Robótica agrícola avança no Pará e promete transformar a colheita do açaí

Com robôs escalando palmeiras e operadores treinados em minutos, o estado dá passos firmes rumo a uma nova era no campo.

Jéssica Nascimento

No Pará, onde o açaí é mais que alimento e se confunde com identidade cultural e econômica, a colheita do fruto começa a viver uma virada histórica. A introdução da robótica agrícola, simbolizada pelo robô Açaí Bot, aponta para um futuro em que tecnologia, floresta nativa e pequenos produtores caminham juntos.

A iniciativa do Sistema Faepa/Senar, em parceria com a empresa Açaí Kaa, vai além do lançamento de uma máquina: aposta na capacitação de trabalhadores rurais, na redução de acidentes e no aproveitamento de áreas hoje improdutivas.

image "Açaí Bot" fazendo a colheita de açaí, trabalho dos chamados peconheiros. (Foto: Assessoria | Faepa)

Robôs no topo da palmeira

Apresentado oficialmente em Belém, o Açaí Bot foi desenvolvido para enfrentar um dos maiores gargalos da cadeia produtiva do açaí: a colheita. Tradicionalmente feita pelo peconheiro — que escala palmeiras de até 25 metros —, a atividade envolve alto risco e vem se tornando cada vez menos atrativa.

Segundo Reinaldo Santos, mentor da tecnologia do projeto da Associação Latino-Amazônica de Extrativistas, Produtores, Comercializadores e Processadores de Frutos Amazônicos (Latino Amazon), o impacto do robô é direto na produtividade.

“O que o robô traz é uma elevação muito significativa da produtividade, que hoje é multiplicada por 10. Uma pessoa poderá produzir o equivalente a 10 peconheiros tradicionais”, afirma.

Ele destaca ainda que mais de 90% dos açaizais nativos não são aproveitados atualmente.

image Reinaldo Santos. (Foto: Thiago Gomes)

“Uma das principais razões é a dificuldade na colheita. Então a gente está trazendo essa solução para que toda essa riqueza possa ser explorada”, completa.

image (Foto: Assessoria | Faepa)

Tecnologia pensada para quem vive do açaí

Para João Rezende, diretor comercial do projeto Açaí Bot na empresa Kaa Tech, o centro do modelo de negócios é claro: o produtor ribeirinho.

“Para um modelo de negócios, o Açaí Bot precisa chegar no ribeirinho. A pessoa mais importante desse cenário é o ribeirinho”, afirma.

image João Rezende. (Foto: Thiago Gomes)

Ele elogia o papel do Senar e da Faepa na aquisição e distribuição dos robôs às comunidades.

“É realmente o papel que a gente espera do Estado. É o Estado atuando para que famílias em situações difíceis tenham facilidades”, diz.

Os robôs são comercializados por R$ 19.569, mas o acesso tende a ocorrer por meio de sindicatos, associações e programas de crédito rural.

“Os sindicatos e associações vão comprar os robôs e emprestar aos associados. Alguns robôs provavelmente serão doados”, explica Rezende, citando o Pronaf como uma das portas de entrada para os pequenos produtores.

Operar é simples, colher é rápido

Apesar da sofisticação, o Açaí Bot foi projetado para ser intuitivo.

“Qualquer pessoa com um pouco de habilidade de manuseio de celular opera o robô”, afirma Rezende.

O treinamento inicial leva cerca de dez minutos, e cada coleta pode ser feita em menos de dois minutos. “Depois que aprende, é muito rápido. Encaixou no açaí, colheu, desceu”, resume.

Os primeiros testes no campo têm surpreendido os produtores. “Eles se encantam com o aumento de produtividade e com a qualidade do fruto. O açaí cai menos, perde menos. Isso gera uma série de benefícios”, relata.

Modernização com segurança e sustentabilidade

Para o engenheiro agrônomo Celso Botelho, coordenador do programa de Assistência Técnica e Gerencial do Senar, a tecnologia representa um avanço estrutural para a cadeia do açaí.

“Começa pelo tempo. O tempo que um peconheiro leva para subir numa árvore é reduzido drasticamente”, explica.

A segurança, segundo ele, é outro ponto decisivo.

image Celso Botelho. (Foto: Thiago Gomes)

“Tudo é controlado de forma muito fácil. É extremamente sustentável e vai ajudar bastante”, avalia.

