Ailton Krenak e Hiromi Nagakura se reencontram em Belém para debater Amazônia

Escritor indígena e fotógrafo japonês refletem sobre as transformações do bioma em exposição e roda de conversa na capital paraense

Eduardo Rocha
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O escritor indígena Ailton Krenak, primeiro membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) de sua etnia, e o fotógrafo japonês Hiromi Nagakura se reencontraram em Belém nesta segunda-feira (12), data do aniversário da capital paraense. O encontro ocorreu no Centro Cultural Banco da Amazônia, onde participaram de uma roda de conversa com o público sobre uma exposição fotográfica que reúne imagens das viagens que ambos fizeram à Amazônia nos anos 1990.

Em entrevista exclusiva, Krenak ressaltou que a realidade amazônica mudou significativamente de lá para cá e, com ela, a consciência sobre os riscos da depredação do bioma. A exposição celebra o aniversário de Belém e as atividades com os amigos seguem até quarta-feira (14).

A exposição “Hiromi Nagakura até a Amazônia com Ailton Krenak”

A mostra, organizada pelo Instituto Tomie Ohtake com patrocínio do Banco da Amazônia, foi abordada pelos artistas. Krenak destacou que, para eles, o reencontro na capital paraense e a oportunidade de debater um tema de importância planetária foram o verdadeiro presente, mesmo com o aniversário de Belém.

A exposição já percorreu o Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, e passou por Rio de Janeiro, Brasília (DF), Belo Horizonte (MG) e Fortaleza (CE). “Ela tinha que vir para a Amazônia. Então, para nós o presente, na verdade, é inaugurar essa exposição no território onde ele ganhou sentido. As nossas viagens a gente podia chamar de ‘Viagens Filosóficas à Amazônia’”, ressaltou Krenak.

As transformações da Amazônia

Ailton Krenak pontuou as profundas mudanças na realidade amazônica desde as imagens de Nagakura. O escritor afirmou que a Amazônia visitada em 1993 e 1994 se transformou de maneira impressionante, com a chegada de grandes investimentos e uma infraestrutura agressiva não planejada.

Ele descreveu que a Amazônia Legal passou a sofrer um assédio muito grande do agronegócio e da infraestrutura pesada do Estado brasileiro. Krenak enfatizou a necessidade de planejar com cuidado qualquer avanço sobre o bioma.

O escritor ponderou que a Amazônia é um ecossistema maravilhoso e frágil, que exige cautela. “Então, é para pisar devagarzinho. Não dá para entrar na Amazônia de botas”, comparou. Ele acrescentou que as fotos de Nagakura revelam não só alterações nas paisagens, mas também nas pessoas.

Krenak observou um aumento na consciência do risco, mas não na capacidade de evitar danos previsíveis. Mencionou o desaparecimento e retorno de rios, e botos cozinhando em lagos, descrevendo-os como paisagens criadas pela omissão humana ou excesso de intervenção.

O autor criticou a “ingênua vaidade” de pensar que “a Amazônia é nossa”, lembrando que é um bioma compartilhado com Colômbia, Bolívia, Equador, Venezuela e outros vizinhos. Ele alertou que eventos nesses países afetam o Brasil.

Ailton Krenak também expressou preocupação com a “desgovernança global” e o risco de partes do planeta desaparecerem sem a intervenção dos povos locais, incluindo a Amazônia.

Visões sobre o bioma

Hiromi Nagakura, que está prestes a completar 50 anos de carreira, disse que, por meio das fotos, é possível notar tanto as mudanças quanto aquilo que permaneceu. O fotógrafo expressou tristeza ao constatar a devastação do cenário amazônico.

A fisioterapeuta Isa Txima, do povo Huni Kuin, cujos familiares foram fotografados por Nagakura antes de seu nascimento, ressaltou que as imagens mostram as transformações do passado, presentes no agora e que apontam para o futuro. As rodas de conversa na exposição prosseguem até esta quarta-feira (14).

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