A periferia que incomoda com Pelé do Manifesto

O rapper canta e se inspira na vida cotidiana das periferias da capital paraense

Vito Gemaque

Cria do bairro da Cremação, o rapper Pelé do Manifesto canta o dia a dia de violência e discriminação social e também de alegria presente nas periferias de Belém. O artista vem se destacando no novo cenário musical paraense com raps que exaltam o orgulho de ser negro, denuncias sobre a violência e o racismo. O rap transformou o jovem Alan Rosevelt no Pelé do Manifesto. Esta transformação de consciência interna e externa resultou com o próprio Alan se reconhecendo como um homem negro da periferia. "Devo muito ao rap pela pessoa que me transformei hoje", explica.

"Não só um homem preto periférico que se reconhece como tal, eu acho que sou um dos porta-vozes da periferia. Um daqueles que fala o que a periferia não tem a possibilidade de falar, não tem o meio e não tem o canal. Hoje eu consigo por meio da música falar sobre o sentimento do jovem periférico, tudo o que está passando no seu cotidiano diariamente", acredita.

Pelé acaba sendo a expressão de um movimento cultural da capital paraense que tem crescido e se enraizado pela cidade, principalmente nas periferias com o florescer do rap que traz outros nomes como Bruno BO, Everton MC, Moraes MC e Bruna BG. Artistas que hoje sobrevivem da música. 

As batalhas de rap que começaram pequenas na Praça da República e depois na praça Floriano Peixoto, em São Brás, que a princípio era um lugar para treino. "A grande graça da rima é que não existe um campeão para sempre, eternamente. Hoje eu estou bem, amanhã eu posso estar mal", conta. Com início reunindo aproximadamente dez pessoas com uma pequena caixa de som Everton MC foi uma das pessoas que organizava as "batalhas" de rimas improvisadas em São Brás. Os rappers precisavam vencer o adversário falando sobre o momento, o ambiente e também desqualificando o rapper rival.

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Com o término da batalha da praça, o treino de São Brás se transformou na principal batalha que continuou e cresceu. Durante os últimos anos, os eventos se espalharam por outros bairros periféricos de Belém. "Depois do treino de São Brás virou batalha. Eram oito pessoas e uma caixinha. Depois foi crescendo e crescendo, a caixinha virou um equipamento de som maior, oito pessoas viraram 300 a 400 pessoas numa praça e assim a cultura das batalhas em Belém deu uma pulsada", relembra.

Pelé lançará no segundo semestre deste ano o terceiro álbum, que está sendo finalizado. O álbum de inéditas haverá uma mistura do rap com outros estilos libertando a visão musical e o talento do artista. "A característica deste CD vai ser o rap com rock. Eu gostava de muito rock nacional, muita música de protesto. Desde moleque", revela. 

Ele considera que o rap tem que ser acessível para todos os públicos, mas sempre sem perder a raiz e inspirações na periferia. "A gente não pode limitar o nosso som. A gente briga tanto por liberdade no rap, que não pode se limitar", indica. "Estas vivências que a gente tem na periferia é que faz a gente ter um tempero a mais. Quando a gente canta, compõe a nossa realidade a gente canta e compõe com amor e verdade. Acho que é isso que toca o público que reconhece a verdade na nossa palavra e olhar. Quando falamos de algo que a gente viveu. Ser periférico acaba gerando vários momentos difíceis, mas vários momentos ricos, não só coisas tristes como coisas alegres. Na periferia você tem o calor humano", declara.

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