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Circuito alternativo fora de cena: Líbero Luxardo e Olympia fazem falta após mais de um ano fechados

Principais salas exibidoras de filmes de menor distribuição, em Belém, dependem do avanço da vacinação para reabertura; enquanto isso, frequentadores assíduos se apegam em memórias

Lucas Costa

Desde que o bandeiramento da Região Metropolitana de Belém permitiu a reabertura das salas de cinema, ainda sob medidas de proteção contra a covid-19, uma comunidade grande de amantes da sétima arte pôde voltar a exercer o seu hobby. No entanto, o circuito alternativo de cinema da capital, que envolve desde os cineclubes até as salas do Cine Líbero Luxardo e Cine Olympia, segue com sessões suspensas.

É fato que nas redes do circuito comercial nem todas as salas estão em pleno funcionamento, e com a quantidade de blockbusters em cartaz, tem sobrado pouco espaço para filmes de menor distribuição, independentes e festivais. Dessa forma, as comunidades frequentadoras do circuito alternativo seguem com uma grande saudade das salas exibidoras.

O crítico de cinema Marco Antônio Moreira, que foi programador do Cine Olympia até o momento em que a pandemia suspendeu a programação do local, fala sobre a falta que as salas tem feito. “A maioria das salas de cinema alternativo, a nível nacional, tem feito sugestões de filmes para assistir em casa, como indicação de DVDs ou links. Mas acredito que, assim como eu, muitos cinéfilos preferem ver filmes no cinema. Não desmerecendo o ritual de casa, mas eu particularmente sinto falta de ir ao cinema. Para mim, é o melhor lugar do mundo”, conta.

Marco também faz parte da Associação de Críticos de Cinema do Pará, responsável por alguns cineclubes que costumavam ser periódicos antes da pandemia; também coordena o Centro de Estudos Cinematográficos (CEC), que tem mantido sua programação de debates em formato virtual.

Rafael Oliveira, Isabella Moraes, Michelly Lobato, Mateus Chaves e Mateus Monteiro compartilham histórias de afeto com o Cine Líbero Luxardo (Sidney Oliveira/O Liberal)

O circuito alternativo da cidade costumava envolver uma série de locais, se apropriando até mesmo de auditórios para usá-los como cinemas; quase sempre em sessões gratuitas, como era o caso do Cine CCBEU e Cine Sindmepa. Sessões com debates também ocorriam na Casa das Artes; e o Cine Líbero Luxardo mantinha uma programação semanal sempre fresca, por vezes com mais de uma sessão ao longo do dia, além de sediar uma série de festivais. Era no Líbero onde havia as famosas sessões “Cineliso”, gratuita; e a “Sessão Maldita”, que exibia clássicos do terror. No caso do Cine Olympia, as sessões também eram diárias, com a diferença de que todas eram gratuitas.

Todos estes espaços seguem com suas atividades suspensas, principalmente por conta da pandemia. Marco, que confessa ainda não ter voltado a frequentar o cinema mesmo nas salas comerciais, defende que manter as salas alternativas fechadas é uma atitude acertada.

“Foi duro ver o Olympia e o Líbero fechados, não ter cineclubes. Mas agora é hora da cidadania, hora de a gente contribuir. Isso vai passar, mas só se nós todos fizermos nosso dever de casa", defende.

Líbero Luxardo e Olympia devem seguir de portas fechadas

Com tantas sessões que costumavam ser semanais, suspensas há mais de um ano, toda uma comunidade tem sentido falta de assistir em tela grande filmes que dificilmente chegam ao circuito comercial. Essa espera, infelizmente, ainda parece estar longe do fim.

Das enormes filas ao cheirinho de pipoca, saudade dos frequentadores do Cine Líbero Luxardo vai além dos filmes (Sidney Oliveira/O Liberal)

Procurado pela reportagem de O Liberal, o Cine Líbero Luxardo informou por meio de assessoria que tanto projetos paralelos quanto sessões regulares seguem suspensos, decisão tomada em comum acordo com os parceiros responsáveis pelas sessões, que decidiram só retomar quando uma porcentagem maior da população estiver vacinada.