O olhar de quem está no campo

Nas comunidades produtoras, a expectativa é alta. Emerson Silva de Menezes, produtor rural e presidente do Sindicato dos Produtores Rurais do Acará, vê a robótica como resposta a um problema antigo.

“A gente vê muitos acidentes na colheita do açaí. Trabalhar hoje com tecnologia é mais fácil e traz uma colheita muito mais segura”, afirma.

image Emerson Menezes. (Foto: Thiago Gomes)

Um mercado em ascensão

Com o Pará responsável por cerca de 92% da produção nacional de açaí, o potencial de expansão da robótica agrícola é gigantesco.

“Só o estado do Pará tem espaço para cerca de 500 mil robôs”, projeta João Rezende.

“O peconheiro praticamente não existe mais. É muito perigoso. O robô elimina esse risco.”

Faepa vê robótica como resposta à demanda global e às perdas na floresta

Para a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Pará (Faepa), a adoção da robótica na colheita do açaí não é apenas uma inovação tecnológica, mas uma necessidade estratégica diante da expansão do mercado e das limitações do modelo tradicional de produção.

Segundo Guilherme Minssen, diretor técnico da Faepa, o açaí ocupa hoje um papel central na agricultura paraense, tanto do ponto de vista econômico quanto produtivo.

“A cadeia do açaí, para nós, representa não só financeiramente, mas principalmente como uma expansão da agricultura. Uma das mais fortes tendências que nós temos é produzir, entregar mais e melhor em menos tempo. Nós estamos produzindo muito no açaí”, afirma.

O dirigente destaca que o fruto deixou de ser um produto regional para se tornar uma commodity global, com crescimento acelerado da demanda.

“O açaí virou um fruto mundial. Ele expandiu muito rápido. A aceitação do açaí é algo impressionante”, observa.

image Guilherme Minssen. (Foto: Thiago Gomes)

Apesar do avanço produtivo, Minssen alerta para um gargalo que afeta tanto o mercado local quanto o internacional: a dificuldade de abastecimento, especialmente fora do período de safra.

“Começamos a produzir, mas falta produto. Falta açaí. A gente tem falta de açaí até dentro de Belém em alguns períodos do ano. Fora da safra, a gente tem dificuldade de fornecer ao mercado local. Imagine isso num mercado mundial que está cada vez mais demandando produtos como sorvetes e outros derivados que levam o açaí”, explica.

Diante desse cenário, a modernização da colheita se tornou inevitável.

image Robô que fará a colheita do açaí, substituindo o trabalho dos peconheiros. (Foto: Assessoria | Faepa)

“Nós tínhamos que mudar a nossa produção. Tínhamos que desenvolver esse produto em si, o robô. Ele veio para sanar o problema da colheita, que é muito sério, porque o açaí não dá no chão, ele dá no alto, em palmeiras muito esguias, com grande dificuldade de acesso. A gente não apanha todo o açaí que tem na floresta”, ressalta.

Minssen chama atenção para o potencial ainda não explorado em regiões como o arquipélago do Marajó e as ilhas no entorno de Belém.

“Nosso Marajó é riquíssimo em açaí. Quando falo Marajó, falo do arquipélago marajoara e de todas as ilhas ao redor de Belém. Produz bastante, vale muito dinheiro, mas nós não conseguimos colher nem 90% desse produto. Muito fica lá na floresta, sem utilização. Então, temos que ir lá buscar.”

A solução, segundo ele, passa diretamente pela robótica agrícola.

“Foi desenvolvida essa máquina que, em menos de um minuto — em cinquenta e poucos segundos —, sobe e desce com o cacho já colhido. Ela permite alcançar estirpes do açaizeiro onde não tínhamos acesso: muito finas, muito longas, ou aquelas que apresentam broca e acabam quebrando”, explica.

Além do ganho produtivo, a segurança dos trabalhadores é um fator determinante.

“Temos também a questão dos acidentes, que podem acontecer com o peconheiro, a pessoa que sobe para apanhar o açaí. Visto isso, houve um trabalho muito grande de pesquisa para desenvolver uma solução forte para esse mercado. Esse trabalho desembocou nesse robô”, conclui.

 

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