'Nativo' revisita legado de Ruy Barata em documentário com pré-estreia gratuita hoje (22)
Longa dirigido por Vlad Cunha terá pré-estreia gratuita no MIS, em Belém
“Tudo o que eu amei estava aqui”. O verso eternizado por Ruy Barata agora também conduz o documentário “Nativo”, produção que transforma memórias, música e relatos de amigos e admiradores em um retrato sobre a vida do compositor e poeta paraense. Com direção e roteiro de Vlad Cunha, o longa terá pré-estreia aberta ao público no Museu da Imagem e do Som do Pará (MIS), em Belém, nesta sexta-feira (22), às 20h.
A entrada é gratuita, sujeita à lotação do espaço. Após a exibição, a programação contará com uma roda de conversa com o diretor Vlad Cunha e Tito Barata, filho de Ruy Barata.
VEJA MAIS
As múltiplas facetas de Ruy Barata
O documentário percorre diferentes camadas da trajetória de Ruy Barata, apresentando também suas facetas de boêmio e figura ligada à contracultura amazônica. O longa aborda ainda sua atuação durante o período da ditadura militar e sua presença em movimentos ligados à defesa da democracia no estado.
A narrativa reúne depoimentos de nomes como Fafá de Belém, Edgar Augusto, Manoel Cordeiro, Paulo Roberto Ferreira e Januário Guedes. O filme ainda conta com performances musicais de Aqno, Félix Robbato, Júlia Paiva, Ana Clara, Naieme e Valéria Paiva, além da própria Fafá, conhecida nacionalmente por interpretar diversas composições de Ruy Barata em parceria com o filho, Paulo André Barata, como “Foi Assim”, “Pauapixuna” e “Este Rio É Minha Rua”.
O documentário também incorpora a participação dos atores Adriano Barroso, Astrea Lucena e Ailson Braga, responsáveis por interpretar poemas e conduzir passagens simbólicas da narrativa.
Segundo Vlad Cunha, a ideia foi inspirada na estrutura do teatro grego. “O trio representa a figura do corifeu, que é um arquétipo usado para sinalizar a passagem de atos. Eles representam as dualidades do Ruy, os conflitos internos dele e a poesia dele também”, explicou.
O diretor contou que o projeto surgiu a partir de um convite feito por Tito Barata, que lhe deu liberdade para construir o filme a partir de uma linguagem própria.
“Eu quis fazer um filme como se ele fosse um filme brasileiro dos anos 70. Então, ele é um filme vintage. Não usamos computação gráfica, animação, lettering animado, nada disso. O documentário é todo feito artesanalmente”, disse, acrescentando que o projeto foi concebido em dois anos entre produção e pesquisa.
Ao longo do processo, o diretor afirmou que buscou construir uma experiência sensorial em torno da figura do poeta, fugindo de uma narrativa biográfica tradicional.
“Na verdade, o filme é sobre ser o Ruy Barata, o que era essa figura apolínea e dionisíaca amazônica que conciliava disciplina, desregramento, arte pura e técnica matemática da poesia”, declarou.
O cineasta também explicou que a estrutura do documentário foi construída de maneira emocional. “Existe uma ordem cronológica, mas não é uma ordem cronológica temporal. É uma ordem cronológica espiritual. É um filme sobre as emoções que o Rui e o trabalho dele provocam”, afirmou.
Imagens raras e arquivos históricos
Entre os materiais utilizados no longa estão imagens raras de arquivo, incluindo registros cedidos pelo documentarista Alan Kardec. Vlad destacou a importância do documentário “Belém aos 80” para a construção visual do projeto. “Foi muito importante para esse filme porque era um mergulho naquela época em que justamente o Ruy foi mais atuante”, contou.
O diretor também ressaltou a relevância de uma entrevista rara concedida pelo poeta ao programa “Sem Censura”, da TV Cultura do Pará. “Quando você vê aquele homem na tela, com aquele linguajar, aquela fluência, aquele cinismo e deboche falando coisas muito sérias, o filme ganha uma força que não ganharia sem esse material”, afirmou.
Ruy Barata e a luta política
Falecido há quase 36 anos, o escritor, compositor e intelectual segue presente no cotidiano da cultura paraense por meio das músicas, poemas e reflexões que atravessaram gerações.
Durante a entrevista, Vlad também relembrou a convivência familiar com Ruy Barata e sua presença nos movimentos políticos durante a ditadura militar.
“Eu cresci vendo o Ruy muito presente na luta política e na defesa da democracia. Vi ele ao lado de presos políticos, camponeses, padres do Araguaia e também nas Diretas”, afirmou.
Circuito de festivais
Sobre os planos para o documentário após a pré-estreia em Belém, Vlad Cunha afirmou que a produção deverá seguir para o circuito de festivais nacionais e internacionais. “Depois da pré-estreia ele vai começar a ser inscrito nos festivais pra correr esse circuito”, adiantou o diretor.
Palavras-chave
COMPARTILHE ESSA NOTÍCIA