Waldemar Henrique e Theatro da Paz traduzem na arte a história e cultura da Amazônia

Theatro guarda memórias culturais e históricas da região, inclusive, a trajetória do maestro da Amazônia, chegou a morar nesta casa de espetáculos no centro de Belém

Eduardo Rocha

Eles "nasceram" no mesmo dia, ainda que não na mesma data, e expressam muito do que a cultura e a história amazônicas têm de beleza e singularidade. Em 15 de fevereiro de 1878 era inaugurado o Theatro da Paz no centro de Belém e em 15 de fevereiro de 1905 nascia o maestro Waldemar Henrique da Costa Pereira. Portanto, neste domingo (15), o Theatro completa 148 anos e Waldemar Henrique completaria 121 anos. O maestro faleceu aos 90 anos de idade em 27 de março de 1995. Entretanto, a cada ano, Waldemar Henrique e o Theatro da Paz se fortalecem como referências da Amazônia. Até porque é por meio das artes que o Theatro e o maestro contam há mais de um século a trajetória da região.

Em pleno período áureo do Ciclo da Borracha na Amazônia, o Theatro da Paz surgiu como uma casa em Belém para sediar grandes espetáculos do gênero lírico. Para a construção do teatro, o governo da província contratou o engenheiro militar José Tibúrcio de Magalhães, que começou o projeto arquitetônico inspirado no Teatro Scala de Milão, na Itália.

image Theatro da Paz: expressão da cultura amazônica embeleza a Cidade de Belém (Foto: Wagner Santana / O Liberal)

O Theatro da Paz foi a primeira casa de espetáculos construída na Amazônia. Ele tem como  marca uma acústica perfeita, lustres de cristal, piso em mosaico de madeiras nobres, afrescos nas paredes e teto, dezenas de obras de arte, gradis e outros elementos decorativos revestidos com folhas de ouro. Apresenta-se como o maior teatro da Região Norte e um dos mais luxuosos do Brasil - é um  dos teatros-monumentos do País.

No palco do Theatro apresentaram-se e apresentam-se inúmeros artistas de música, teatro, dança e literatura. Sede de tantos espetáculos, o próprio Theatro da Paz é um espetáculo pela riqueza de detalhes em sua parte externa como também em seu interior. Para celebrar esse ícone da cultura amazônica, a Secretaria de Estado de Cultura (Secult) organizou uma programação gratuita com visitas guiadas do público pelo Theatro até este domingo (15), das 9h às 12h, com intervalos de uma hora. 

A secretária de Estado de Cultura, Ursula Vidal, destaca a celebração do aniversário do Theatro. "Celebrar os 148 anos do Theatro da Paz é reafirmar o compromisso do Governo do Pará com esta que é uma das mais importantes casas de espetáculos do Brasil. A gratuidade das visitas guiadas é um gesto concreto de democratização desse patrimônio. Em 2025, vivemos um momento histórico com a oficialização da candidatura dos Teatros da Amazônia à Lista do Patrimônio Mundial da Unesco, consolidando uma estratégia permanente de valorização do nosso patrimônio e da nossa memória, com projeção internacional do Pará. Que este aniversário seja também um convite para que a população ocupe o Theatro, conheça sua história e fortaleça o sentimento de pertencimento a esse patrimônio que é de todos nós". 

Em 2025, o Theatro da Paz recebeu mais de 70 mil pessoas em 180 espetáculos realizados. Em janeiro de 2025, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) oficializou a candidatura conjunta do Theatro da Paz e do Teatro Amazonas (Teatros da Amazônia) à Lista do Patrimônio Mundial da Unesco. A recomendação oficial sobre a candidatura deve ser apresentada à Unesco em março deste ano, e a avaliação final está prevista para julho, durante a 48ª sessão do Comitê do Patrimônio Mundial, com o Brasil representado pelo Iphan, pelo Ministério da Cultura e pelo Ministério das Relações Exteriores, como informa a Secult.

Transcendental

Entre tantos artistas que se apresentaram nesse espaço cultural do Pará está o próprio maestro Waldemar Henrique, como conta o amigo pessoal e biógrafo dele, Sebastião Godinho, membro da Academia Paraense de Letras (APL). Sebastião Godinho conviveu diretamente com o maestro por 19 anos, ou seja, de 1976 até 1995, quando o compositor faleceu em Belém. Uma convivência "rica e inesquecível", como atesta Godinho, e que teve início no próprio Theatro da Paz. 

image Como conta Sebastião Godinho, o Theatro da Paz era a segunda casa do maestro Waldemar Henrique (Foto: Wagner Santana / O Liberal)

"Eu era um jovenzinho naquela época, e eu sempre gostei muito de desenhar, de pintar. Eu tinha um sonho de fazer uma exposição aí na Galeria Ângelus (primeira galeria pública em Belém), que era uma galeria de arte que existia na frente do Theatro. E eu vim aqui uma tarde, para exatamente conversar com ele, que era o diretor aqui da casa, para que autorizasse a minha exposição. Ele não só autorizou, como também comprou o único quadro que eu vendi na exposição. Ele adquiriu como uma espécie de estímulo para um jovem artista que na época estava começando a sua vida artística e social também, e ele me ajudou comprando o quadro. E, a partir daí, ficamos amigos, e, depois, eu passei a ser ser o seu secretário". Waldemar Henrique foi diretor do Theatro da Paz de 1966 a 1980. 

