reflete a força econômica do estado, especialmente pela indústria mineral. No entanto, indicadores sociais como saneamento básico e desenvolvimento humano continuam muito desfavoráveis. Em Belém e em vários municípios, apenas cerca de metade da população tem acesso regular à água tratada”, explicou o economista.

image Nélio Bordalo, economista conselheiro do Corecon/PA-AP (Cláudio Pinheiro / Arquivo O Liberal)

De acordo com Bordalo, o nó da questão reside na destinação dos recursos.

“Não é que os recursos desapareçam, mas destinam-se mais ao custeio da máquina pública e à manutenção de serviços de curto prazo, com uma parcela insuficiente indo a investimentos que geram impacto social sustentado como saneamento, educação e saúde”, pontuou.

Ele destaca que a rigidez orçamentária, onde grande parte da receita já está comprometida com despesas obrigatórias e pessoal, deixa pouca margem para obras estruturantes.

Outro ponto de atenção destacado pelo economista é a fragilidade dessa arrecadação recorde, que hoje é fortemente dependente de setores cíclicos. “A atual arrecadação é influenciada por setores como mineração e commodities, que dependem de preços internacionais e investimentos voláteis. Sem a diversificação da base econômica e políticas que ampliem a produtividade local, o Estado continuará vulnerável às flutuações do mercado externo”, alertou Nélio Bordalo. Para o especialista, a eficiência fiscal a longo prazo exige que o Pará deixe de depender dessas fontes e passe a aplicar os recursos em capital humano e infraestrutura social, distribuindo a riqueza de forma mais equilibrada pelo território paraense.

A reportagem entrou em contato com a Secretaria de Estado de Planejamento e Administração (Seplad) para obter dados regionalizados e específicos sobre a arrecadação estadual e a conversão desse montante em melhorias diretas aos cidadãos paraenses, mas não obteve retorno até o fechamento desta edição.

Radiografia do imposto no Pará (jan/2026)

Arrecadação estadual total: R$ 6 bilhões 

Arrecadação em Belém: R$ 139 milhões

Fonte: Impostômetro/ACSP

Alíquota de ICMS no Pará: 19%

Fonte: Sefa/PA

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