Das enormes filas ao cheirinho de pipoca, saudade dos frequentadores do Cine Líbero Luxardo vai além dos filmes (Sidney Oliveira/O Liberal)

Uma notícia boa, é que nesse meio tempo o projetor digital do Cine Líbero Luxardo passa por uma manutenção, para garantir a qualidade das sessões. Sobre projetos, a assessoria informou ainda que o Líbero está trabalhando na implementação de uma sala virtual, que no momento está em fase de licenciamento de filmes. A programação será gratuita e poderá ser acessada de qualquer local até mesmo pelo celular.

"A equipe do cine Líbero está ansiosa para receber o público novamente, mas deseja que esse retorno seja de forma segura para todos", diz Nádia Alves, Coordenadora do Cine Líbero Luxardo.

No caso do Cine Olympia, também fechado, o retorno das atividades não depende somente da vacinação. A assessoria do local informou que o prédio deve passar por uma obra, e que a Secretaria Municipal de Urbanismo (Seurb) está elaborando um plano de restauro do prédio. “Após essa etapa, vamos em busca de financiamento da obra. Mas o cinema não está parado, as redes sociais além de informações diárias sobre a sétima arte ainda indicam filmes nacionais e estrangeiros para os cinéfilos”, completa a nota.

Enquanto a espera não chega ao fim, os frequentadores desses lugares têm apenas memórias para se apegar. O universitário Jonatha Brito, que começou a ter uma relação com o Cine Olympia por acaso, quando depois de uma visita ao centro comercial de Belém entrou no local por curiosidade, agora sente falta.

“Me tornei um frequentador, quando visito essa região da cidade. A primeira vez que entrei, foi como se tivessem me capturado para uma época do início do século passado, e a iluminação, os filmes antigos, as poltronas quase sempre vazias, o que é uma pena, compõem um cenário de nostalgia e de fuga da correria da cidade. Meu desejo é que mais pessoas vivenciem e impulsionem sua existência como memória e como espaço acessível de cultura”, relembra.

Michelly Monteiro, universitária que mora próximo ao Centur, onde fica localizado o Cine Líbero Luxardo, descreve a falta do cinema como a perda de sua segunda casa. “Minha relação com o Líbero é de muito afeto, porque literalmente fazia parte do meu dia a dia. Eu saia da faculdade e ia lá assistir filme, ficar ali na praça[...]. Sempre tinha esse costume de estar lá, então faz muita falta”, descreve.

Para a jornalista Isabella Moraes, a saudade também é do Líbero. “Era um lugar muito presente na minha semana, tanto pra ir com amigos num final de semana, com o pessoal do trabalho depois do expediente, mas principalmente sozinha”, relembra.

“Era um lugar que eu gostava muito de ‘me levar’ pra passear, um rolê intimista e tranquilo, mas também adorava encontrar alguém conhecido por lá pelo acaso, isso é algo mágico da cidade, né?”, conta.

Mateus Chaves, estudante de engenharia civil, sente falta das emoções causadas pelo cinema. “Minha relação é de refúgio. Sempre que estou muito triste, com um problema ou quero um tempo para pensar, vou ao cinema. Vivo uma outra vida, me apaixono, conheço coisas novas, tenho outras visões, aprendo história”, diz ele.

"Estar no escuro é a minha chance de chorar em público. Eu sempre falo que pago cinema pra chorar, e quando o filme é muito bom e muito emocionante, gosto de chorar. Lá estou sem amarras, e é isso, é um amor que tenho mesmo pelo cinema, é minha fuga, minha felicidade”, descreve Chaves.

O designer gráfico Newton Correa, cinéfilo confesso, lembra que seu amor pelo cinema surgiu na infância, com o Olympia. “A primeira vez que o visitei [o Olympia] foi em 2002, e foi lá que nasceu a minha paixão pelo cinema. Acho ele imponente e ao mesmo tempo muito charmoso. É um dos poucos cinemas de rua, local que, pra mim, tem uma energia diferente, parece que a magia dos filmes é mais radiante nesse lugar”, conta.

O estudante de moda Mateus Monteiro tem com Líbero a relação com o momento marcante de sua vida. “Minha relação foi um ponto da minha adolescência. Começou sendo uma descoberta e local de frequência de visitação durante minha juventude, e além de acesso a filmes não comuns do circuito comercial”, conta.

Cinema
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