Godinho tem bem na lembrança como era o amigo Waldemar Henrique. "Ele era uma pessoa maravilhosa, realmente um anjo que apareceu na minha vida, porque era uma pessoa de fácil convivência, uma pessoa que gostava de pessoas, gostava de viver, gostava de se relacionar com as pessoas, gostava imensamente de viver. Isso era uma coisa maravilhosa, era até estimulante a gente conviver com ele, porque apesar de ele ter um problema sério de visão, problema que trouxe de nascença e que poderia irritar qualquer outra pessoa, ele convivia muito bem com essa deficiência e sempre foi um homem extremamente feliz". 

A relação do maestro Waldemar Henrique com o Theatro da Paz é considerada por Sebastião Godinho, como "uma relação transcendental". Isso pelo fato de que, como ressalta Godinho, o maestro nasceu no dia 15 de fevereiro de 1905 e o Theatro "nasceu", digamos assim, no dia 15 de fevereiro também, de 1878".

"Então, o maestro tinha uma relação extremamente carinhosa com esta casa, porque também foi aqui, em 1933, que ele se apresentou com a irmã que era a cantora predileta dele, a Mara. Foi aqui que ele se apresentou na Noite da Canção Paraense, antes de viajar para o Rio de Janeiro, onde ele alcançou a carreira de sucesso que ele teve", relata Godinho.

O maestro Waldemar Henrique chegou a morar no Theatro da Paz. Como conta Godinho, em 1966, ao retornar do Rio de Janeiro definitivamente para Belém, a convite do Governo do Estado, o compositor veio a ser diretor do Theatro da Paz. A casa de espetáculos encontrava-se fechada, em situação muito difícil, e Waldemar Henrique tinha o sonho de reabrir o Theatro. "Para que isso acontecesse, ele precisava estar aqui diuturnamente. E, por conta disso, ele ele resolveu morar num dos camarins aqui, do Theatro", relata Godinho, que trabalhou no Theatro com o maestro.

Waldemar Henrique morou cerca de dois anos no Theatro da Paz, e graças a esse trabalho o Theatro voltou a funcionar a contento, como destaca o amigo dele. O compositor chegou a mobilizar muita gente da classe artística em Belém para concretizar essa meta.

image O maestro Waldemar Henrique, no desenho de bico de pena do amigo Sebastião Godinho (Foto: Reprodução / Acervo Pessoal de Sebastião Godinho)

O maestro apresentou-se pela primeira vez no Theatro na Noite da Canção Paraense, em 1933. "E depois, mais adiante, ele voltou a se apresentar aqui também, mas já como profissional. Ele veio também mais uma vez com a sua irmã Mara e se apresentou aqui. E na década de 50 ainda como profissional, ele voltou a se apresentar aqui, pela Sociedade Artística Internacional. Então, profissionalmente ele se apresentou aqui três vezes".

"Agora, depois quando ele morava já aqui em Belém, depois de 1966, já morando aqui em Belém, ele chegou a se apresentar aqui no palco do Theatro, mas não mais como profissional, apenas em alguns eventos artístico, para os quais ele foi convidado", conta Gondim.

E Waldemar Henrique era um frequentador do Theatro da Paz. "O Theatro era a segunda casa do maestro, porque ele era um frequentador assíduo dessa casa. Ele dificilmente perdia alguma récita, algum espetáculo teatral, principalmente quando se tratava de espetáculo teatral de grupos teatrais aqui de Belém, que ele gostava demais de prestigiar".

image Godinho: Dia de celebrar o legado de Waldemar Henrique e do Theatro da Paz (Foto: Wagner Santana / O Liberal)

"A grande homenagem que se presta tanto ao maestro Waldemar Henrique como ao Theatro da Paz (neste 15 de fevereiro de 2026) é a preservação de ambos, da memória do maestro por meio da sua música, uma música que tem ganhado as vozes das novas gerações. Então, maestro continua vivo. Essa é a grande homenagem, é ouvir a música do maestro, cantar e preservá-lo, preservar a sua memória por meio da sua obra. E o Theatro também, que é essa casa maravilhosa aqui, é o povo preservar também o seu edifício, a sua arquitetura. E amá-lo. E não só isso, mas também frequentá-lo, porque o teatro (incluindo o Da Paz), ele vive do aplauso do público, né? Ele vive do público, né? Sem o público, o teatro não tem razão de existir", finaliza Sebastião Godinho.

 

 

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