‘Mundano’, ‘atemporal’, ‘poeta’: Cronista e cartunista de O Liberal lamentam morte de Verissimo
Luis Fernando Verissimo morreu aos 88 anos e deixou legado imortal na crônica e no humor brasileiro; escritores de O Liberal relembram o impacto da obra dele na literatura e na comunicação brasileira.

Luis Fernando Verissimo, um dos maiores escritores e cronistas do Brasil, morreu neste sábado (30/08), após complicações de saúde, deixando um legado que transcende gerações. Reconhecido pelo humor ácido, inteligência e sensibilidade, Verissimo não apenas revolucionou a crônica, mas também influenciou escritores e cartunistas de todo o país. Cronista e cartunista do jornal O Liberal recordaram o impacto do autor gaúcho na literatura brasileira e na mídia.
O impacto de Verissimo na crônica e na literatura brasileira
Raimundo Sodré, cronista de O Liberal que escreve aos sábados, destacou a leveza e a diversidade que Verissimo trouxe para o gênero da crônica.
"Verissimo tornou a crônica mais leve, bem humorada, além de diversa. Ele ampliou o enredo dos textos e deu a cada crônica uma nova perspectiva, utilizando a língua de maneira curiosa", afirma.
Para o escritor, a crônica de Verissimo não era apenas um espaço de reflexão, mas também uma forma de diversão e crítica, capaz de tocar os leitores de diferentes formas.
J. Bosco, cartunista há 37 anos no jornal, acrescentou que a obra de Verissimo também teve grande impacto no jornalismo, especialmente com sua habilidade de contar histórias com humor e ironia.
"O texto de Verissimo é limpo, direto, com humor que atinge a todos, a família Brasil. Ele tem uma ironia perfeita, que tornou suas crônicas atemporais", diz Bosco, destacando que a escrita de Verissimo sempre foi inclusiva, alcançando diferentes públicos com sua visão crítica e divertida.
O estilo único de Verissimo
O estilo de Verissimo, que combinava humor, crítica social e uma visão única da realidade brasileira, era um dos aspectos que mais o diferenciava de outros escritores e cronistas.
"Verissimo era um poeta, clássico, mundano. Ele falava de tudo com a mesma desenvoltura, de moda, comida, música e até futebol", aponta Raimundo Sodré, enfatizando o repertório vasto do escritor.
Para J. Bosco, Verissimo se destacava entre outros cronistas e cartunistas por sua capacidade de fazer humor com temas pesados, como a ditadura militar, o que o tornava único.
"Ele veio de uma turma de cronistas como Carlos Eduardo Novaes, com muito veneno e humor, que todo cartunista e ilustrador gosta de ilustrar", comentou.
O humor revelador e a crítica social
Verissimo sempre teve a habilidade de tocar em assuntos tabus e revelar segredos da sociedade. Raimundo Sodré cita um exemplo claro disso:
"O manual sexual de Verissimo, publicado em O analista de Bagé, conta um pouco dessa característica desveladora de segredos. Ele quebrava tabus de forma suave, trazendo um humor que tinha uma pitada de doce humanidade."
J. Bosco também lembra o impacto da obra de Verissimo sobre o Brasil pós-ditadura:
"O humor de Verissimo sempre teve a cara do Brasil sofrido, desde a época da ditadura, quando ele começou a desenhar as cobras. O humor dele era uma forma de resistência e reflexão sobre o momento histórico."
O legado de Verissimo no jornalismo e na crônica moderna
Luis Fernando Verissimo não só influenciou a crônica, mas também foi um dos precursores do jornalismo moderno no Brasil. A passagem pelo Pasquim, um dos mais importantes jornais de humor do país, marcou sua contribuição para a crônica ácida e irreverente.
"No início dos anos 80, com O analista de Bagé, ele chamou a atenção por dominar o Brasil com uma narrativa regional. Isso animou outros escritores a produzirem crônicas de seus próprios lugares de origem", lembra Raimundo Sodré.
Para J. Bosco, Verissimo foi um dos grandes responsáveis pela renovação da crônica brasileira, juntamente com outros nomes influentes da época.
"Ele tinha uma forma única de ver a vida e transformá-la em crônicas e cartuns, como A Família Brasil e As Cobras, que marcam sua carreira", diz o cartunista.
O vazio deixado pelo escritor
Para Raimundo Sodré, a perda é dolorosa, mas o legado do escritor continuará a inspirar novas gerações.
"Há, por certo, a tristeza e o vazio, mas sua obra será eternamente lembrada. Uma legião de fãs e criadores influenciados por ele levarão sua obra pelos caminhos do futuro", afirma.
J. Bosco compartilha da mesma tristeza, destacando a perda de um mestre das letras e das artes gráficas.
"Tristeza total. Depois de Ziraldo, Jaguar, e agora Verissimo. Um cartunista, saxofonista e gênio das crônicas brasileiras", lamenta.
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