Documentário resgata a memória do violonista paraense Tó Teixeira após 40 anos
Filme de Januário Guedes e Chico Carneiro estreia nesta segunda (2), no Cine Líbero Luxardo, em Belém
Quatro décadas após as primeiras filmagens, o documentário “Tó Teixeira... Cotidiano e Memória” chega finalmente às telas. Dirigido por Januário Guedes e Chico Carneiro, o filme estreia nesta segunda-feira (2), às 19h, no Cine Líbero Luxardo, trazendo um registro raro e histórico do violonista paraense Tó Teixeira, gravado em 1982, poucos meses antes de sua morte.
Em entrevista ao Grupo Liberal neste domingo (1º), o diretor Januário Guedes relembrou os desafios enfrentados até a conclusão da obra e destacou a importância cultural do personagem retratado.
Um projeto interrompido pelo tempo
As imagens que compõem o documentário foram captadas há mais de 40 anos. No entanto, dificuldades financeiras e a falta de apoio institucional impediram a finalização do projeto à época.
“O desejo de terminar o filme sempre existiu, mas uma série de circunstâncias não o permitiu”, afirmou Guedes.
Ele lembra que o trabalho foi realizado em parceria com Chico Carneiro, que também assina a produção, além da participação de Aldemir Silva (já falecido) e Sábato Rosseti nas filmagens.
Após a montagem do copião, o negativo foi guardado na Cinemateca Brasileira. Nesse período, Chico Carneiro mudou-se para São Paulo e, posteriormente, para Moçambique, onde viveu e trabalhou com cinema por mais de 40 anos.
O projeto só foi retomado em 2025, quando Carneiro voltou a morar em Belém.
“Resolvemos retomar o filme. Inscrevemos o projeto nos editais LGG e Aldir Blanc, mas não conseguimos aprovação. A finalização foi feita a trancos e barrancos, com recursos próprios”, relatou o diretor.
Um registro raro da cultura paraense
Filmado em 1982, o documentário tem valor histórico singular por registrar Tó Teixeira poucos meses antes de sua morte. Para Guedes, a importância do filme está diretamente ligada à relevância do personagem.
“A importância do registro é dada pela importância do personagem registrado”, destacou.
Tó Teixeira teve papel fundamental na música paraense da primeira metade do século XX. Além de violonista, mantinha uma oficina de encadernação na Rua 13 de Maio, onde preservava livros e mantinha contato com intelectuais da época, entre eles o poeta Bruno de Menezes, de quem era amigo.
Professor de diversos músicos em Belém, Tó também foi mestre de Aldemir Silva, integrante da equipe de filmagem e responsável por aproximar os diretores do artista.
“Foi Aldemir quem nos introduziu à confiança de Tó, o que permitiu filmá-lo na intimidade de seu cotidiano”, contou Guedes.
Desafios técnicos e preservação da memória
Além da escassez de recursos, a equipe enfrentou problemas relacionados à conservação do material original. Os cortes de verba que atingiram a Cinemateca Brasileira nos últimos anos provocaram a deterioração do negativo armazenado.
Diante desse cenário, os realizadores optaram por utilizar o copião — cópia de trabalho —, que também apresentava desgaste provocado pelo tempo. O material foi digitalizado, convertido definitivamente para o preto e branco e passou por estabilização de imagem.
“O principal desafio foi a falta de recursos e apoio das instituições públicas da cultura”, afirmou Guedes.
Simplicidade, humor e lucidez aos 88 anos
O público que comparecer à estreia poderá conhecer de perto não apenas o músico, mas o homem por trás da obra. No documentário, Tó Teixeira aparece aos 88 anos, lúcido, bem-humorado e ainda produzindo música.
Segundo Guedes, trata-se do único registro audiovisual em que o artista aparece falando sobre sua própria trajetória.
O diretor relembra uma frase que, para ele, sintetiza o espírito do personagem. Ao ser perguntado sobre como aprendeu música e encadernação, Tó respondeu com ironia:
“Meu filho, é muita história pra pouca cabeça.”
Quarenta anos depois, a história finalmente ganha as telas — e oferece ao público paraense um encontro raro com uma das figuras centrais de sua memória cultural.
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