Jornalista paraense, que levou o Emmy Award, defende trabalho focado nos direitos do cidadão
Geovany Dias, 32 anos, conta em entrevista ao Grupo Liberal o que pensa sobre o jornalismo e como convive com a saudade de tudo do Pará
Jornalismo é algo intrinsecamente humano, uma profissão que envolve fundamentalmente compromisso com os cidadãos. Esse é o ponto de vista de Geovany Dias, um paraense de 32 anos, jornalista, que acaba de conquistar o Emmy Award na categoria Melhor Cobertura Jornalística por reportagens investigativas sobre a prisão de um Xerife do Condado de Osceola, na Flórida (EUA), por envolvimento com o crime organizado. A premiação se deu no dia 6 de dezembro. Giovany nasceu no Distrito de Mosqueiro, em Belém, formou-se na Universidade Federal do Pará (UFPA) e é mestre em Jornalismo e Estudos da Mídia pela Universidade Estadual do Alabama. O Emmy Award é uma das mais importantes premiações do jornalismo e da televisão nos Estados Unidos.
Em entrevista exclusiva ao Grupo Liberal, na terça-feira (30), Geovany Dias informou que morou em Mosqueiro até os dez anos de idade. Então, mudou-se para Belém. Para ele, ganhar o Emmy Award “em resumo, significa reconhecimento”. “Constantemente a gente se questiona sobre o nosso potencial, independentemente da profissão ou do país onde a gente está. Depois de cinco indicações e seis anos exercendo a profissão nos Estados Unidos, essa premiação me traz a sensação de dever cumprido e de que o esforço valeu a pena”, disse.
Geovany contou que “a cobertura durou meses – iniciou em junho, com a prisão do xerife, e continuou por meses adiante, quando mostramos a audiência de custódia, e a prisão da esposa dele e de outras pessoas supostamente envolvidas no esquema de corrupção”. “Profissionalmente, atribuo a conquista ao trabalho em equipe de produtores e outros repórteres que estiveram comigo durante a cobertura”, acrescentou.
A lição que se sobressai desse momento emblemático para Geovany reforça o compromisso dele com a profissão e com o público. “A gente vive um momento em que informação é constantemente disponível em todos os lugares, e às vezes é difícil de saber no que acreditar, o que torna o trabalho do jornalista ainda mais fundamental; é nossa responsabilidade, da imprensa, de investigar, de ir atrás, e garantir que órgãos e instituições públicas façam o que são pagas pelo dinheiro público para fazer. Profissionalmente, esse prêmio é o resultado de meses de investigação e de anos de dedicação ao jornalismo de TV”.
Como informou Geovany, essa cobertura foi feita para o canal WFTV ABC Orlando, Flórida, afiliado ao grupo ABC News. “Trabalhei na emissora como repórter e apresentador por dois anos. Hoje trabalho em Nova York, na CW, como repórter especializado em imigração”, repassou. Ainda em Belém, Geovany atuou na TV Liberal, afiliada da Rede Globo.
Jornalismo e saudade
Geovany Dias tem bem claro o que significa atuar como jornalista. “Ser jornalista é sinônimo de responsabilidade. Existe uma frase famosa que diz ‘Jornalismo é publicar algo que alguém não quer que seja publicado; todo o resto são relações públicas’. Vejo jornalismo por essa visão, de que a sociedade precisa do nosso questionamento, da nossa curiosidade, pra funcionar – seja cobrando o saneamento básico no Guamá, seja expondo um esquema de corrupção na Flórida, a importância social do jornalismo é indiscutível”.
Para ele, “o fator que define qualquer reportagem é o benefício ao espectador”. Como disse: “Quando você produz conteúdo jornalístico, você está pedindo a atenção e a dedicação do teu espectador – e em tempos de TikTok e Instagram Reels, atenção é uma comódite rara. Quando me proponho a fazer uma reportagem, meu fator decisivo sempre é a quem esse conteúdo interessa e como eu vou fazer a diferença na vida dessa pessoa”.
O futuro do jornalismo é construído dia a dia, como entende Geovany. “Jornalismo é uma profissão que se modifica de tempos em tempos, e eu imagino que estamos a passar por mais um momento desafiador com a expansão do uso de inteligência artificial. Dito isto, acredito que temos uma oportunidade aqui também – é a nossa chance de mostrarmos nosso valor à sociedade ainda mais; ChatGPT não é capaz de ir até Icoaraci pra mostrar o problema da Dona Raimunda, por exemplo”.
“O fazer jornalístico é intrinsecamente humano, e a gente precisa lembrar disso enquanto jornalistas e não se sentir desencorajado pela tecnologia. Ao invés disso, temos que ter noção de como essa tecnologia funciona e até mesmo usá-la de forma inteligente e apropriada”, enfatizou.
“O mesmo vale para polarização política. A retórica política tem sido mais agressiva nos últimos anos, e existe uma tentativa constante de deslegitimação da verdade jornalística. Mais uma vez, a gente precisa continuar exercendo nosso trabalho de forma responsável, checada e imparcial”, acrescenta Geovany Dias, que hoje mora em Manhattan, Nova York. Ele se mudou para os Estados Unidos em agosto de 2017.
Quando o assunto é saudade de casa, Geovany revela que sente falta de “absolutamente tudo do Pará!”. “Eu tento ir a Belém e Mosqueiro uma vez por ano pra matar a saudade. Definitivamente, sinto muita saudade de tacacá (só de falar já dá vontade), tapioquinha de Mosqueiro, peixe frito do Areião, e por aí vai. Pra time, claro que torço pro Rei da Amazônia, Clube do Remo”, declarou.
E como o Ano Novo começa em 2026, ele tem planos à vista. “Muita expectativa pra 2026, agora cobrindo imigração aqui, em Nova York, em um momento crucial da história dos Estados Unidos. Espero continuar contando histórias importantes, que façam a diferença na vida das pessoas, então a responsabilidade só aumenta. E espero também passar o Círio em Belém este ano!”, finalizou.
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