Seja sua melhor versão: o que o filme “Consequência” revela sobre fama, culpa e hipocrisia
Leia o texto do professor e pesquisador Relivaldo Pinho, escrito especialmente para O Liberal.
“Consequência’, que acaba de estrear no streaming, é um filme que merece ser visto. Não porque seja uma obra de arte sobre culpa e redenção, ou um drama profundo sobre as consequências de nossos atos.
Mas porque é um filme sobre como podemos ser arrastados por nós mesmos e não nos damos conta disso, e, de repente, a vida nos cobra algum preço.
Isso pode parecer com aquelas frases piegas de incentivo que aparecem no Instagram. É, até pode. Mas o filme vai um pouco além. É sobre um astro de Hollywood, Reef Hawk (Keanu Reeves) que, no auge de sua carreira, é chantageado por causa de um vídeo seu.
Para o filme, o conteúdo do vídeo não importa muito. Ele é apenas uma desculpa para nos provocar alguma expectativa, enquanto Reeves se vê, talvez como nunca antes, diante da possibilidade de ser outra pessoa.
E ser outra pessoa é sempre uma ameaça para nós. Reef desde pequeno viveu sob os holofotes, ganhou fama e dinheiro, mas nunca olhou para a vida que o cercava.
Ou melhor, ele olhava, mas o brilho de si mesmo sempre ofuscava sua visão.
Os outros que o cercavam, empresários, diretores, treinadores, maquiadores e amigos sempre foram tratados por ele como ele bem entendia. Tratados como seu Eu (Ego), sempre repleto de si, entendia.
Daí que a ameaça do rompimento desse Eu desencadeia a sua crise para o vício das drogas e, passados cinco anos sem se drogar, ele tem que perceber que ele também era, e ainda é, feito de outros.
Ele segue sua trajetória para tentar reparar o que tinha feito com os que estavam em sua volta, mas não transparece muito em sua atitude uma verdadeira sinceridade.
Reef, na verdade, nem se dá conta do que havia feito. Chapado ou egocêntrico, ele nem se lembrava de como seu primeiro empresário (interpretado por Martin Scorsese) foi importante em sua vida.
É um filme de redenção, ou pelo menos, de alguma redenção. Porque Reef Hawk está em pânico não apenas pela ameaça à sua carreira, mas porque ele terá que se confrontar consigo mesmo. E isso é desconfortável.
VEJA MAIS
Por isso, ele parece sempre alheio ao que provocou nas pessoas. São elas que descrevem para ele o que elas tiveram que passar por causa de suas atitudes, e o astro, de modo vacilante, tenta se desculpar.
Quando toma coragem para pedir desculpas à sua ex-namorada, por tê-la feito de escape para suas frustrações, ela o enfrenta e diz que agora é feliz com a família e os filhos.
Reef não tem filhos, não se casou e, no momento, não está em nenhum relacionamento.
Mas já está com 56 anos e ter que perceber que a vida daqueles que ele “usou” seguiu em frente é outro holofote que explode diante de seus olhos. Crash!
Na verdade, sua solidão e egocentrismo já estavam lá há muito tempo. Não por acaso, ele às vezas posa de vítima do sistema. É confortável posar de vítima das circunstâncias.
E até pode ser lucrativo. É o que o seu gerenciador de crise, Ira Slitz (Jonah Hill, diretor e, de longe, o melhor ator do filme) lhe propõe fazer.
Sua estratégia é criar o chamado “capitalismo de vítima”, lucrar com a ideia de que o sistema o empurrou para seus erros e, então, o vídeo que guarda seus segredos não surtiria mais efeito.
Slitz é ao mesmo tempo seu gerente de crise e a constatação aterradora da total falta de habilidade de Reef de lidar com o que não estava na sua fantasia feita de assédios dos fãs, glamour e felicidade.
Ironicamente, a estratégia do seu gerente de crises dá certo. Aparecer para sustentar uma versão de si.
Não é assim que fazemos quando queremos parecer felizes nos reels? Ah lembrei, a frase é “seja sua melhor versão”.
Reef não tem alternativa. A vida lhe cobra outras versões e continuar sendo o astro amado por todos é a única opção. Por isso ele pergunta para o sujeito que o chantageou com o vídeo se ele o odeia.
O ator quer ser, contraditoriamente, amado por todos e, de algum modo, verdadeiro (todos nós não queremos?). Equação impossível.
E ele busca essa verdade exercendo um novo Eu, desculpando-se até com o cachorro que ele fez mal de alguma forma.
Sim, pode parecer piegas demais. Mas o que o filme nos expõe é como essas versões podem conviver em pessoas que gostariam de abrir mão delas, mas não podem.
Ele vê alguma felicidade na sua redenção, mas não acreditamos que essa felicidade dure muito. É como as centenas de reels nos quais vemos aquilo que o outro gostaria de nos mostrar.
Ou, dito de outro modo, “seja sua melhor versão”.
Relivaldo Pinho é escritor, pesquisador e professor da Fibra.
COMPARTILHE ESSA NOTÍCIA