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No Dia do Artista Plástico, paraenses falam sobre impacto da pandemia em suas produções

Nomes como Eme e Caio Aguiar, que representam uma visão urbana e, ao mesmo tempo, tradicional da Amazônia, falam sobre como o coronavírus mudou o modo deles de enxergarem o mundo

Caio Oliveira

Neste oito de maio, o pintor e desenhista José Ferraz de Almeida Júnior completaria 171 anos de vida. O artista foi um dos maiores expoentes do Realismo brasileiro, destacando-se como precursor da abordagem de temática regionalista, introduzindo assuntos até então inéditos na produção considerada de alta cultura, dando destaque à vida caipira, com personagens simples que, de fato, retratavam o Brasil real. Por causa de tamanho pioneirismo, a data de seu aniversário foi escolhida como o Dia do Artista Plástico, momento que celebra aqueles que imprimem por meio da arte a sua percepção do mundo e nos ajudam a trazer um pouco de ordem para nossas vidas, principalmente, em um momento tão caótico do mundo. 


José Ferraz nem imaginava que o país que ele tanto amava retratar iria passar por uma pandemia arrasadora como nunca vista antes mais de um século após sua morte. Ainda assim, ficaria feliz em saber que brasileiros do século 21 seguem, assim como ele, usando sua intimidade com as tintas para deixar um registro daquilo que os cercam e os inspiram. Um desses operários da imagem é Eme, artista amazônida, nascido em Belém que vem trilhando sua trajetória nas artes visuais há quase uma década, com fortes influências da cena artística urbana, a partir de vivências com coletivos de arte urbana, como o Cosptinta, que lhe conferiu experiências no grafitti e muralismo. Atualmente, Eme exibe o projeto “Vida sobre rodas”, exposição de pinturas inéditas que retratam personagens que permeiam o cotidiano das ruas e praças de Belém, que também foram afetados pela pandemia. 


“A exposição fala de pessoas que encontraram uma maneira de sobreviver através de objetos que usam rodas, aí vem o pipoqueiro, o vendedor de raspa-raspa, o bike som, que geralmente usam esse móbile: a bicicleta”, conta o artista que, de certa forma, também ganha a vida pedalando. “Eu andava de skate pela cidade, e mais tarde, de bicicleta. Nas minhas observações como ciclista, eu fui percebendo como as pessoas usavam a bicicleta na cidade, então, foquei nessas pessoas que, para mim, são os exemplos dos novos heróis. Nos museus, estamos acostumados a cultuar os heróis europeus, e eu acredito que com esse processo de descolonização, essas pessoas são os verdadeiros retratos de heróis contemporâneos que permanecem vivendo nessa constância da vida, que sobe e desce, sobe e desce, como uma espiral, que faz pulsar a vida dessas pessoas e elas conseguem encontrar um meio de percorrer esses caminhos tortuosos”, explica o artista que roda a cidade, que fala como a vinda do coronavírus impactou seu trabalho. 

“Tudo que acontece na vida tem dois lados, o positivo e o negativo. De forma geral, o negativo eu acredito que todo mundo já conhece, mas de forma positiva [a pandemia] permitiu que, nesse isolamento, eu pudesse me dedicar mais ainda ao trabalho, na produção mesmo, entrar no estúdio sem hora para sair, ser um operário da arte. O estúdio se tornou um templo, um laboratório de criação”, conta Eme, que vê sua arte como um bálsamo para ele e para o mundo. “Ela serviu muito para isso, até curar essas percepções de mundo, trazer esperança para as pessoas. Eu acredito que a função da arte é essa, através da pintura, trazer um respiro para as pessoas, para ver que em uma vida simples, ainda existe esperança, que a gente pode acreditar que a cidade vai mudar, que as pessoas fazem parte de uma corrente que nutre as ruas”, encerra o belenense. A exposição “Vida sobre Rodas” segue aberta para visitação até dia 27 de junho, na Casa Namata (Av. Conselheiro Furtado, 287, Batista Campos).

 

Proteção no imaginário amazônico 


Natural de Ourém, no nordeste paraense, Caio Aguiar é um tipo de artista que ocupa tudo onde é possível retratar  suas “boniktas”, personagens criados por ele que discutem gênero, imaginário amazônida e cultura urbana. Tatuador, artista plástico e visual, ele também conta como foi atingido pelo surto global de covid-19, episódio que fez com que ele se reinventasse. 

Mural "Proteção", de Caio Aguiar (Arquivo Pessoal)

 

“Veio como um choque, um momento de olhar para outro caminho que a gente não olhava antes, um momento de renovação. Logo de início, foi muito ruim: parei minha produção e voltei a fazer pequenas coisas, mas minha produção de tatuagens, de telas, foi bem menor do que antes. Mas também foi um processo em que pude experimentar coisas novas. Produzi máscaras de papelão, reutilizar materiais devido à falta de grana e oportunidades. Eu pude me recriar, inventar coisas novas: produzi brincos, colares, a partir das minhas ideias”, explica o artista, que fala ainda como suas tintas se tornaram amuletos.


“A minha arte continua sendo mais voltada para o imaginário amazônico, que também tem a ver, como lance de pedir proteção, pedir saúde. Ainda mais a gente, no Norte, que já é esquecido pelo país e, em um momento desse, é mais ainda. Mas a gente se renova. Para mim, é uma fase de renovação, pensar em possibilidades que às vezes são impossíveis, mas a gente imagina e, dentro desse imaginário amazônico, a gente é capaz de muita coisa”, conta o jovem que se inspira no que os olhos veem para ampliar sua própria realidade.

Cultura
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