Tecnobrega vira linguagem fashion e amplia debate sobre identidade cultural
Professora Alcimara Braga destaca protagonismo das divas do Pará e força criativa amazônica
No Carnaval, a estética tipicamente paraense alçou ainda mais voo ao ganhar destaque nacional quando a cantora Ludmilla levou ao palco do evento “Carnaval da Cidade”, com o projeto “Fervo da Lud”, um figurino inspirado no “rock doido”, movimento ligado ao gênero nascido no Pará. A escolha evidenciou como referências das aparelhagens e do tecnobrega têm atravessado fronteiras e ocupado espaços centrais na cena pop brasileira.
Para a professora e estilista Alcimara Braga, ativista da moda nortista e idealizadora do Movimento Moda Paraense, esse destaque recente não surge como novidade, mas como uma espécie de reparação histórica.
“Sempre tivemos muitos criativos, estilistas e figurinistas. No entanto, sempre fomos invisibilizados e subjugados. A Amazônia é uma potência criativa para o mundo”, afirma.
Segundo ela, o tecnobrega nasceu como ‘uma explosão de som, luz e cor, um espetáculo que traduz a criatividade e a ousadia do nosso povo’.
“Quando essa estética atravessa fronteiras e chega à moda nacional, o que vemos é o reconhecimento de que o Pará sempre respirou inovação. A moda nortista não é uma tendência passageira: é uma linguagem cultural que sempre existiu, mas foi invisibilizada. Agora, ela ganha projeção porque o Brasil começa a perceber que precisa dessa energia criativa para se reinventar”, diz.
Pioneiras
Alcimara destaca que as “divas paraenses” foram pioneiras ao transformar essa estética em afirmação de identidade. Artistas como Gaby Amarantos, Viviane Batidão, Valéria Paiva e Joelma incorporaram brilho, cores intensas e referências amazônicas aos figurinos muito antes de o eixo Rio-São Paulo voltar os olhos para o Norte.
“Quando artistas de alcance nacional incorporam essa linguagem, há uma amplificação simbólica. Aquilo que antes era visto como regional passa a ser entendido como parte da cultura brasileira. Não se trata de apropriação, é reconhecimento”, comenta.
Ela ressalta ainda o peso simbólico de ver o tecnobrega em grandes produções de moda. “É como dizer ao Norte: ‘Vocês também fazem parte do Brasil’. Somos aquela estrela isolada na bandeira nacional, e chegou a hora de brilhar. Não existe cultura menor”, declara, acrescentando que a adesão da moda ao ritmo paraense sinaliza uma mudança na percepção sobre a cultura amazônica, antes marcada por estigmas.
Estética neon
A cantora Keila Gentil, vocalista da Gang do Eletro, grupo precursor na fusão entre música eletrônica, tecnobrega e estética neon, também associa o visual à construção de identidade.
“Eu sempre gostei muito de ser colorida, de usar roupas neon. Isso acabou sendo uma construção estética, tanto no palco quanto na minha vida”, afirma.
Ela relembra que, no início, o grupo viajava com luz negra para potencializar o efeito das cores fluorescentes. “A gente trouxe essa linguagem da tecnologia. Eram grafismos indígenas todos em neon. Isso fala do futuro e também da ancestralidade”, comenta.
Keila observa que elementos hoje difundidos na moda urbana nacional já faziam parte da cena paraense há anos. Em sua avaliação, o Pará sempre esteve à frente na forma de se vestir dentro das culturas periféricas. “O visual comunica muito forte. Todo mundo que vê neon, brilho, essas cores vibrantes, associa ao tecnobrega. A gente tem uma identidade visual muito forte”, afirma.
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